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[Museum] Museu para a Cidadania Mundial: Objetivamente o Quê?

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Museu para a Cidadania Mundial: Objetivamente o Quê?
From :   "PedroManuelCardoso" <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Thu, 16 Nov 2017 22:35:39 -0000

 

Não se duvide da objetividade da «Cidadania Mundial». Nem de um Museu feito com ela.

Não é uma imaterialidade nem uma intangibilidade. É uma coisa assaz concreta e real. Possível de ser feita e construída pelas Pessoas e Comunidades que existem hoje, e partilham o Mundo connosco.

A «Cidadania Mundial» é um objeto tão concreto como um monumento ou um palácio.

Poderá não ser desejável para alguns (sobretudo para os que a impedem). Poderá ser inconveniente e incómoda (sobretudo para os que usufruem de benefícios económicos e políticos com a sua proibição). Mas isso não permite a sua negação, enquanto objeto patrimonial, com o mesmo estatuto do que os outros que constituem atualmente o Património.

Por exemplo: Muitas deslocações são intempestivas, ilegais, furtivas, infringidoras das leis vigentes. E há filmes, fotografias, documentários, depoimentos, e outros testemunhos bem palpáveis. Porém, mais cedo ou mais tarde, todas as deslocações (emigrações, imigrações, migrações), sejam por que motivos forem, necessitam de um papel. De uma licença. De uma autorização. De uma decisão de Outros, que legalize a permissão para transporem os espaços geográficos, e viverem lá. Esses papéis são o passaporte para um outro Estatuto. E isso ocorreu (e ocorrerá) numa data e num local concreto.

Ora a «Cidadania Mundial» é exatamente uma parte disso. Desse Estatuto. Um Estatuto que ainda não existe, mas que é possível construir.

Para saber o que será, basta procurar nos bolsos e carteiras de cada um de Nós os documentos que nos conferem a nossa Cidadania (por exemplo, a dos cidadãos e cidadãs da Noruega, EUA, França, Suíça, China, Portugal, e de outros países com PIB elevado). E depois, compará-los com os daquelxs que migram, emigram, e imigram. Ou seja, comparar os direitos, deveres, serviços, e usufrutos que constituem cada uma das nossas Cidadanias com as deles, para entender com clareza do que ela é feita, e de que serviços e documentos necessita para ser válida legalmente e usufruída no concreto.

Ora a «Cidadania Mundial» é o conjunto desses direitos e deveres validado e normalizado pelo compromisso político, social, e cultural dos membros da Organização das Nações Unidas, e outorgado a todos os Seres-Humanos que habitam a Terra de modo igual, sem quaisquer diferenças ou discriminações. É esse Objeto que se pretende construir com o contributo do Museu para a Cidadania Mundial.

O Museu conta uma história, e faz um diagnóstico. Mas a sua missão não é apenas essa, de mostrar e de servir. É a de ajudar a construir esse novo objeto a que chamámos «Cidadania Mundial».

Um Objeto (estatuto) que permitia resolver a parte negativa, coerciva, e nalguns casos desumana, que motiva esse processo de deslocação, e que inclui aquilo que se designa por emigrações, imigrações, migrações. Há os casos de sucesso, mas há também os casos de desumanidade, exploração, e sofrimento atroz.

Portanto, já temos vários objetos: Um percurso, um itinerário, um ponto-de-partida, um ponto-de-chegada, rostos e corpos de seres-humanos, traje e modos de transporte, regimes de alimentação, rendimentos e modos de subsistência, proveniência étnica e cultural, capacidades cognitivas e profissionais, as condições de acolhimento, as peripécias e imprevistos; os organizadores, intermediários, e controladores dessas viagens, as decisões dos que os acolhem ou permitem a sua passagem, etc. E também temos os objetivos concretos que perseguem: trabalho, vida melhor, fuga a perseguições por motivos medíveis e quantificáveis através de registos e depoimentos.

E também dispomos dos recursos da IOM (International Organization for Migration), da “Agência das Nações Unidas para as Migrações” (UN Migration Agency), e do DTM (Displacement Tracking Matrix) que é responsável pela monitorização mundial dos deslocamentos e migrações humanas.

 

Já são muitos objetos para quem, à partida, pudesse duvidar da objetividade deste Museu.

 

Essas deslocações humanas têm uma História. Fazem-se (e foram feitas) de modos diferentes no tempo e no espaço. Cada País (nação, comunidade, Pessoa) tem uma história particular a contar, que faz parte dessa História Mundial. Um modo particular, que cada museu local, regional, e nacional pode contar.

A Cidadania Mundial, no seu estado mais perfeito, permitiria que essas deslocações humanas se pudessem fazer sem o custo desumano e desprotegido que ocorre hoje.

Obviamente que essa mudança só ocorrerá se houver uma transformação nas Pessoas e Comunidades. Ora é exatamente essa a razão de ser deste Museu.

O Museu da Cidadania Mundial (e os museus que contribuiriam com a parte relativa a cada Comunidade/Nação/País) teria como missão construir esse «objeto» que ajudaria a essa transformação. Um «objeto» feito com as mesmas coisas que todos os museus utilizam para fazerem as suas missões e justificarem a sua existência social e cultural.

Evidentemente, que poderia ter uma sede, de preferência de acordo com a sugestão da ONU e do ICOM.

Portanto, não é por falta de objetividade e de conteúdo que este Museu não se fará.

 

Pedro Manuel-Cardoso

 





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