_______________________________________________Manuel Castro Nunes,
Serei breve, porque não quero tomar demasiado o seu tempo, nem o de quem nos lê:
1) Recuso veementemente essa dicotomia entre “ter” ou “não ter” ideologia: esta está em tudo, tudo é ideológico, tudo é político, como já escrevi na pequena nota que apenas cito, para evitar repetições: https://www.facebook.com/raposo.luis/posts/2377240682394499; a discussão sobre a definição de museu é tão ideológica de um lado como do outro, não obstante os media, na sua simplificação abusiva, levarem a fazer crer o contrário, atribuindo-me inclusive frases que eu não disse ou disse;
2) Que diferenças entre “centro interpretativo” e “museu”? Boa questão à qual não tenho a pretensão de lhe saber dar resposta definitiva. Para mim, o cerne da questão está na centralidade, ou não, de colecções originais, objectos materiais únicos e insubstutíveis, que envolvem saberes técnicos particulares no que toca à sua interrogação, registo, conservação, exposição e divulgação em geral. Possuindo e centrando o discurso nestes, é museu; centrando-se em documentação bidimensional (material ou digital), é arquivo, biblioteca ou… centro de documentação; dou um bom exemplo, teorizado há anos pelo Rui Parreira: em Alcalar existe um centro de interpretação (cópias de peças, documentação, etc); em Portimão existe um museu, com as peças originais
3) Por fim o mais “bicudo”, o caso do “Museu de Salazar” ou Centro de Interpretação do Estado Novo. Devo dizer que apreciei muitíssimo a sua intervenção há dias aqui nesta plataforma. Muitíssimo mesmo: pensei de mim para mim: bem achado, até no uso do vernacular, como se impunha no caso! Dito isto, não o acompanho na diabolização, ou mesmo da declaração da inviabilidade democrática de um projecto, museu ou centro de documentação, sobre a temática referida. Hoje li no Publico a “carta ao director” da Raquel Henriques da Silva que deveras me interpelou, porque estou basicamente de acordo com ela; já enviei resposta para o mesmo local, que espero seja publicada, quem sabe se já amanhã; se não for, prometo que a deixarei eu aqui.
Cumprimentos do,
Luís Raposo
Quoting Manuel de Castro Nunes <arteminvenite@gmail.com>:
O que é um centro interpretativo?
I. Para definirmos o que é um centro interpretativo teríamos previamente que definir o que é um museu.
Tornou-se imperativo tornar claro e óbvio que um centro interpretativo não é um museu nem um museu um centro interpretativo.
Obviamente, também, um presidente de câmara não é um historiador nem um historiador um presidente de câmara. Assim sendo, a ''visão'' de Luís Reis Torgal não pode coincidir rigorosamente com a de Leonel Gouveia. Mas coincidem num tópico estruturante, um centro interpretativo, tenha ou não o figurino de museu, pode alojar-se e cabe na Escola Cantina Salazar.
Um museu é um centro interpretativo? Li com muita atenção e rigoroso critério analítico o que escreveu Luís Raposo ontem, dia 12 de Setembro, no PÚBLICO, sobre ''o que é ''ser museu'' na definição do ICOM''.
Dá-nos conta de que em Quioto a Assembleia Geral do ICOM debateu no início do mês ''uma nova deinição de museu''. Conta-nos também que 70% dos presentes, em representação de quarenta e quatro mil profissionais de museologia, entendeu por bem adiar a definição de ''ser museu''.
A Assembleia Geral do ICOM teve então que ''conhecer'' duzentas e sessenta e nove propostas que Luís Raposo reduz a um dilema.
''(...)
A primeira perspectiva é mais própria de “activistas de todas as causas justas”; a segunda de profissionais de museus, sendo o ICOM precisamente uma ONG dos mesmos (mais de 44 mil em todo o mundo), concebida “da base para o topo”, ou seja, detida por mais de uma centena de comissões nacionais eleitas por voto secreto, por mais de três de dezenas de comités internacionais ou de especialidade e por oito alianças regionais, entre as quais a mais representativa (48 países aderentes e mais de 80% dos membros da organização), a do ICOM Europa.
(...)''
Para o leitor leigo, lido com muita atenção e rigor analítico o relatório de Luís Raposo, o que estava em causa cifra-se no dilema aglutinante do espírito da era em que a ciência sai em assanhada defesa do mais sólido argumento do populismo e ''ressurgimento'', o da neutralidade da história. Museus com ideologia ou museus sem ideologia?
A questão é manhosa e matreira e não devemos condescender com ela.
Vamos todavia aguardar pelos resultados do ''grupo de trabalho'' do ICOM e por futura Assembleia Geral para sabermos o que os ''operacionais'' definiram como ''ser museu''.
Ora, o debate a que ainda não se deu início foi aquele que urge para definir o que é ''ser centro interpretativo''.
O que é um centro interpretativo. Como cabe e se aloja um centro interpertrativo coordenado por uma Universidade na Escola Cantina Salazar, em Santa Comba Dão, não apenas no espaço físico mas no figurino, no contexto social e cultural da comunidade?
Pode parecer simples. Os ''especialistas'' da Universidade de Coimbra interpretam o Estado Novo e apresentam a sua interpretação condensada na Escola Cantina Salazar. Teremos pois em Santa Comba um museu, não do Estado Novo, mas das interpretações do Estado Novo.
Vamos seguir por aqui. O que é um museu e o que é um centro interpretativo?
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Manuel de Castro Nunes
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