Porquê «Museu para a Cidadania Mundial» e não «Museu da Emigração»? Porque o conceito de «Emigração» é frágil e pouco consistente para justificar o Projeto e o Programa Patrimológio (“museológico”) do Objeto que se pretende Patrimonizar (“musealizar”). O fluxo de «dentro para fora» só existe se existir uma Fronteira (chame-se-lhe linha, diferença, identidade, cidadania, ou outro nome). Se essa Fronteira não existir, o conceito de «sair de» e «entrar em» desaparecem. Ora, quando «sair de Portugal» deixou de ser «emigrar» para o Espaço Schengen, automaticamente desapareceu o «emigrar para França, Luxemburgo, etc.». O fluxo inverso igualmente desapareceu, «Imigrar» deixou de ser o nome apropriado para a deslocação de um francês ou luxemburguês a Portugal. Ou seja, basta variar a Fronteira para serem frágeis e pouco consistentes os conceitos de «emigração» e «imigração». Se se olhar a história das mudanças de Fronteiras (e de Identidade política dos Estados e nações) na Europa e no Mundo, então, ainda mais inconsistentes são. Inclusive as coordenadas geográficas são insuficientes para estabelecer um quadro estável para os motivos e causas desse comportamento Humano de Deslocação, que é o tal «Objeto a Patrimonizar (“musealizar”)». Porque, por exemplo, o Norte de Portugal é uma região a Sul da França, e assim sucessivamente. Assim sendo, é necessário usar um conceito mais sólido e consistente. Que não sofra o relativismo e a efemeridade causados pelas mudanças de Fronteira. E se mantenha estável, resiliente, e transversal a essas mudanças (políticas, económicas, sociais e culturais). Um conceito de um tipo lógico mais geral. Só assim é possível compreender (e patrimonizar/musealizar) esses dois fluxos simétricos («emigração» e «imigração»). Razão pela qual a OIM e a ONU usam o conceito de «Migrações». Para compreender os motivos e causas do comportamento Humano de Deslocação que é o «Objeto a Patrimonizar (“musealizar”)» no Museu que se pretende criar é impossível usar apenas um tipo de deslocação. Porque não é possível compreender o «fluxo de Pessoas de Portugal para França» sem perceber o «fluxo inverso de bens comprados por Portugal por causa da industrialização francesa que utilizou essa mão-de-obra barata; por exemplo, citroens e renaults, etc.». Sem esta relação recíproca e complementar ficamos no Museu apenas com um amontoado de objetos e testemunhos que nada explicam acerca das relações de trabalho e de remuneração/rendimento que motivaram a ida de portugueses para França, e assim sucessivamente. Logo, esses objetos não servem para comunicar ao Visitante o valor patrimonial; e, consequentemente, a necessidade de criar um Museu. Um Projeto e um Programa Patrimológico (“museológico”) assente nessa fragilidade dará origem a um museu falhado. Haverá muitas razões para os Seres-Humanos se deslocarem. Mas se excluirmos todas aquelas que não foram por motivo de uma assimetria de rendimento e de condições mínimas de subsistência, então, talvez estejamos a definir melhor o Contexto daquilo que pretendemos. Porque uma deslocação por motivo de conquista ou saque chama-se «invasão», uma deslocação por motivo de lazer chama-se «turismo», uma deslocação por motivo de estudo e conhecimento chama-se «expedição», uma deslocação por motivo de aventura e descoberta chama-se «viagem ou achamento», e assim sucessivamente. Ora se o motivo que torna justificável o Museu, e permite compreender a Deslocação, é uma assimetria de rendimento e de condições mínimas de subsistência (associada ou não a uma transposição de uma determinada Fronteira), então, o Projeto e o Programa Patrimológico (“museológico”) têm que ser construídos a partir desse problema. O problema é esse. É ele que causa esse tipo de Deslocação que pretendemos Patrimonizar (“musealizar”). Porque é a partir dele que os objetos (testemunhos, fotos, depoimentos, coleções, e demais espécimes) adquirem significado e valor patrimonial. Esta é a razão pela qual sugerimos que o Museu se chamasse da «Cidadania Mundial». Porque só se podem compreender os fluxos de deslocação motivados pela assimetria de rendimento e de condições mínimas de subsistência através de duas operações de contextualização. Por um lado, utilizando uma geografia e um tempo/espaço que não estejam sujeitos a mudanças de Fronteira (e isso só existe considerando o mapa do mundo e o período da Hominização). E por outro lado, utilizando uma «situação ideal» onde as assimetrias de rendimento e subsistência deixavam de ser motivo para as Deslocações (continuariam a existir assimetrias mas deixavam de ser a causa necessária da deslocação). Pedro Manuel-Cardoso |
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