Porquê «Museu para a Cidadania Mundial» e não «Museu da Emigração»? Porque o Museu para a Cidadania Mundial parte da história do Ser-Humano, e não da história dos Países. O Museu para a Cidadania Mundial, ao invés de um «museu da emigração», não parte de uma situação conjuntural e efémera de fronteiras políticas, datada apenas de um determinado período ou a época histórica. Parte do Ser-Humano (do Ser Antropológico; da sub-espécie Sapiens sapiens). Razão pela qual sugeri que fizesse parte dos museus de etnologia/antropologia. O Museu para a Cidadania Mundial parte do mesmo Ser-Humano, que sempre foi a mesma sub-espécie sapiens sapiens, independentemente das diferenças anatómicas, de recursos, de localização geográfica, de linguagem, de organização social, de especificidades culturais, ou de uma Identidade baseada (apenas) na imposição política e abstracta de fronteiras de separação. Este ponto-de-partida torna frágeis os conceitos de «emigração» e «imigração». Porque «sair» e «entrar», ir «daqui» para «ali», por si sós, não determinam o Valor Patrimonial que justifica a criação de um Museu. Nem sequer os motivos específicos que estiveram na causa das Deslocações denominadas «emigração» ou «imigração». O Museu para a Cidadania Mundial conta a história da aceitação do Ser-Humano pelo Ser-Humano, no seu deambular pela procura de melhores condições de subsistência e de Vida. É este Contexto que funciona como base para o estabelecimento do seu Projeto e Programa Patrimológico (“museológico”). Isto é, olhar a história humana através da viagem, dos percursos, e da aceitação mútua e recíproca. Em vez da história das instituições, dos países, das identidades confundidas com as fronteiras conjunturais impostas efemeramente pelas políticas e interesses. Dizer que a «Cidadania Mundial» é o Objeto que se pretende construir, é uma meia-mentira e uma meia-verdade. Porque o Ser-Humano, do ponto de vista biológico sempre foi a mesma Espécie. Portanto, essa Cidadania, no sentido antropológico, já está construída desde o início da Humanidade. O que ocorreu desde esse início até hoje foi, afinal, o seu impedimento. De facto, a história humana tem sido, desde o início, a do seu impedimento e usurpação (ou pela não aceitação do Outro como um Mesmo, ou pela imposição de um poder militar ou económico, ou pela delimitação e redução das Identidades às fronteiras, ou pela escravatura, pelo colonialismo, pelo racismo, e assim sucessivamente). Ora um «museu da emigração» ou um «museu da imigração», ao se basearem nas fronteiras que definem os países (como critério para definir o que é sair e entrar, ir daqui para ali, etc.), só estariam a prolongar (até mesmo a validar) a descriminação e as diferenças que são a causa desse impedimento. Se o motivo das Deslocações são as «assimetrias de rendimento e as condições de subsistência», então, ainda menos se justifica a designação de «museu da emigração» ou «museu da imigração». A «Cidadania Mundial» pode ser melhor compreendida se nos lembrarmos como foi construída a Cidadania de cada atual país. Por exemplo em Portugal, no território político definido pelas suas atuais fronteiras, há liberdade de circulação de bens e serviços, há um rendimento mínimo garantido, até um ordenado mínimo, há um cartão de cidadão com números que dão acesso universal aos cuidados de saúde básicos, a uma pensão na velhice, etc. E há punições na lei pelo não cumprimento, por parte de Outros, destes direitos. Ou seja, a Cidadania é esse conjunto de direitos e deveres que conferem na prática, a todos os seres-humanos sem excepção, o rendimento e as condições de subsistência necessárias e suficientes para que não sejam o motivo para a Deslocação. É dessa «Cidadania Mundial» que estamos a falar. Que, evidentemente, teria repercussões nos lucros e rendas do Capital. Mas é para isso que, pouco a pouco, se vão construindo organizações como a ONU, a OMC, o FMI, a OIM, etc. Organizações que, mesmo que não cumpram o que motivou a sua criação, não deixam de ter nos seus Estatutos (no desejo, no idealismo, na teoria), explicitamente, essa finalidade como missão. O que é já um avanço enorme em relação a uma época em que o Outro era considerado um «Inferior», ou mesmo um ser não-humano com um cérebro incapaz de pensar como o Nosso (como está escrito em diversas leis de diversos países, e em diversos tratados de ciência e de etnografia). Seja como for, todos os museus que foram aqui mencionados, sejam os “para a Cidadania Mundial” ou os “da Emigração”, ou o “das Identidades Móveis e em Movimento”, partilham todos o mesmo desejo e os mesmos valores. Mas essa é a riqueza do Debate e da Discussão. Pedro Manuel-Cardoso |
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