Evidentemente. Tinha-o dito há um ano, quando critiquei a operação de desalojamento e desocupação do Território no Tejo através da arquitectura e do design. Que são sempre o cavalo-de-Tróia dos interesses imobiliários financiados pela indústria da construção civil e do turismo. A arquitectura vive e é financiada pela construção civil. Atrás de uma está a outra, como numa irmandade siamesa. Vivem e alimentam-se de uma acção mútua e recíproca. Já se sabe que mais tarde ou mais cedo vai haver ocupação e expulsão das populações de rendimentos mais baixos e das profissões que não contribuem para o turismo (hotéis, restauração, passeios de barco, e outras diversões, etc.) e para a venda de apartementos de luxo com belas-vistas. É curioso a pronúncia do acrónimo MAAT ser [MATE]. É quase profético. Ou talvez apenas mimético. Porque de facto parece tratar-se de morte. Para quem duvida e se ilude com as aparências, travestidas desse cavalo-de-Tróia que são as narrativas culturais e patrimoniais do discurso arquitetónico sobre o espaço e a museologia basta fazer um exercício de verificação. Compararem-se os donos-do-território antes e depois do MAAT. E responda-se à pergunta: «Depois do MAAT, quantas multinacionais desse ramo se instalaram nas margens do Tejo?». Mesmo ali ao lado. Agora não podem construir muito em altura. Mas já ocuparam o território onde, mais tarde ou mais cedo, isso vai acontecer… Um tempo que sabem que virá se tiverem paciência, e souberem agir na estrutura-de-Decisão da administração pública e no lobing político. Por exemplo: Quase toda a estrutura-de-Decisão sobre as questões do Património na administração pública (central e local) não está já tomada pela arquitectura? O que resta? As estatísticas dos passeantes/visitantes (dos que passeiam pelo espaço já desocupado que antes era das populações autóctones) e a maquia do IMI e dos impostos não servem já de justificação pública para o aval da Política? Os Centros ditos históricos são limpos de Populações e Pessoas prejudiciais ao turismo e ao negócio. Exatamente como se está a passar em Lisboa. Sobretudo após o «incêndio do Chiado» e da intervenção dita (passo a citar) “exemplar e cultural” de Siza. Quanto custa agora um apartamento e uma loja nesse local? E antes? Quem lá vive agora, e quem por lá passeia e tem emprego? O Pessoa nunca teria dinheiro para alugar lá uma casa, nem talvez para beber um absinto no Martinho. Nem xs profissionais, professores e alunxs de música, de arte, e de teatro; nem os gravadores, os douradores; xs fadistas; e outras Pessoas de tantas profissões que lá viviam e podiam lá ter uma casa … sentida como sua. Agora se quisessem teriam que vir de mota ou de transportes públicos da periferia até lá. Porém, foram Esses que construíram a Cultura por onde hoje passeiam stalkers (e consumidores) guiados por megafones de frenéticos animadores culturais, vagueando de tabuleta em tabuleta (com os nomes Daqueles). Um lugar tão animado quanto morto social e culturalmente… Um MAAT. Quando um Território deixa de ser um instrumento de Identidade e as Pessoas são expulsas da sua vivência surgem, mais tarde ou mais cedo, os conflitos e a violência. É isso que está a acontecer um pouco por toda a Europa nos bairros periféricos para onde foram remetidas as Pessoas e as Populações de menores recursos. Uma quase guerra-civil que se propaga como fogo por palha seca. Porquê? Porque as Pessoas e as Populações (os Seres-Humanos e as Comunidades) não podem viver sem o seu Património e a sua Identidade. Se os não deixam fazê-la num lugar fá-la-ão noutro. É evidente e inevitável. Esta utilização ideológica e política do Património já aconteceu no passado. Basta lembrar o trabalho museológico de constituição de Arquivos e de realização de Exposições no início do século XX nos EUA, como instrumento das políticas do New Deal de Roosevelt (concretamente os trabalhos de Lewis Hine em 1907 para o National Child Labor Committee; os trabalhos de August Sandler em 1920, ou de Tom Harrison e Charles Madge em 1930 com “Mass Observation”; e depois o projecto de documentação da Farm Security Administration (FSA) dirigido por Roy Stryker). E outros inúmeros exemplos, pelo mundo fora. Quem conhece um pouco da História de Portugal e do Tejo percebe o contributo das Populações que nele viviam para a defesa da Independência de Lisboa nas sucessivas invasões a que esteve sujeita. Os exércitos e os invasores de nada valem quando têm que enfrentar a resiliência de uma População que se Identifica com o Território onde vive, e o considera o seu Património. É assim em todos os lugares do Mundo e em todos os tempos da História. O «Problema MAAT» é esse problema patrimonial. Que ninguém tem a coragem de debater e de chamar a atenção. Trata-se de um uso e de um abuso feito em nome do Património, outra vez à conta da arquitetura e do design. Onde estão agora aqueles e aquelas que escreveram tanto e falaram tanto de António Ferro e da mesma manigância feita por Outro Regime? Não é do mesmo uso e abuso que se trata? Quando as Pessoas e as Populações são desapossadas do que Era seu, ou, recorrem à anterior Identidade (aquela que ficou como reminiscência ou lenda), ou constroem uma nova. É isso que está a acontecer hoje com mais enfase na Escócia, na Irlanda, no Norte de França, no Norte de Itália, no País Basco, na Catalunha, na Andaluzia, e em tantos outros lugares. Exatamente nos locais onde essas minorias poderosas se apoderaram do território… crescem hoje, cada vez mais, identidades culturais antagónicas. Que o Debate sobre o Património Hoje saiba antecipar os problemas e os conflitos possíveis de prejudicar a Identidade e Cultura Portuguesa é a finalidade e o objetivo desta Mensagem. Porque o Património é, e sempre será, uma questão central para qualquer Presente e Futuro. Inclusive o Nosso. Pedro Manuel-Cardoso |
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