Uma Colega perguntou a razão pela qual substituímos «museologia» por Patrimologia, e defendemos que fosse permitido legalmente essa substituição de nome (e respetiva equivalência) aos cursos que a quisessem fazer (sem perda de estatuto legal em relação aos que anteriormente usavam «museologia»). Há uma parte da resposta que talvez seja útil partilhar. É que… Muito se fala de Património. Mas estar-se-á a falar da mesma coisa, mesmo por quem tem responsabilidades pela sua gestão? Presume-se que sim, mas de facto ninguém tem a certeza. O Património será tudo? Será ainda o que as gerações anteriores nos legaram como sendo? Será que, uma coisa dada uma vez é válida para sempre? A resposta a esta pergunta não deveria incluir uma análise e um escrutínio aos atuais panteões, mosteiros, monumentos, coleções, objetos, e demais testemunhos classificados que recebemos do Passado? Por exemplo, o Património para o Hipocampo não é o mesmo que para xs Humanxs. O que é escolhido pelo Hipocampo para ficar em memória é diferente do que é escolhido pelos seres-humanos. Porquê? Talvez haja alguma razão para esta discrepância. Seja como for, esta diferença não deveria ser o ponto-de-partida para qualquer estudo, curso, formação, reflexão, ou metodologia prática acerca do Património? Mesmo entre xs Humanxs, o PATRIMÓNIO não é a mesma coisa e o mesmo conceito para Todxs. De facto, contata-se que é uma coisa e um conceito diferente consoante a Pessoa que o discute ou trabalha nele. Talvez esteja sujeito a esta idiossincrasia e arbitrariedade por um motivo ainda desconhecido para a consciência humana. Evidentemente que há as palavras e as narrativas dos textos legais; da miríade de definições, declarações e recomendações; e das infinitas conversas. Mas essa quantidade não resolve automaticamente a unicidade da coisa nem do conceito. Como se pode erigir uma Política Pública de Património, ou estabelecer uma gestão correta, sem se saber do que se está a falar? Para a PATRIMOLOGIA, está-se a falar do seguinte: PATRIMOLOGIA LÉXICO DE CONCEITOS E DEFINIÇÕES Contributo para uma Antropologia do Património Pedro Manuel-Cardoso 2015 Este LÉXICO DE PATRIMOLOGIA é a consciência do longo percurso de Aperfeiçoamento e Reflexão sobre os diferentes Caminhos para o Estudo e a Gestão do Património, isto é, da Relevância e sua transmissibilidade. Que começou muito antes daquilo que ocorreu na história da Europa após o Renascimento e a Revolução Industrial e Política do séc. XVII, e que muitxs, ainda, etnocentricamente, supõem ter tido aí início; o que é, aliás, uma subversão ou uma ingenuidade sobre a história do Património na sua relação com a Humanidade. PATRIMÓNIO (definição) | i) Os Objetos/Coisas suficientemente Relevantes que provocaram a decisão/escolha de serem transmitidos ao futuro. Objetos/Coisas que foram sujeitos a uma classificação formal e institucional expressa em listas, normas, ou leis. Mas também Objetos que sofreram o reconhecimento social de um valor e de uma relevância mesmo na ausência desse acto formal de classificação. O que distingue o valor e a relevância patrimonial dos outros tipos de relevância é exigirem um trabalho consciente e sistemático de preservação, documentação e transmissão para o usufruto das gerações vindouras. O Património implica, assim, uma decisão sobre a hierarquia e a assimetria de valor entre as coisas que constituem a Realidade em cada contexto histórico, étnico, e sociocultural, às quais acresce um trabalho ou uma intenção de transmissibilidade. | PATRIMÓNIO (tipos e classificações) | i) Os Suportes de que o Objeto se reveste dão origem a diferentes designações que servem para adjetivar e classificar o Património. Por exemplo: arquivístico, bibliográfico, documental, imaterial, digital, informacional, videográfico, cinematográfico, museal, natural, ambiental, cultural, e outras expressões (vulgarmente utilizadas na linguagem comum, e escritas nos textos das normas de cada Cultura, nas listas da ONU/UNESCO, e nas legislações em vigor). ii) Para a Patrimologia é o Conceito de Objeto que permite discernir e analisar com rigor científico os diferentes Tipos e Classificações que são dadas ao Património, e o significado e a lógica dessas inúmeras designações e nomes. | PATRIMÓNIO (polissemia e plurissignificação) | Capacidade de um Objeto Patrimonial assumir vários significados, sobretudo, a sua capacidade de revelar o modo de ser percepcionado pela lógica de cada Observador/Percepcionador. | PATRIMÓNIO (discernimento e consciência) | i) O Património fará parte de um processo computacional que programa (codifica/inculca) determinadas «instruções/lógicas/heurísticas» na cognição humana (concretamente, as referentes à Relevância a transmitir aos presentes e vindouros). 3. O Património será uma espécie de programa que coloca essas instruções na cognição humana. O Património codifica lógicas/instruções/heurísticas que definem a Relevância/Valor. Os objetos, documentos, coleções, etc., servem para codificar os oito tipos de Relevância apresentados na “Estrutura do Valor Patrimonial” ou “Estrutura da Relevância” discernida por Pedro Manuel-Cardoso em 2008. O Património programa o Ser-Humano (a sua cognição, e o seu comportamento) para a Relevância. | PATRIMOLOGIA (definição) | i) “Ciência que Estuda e Gere o Património (entendido como os Objetos considerados suficientemente Relevantes para serem transmitidos às gerações seguintes) com a finalidade de contribuir para a obtenção de uma vantagem Adaptativa, ou a mera possibilidade de prosseguimento, no processo de Continuidade (vida/existência)” (Pedro Manuel-Cardoso, 2008) ii) “A Patrimologia, enquanto Ciência, procura o conhecimento e a técnica de transformação do Património numa Codificação; possível de ser lida e acedida, simultaneamente, pelos mecanismos bioquímicos e moleculares da cognição humana, por uma linguagem informática, e por uma linguagem simbólica/sociocultural [também designada por “objeto museológico” ou “Segundo-Objeto” (Pedro Manuel-Cardoso)] de modo a ser possível restitui-la aos presentes e vindouros, prolongando a estratégia de Vida iniciada nos Eucariotes, ou antes” (Pedro Manuel-Cardoso, 2008). iii) A Patrimologia é a ciência que estuda e gere o Património (arquivístico, bibliográfico, museal, documental, artístico, arquitetónico, imaterial, digital, informacional, videográfico, cinematográfico, natural, cultural, e outros mencionados pela ONU/UNESCO, nas legislações em vigor, e nas normas de cada Cultura). iv) A Patrimologia é a disciplina do Conhecimento que estuda e gere o Património de modo a permitir que seja codificado, preservado, documentado, comunicado, e reconstituído pelos presentes e vindouros. |
|
Pedro Manuel-Cardoso
|