O meu Amigo Pedro Pereira Leite abriu o Ano com assertividade. O «parado» versus «aquilo que está em transformação»… É de facto aí que está a origem de todas as desadequações, inclusive as da atual Política Pública de Património. Logo, as da Cultura e dos Museus (no sentido lato da definição do ICOM). Mas porquê criticar? Então, a economia não está a crescer, as exportações não estão de vento em popa, o emprego precário e pouco remunerado a aumentar, o turismo a bater records, e os visitantes estrangeiros nos museus a encherem as salas? Xs directorxs dos museus que vieram para a praça pública dizer que estavam a faltar recursos, não foram agora convidados para Formarem? Se está tudo bem, é porque nada está mal. Deixemo-nos de lamúrias… Este é o tempo em que o curto-prazo é soberano. Nada lhe resiste. Os ditos «problemas estruturais e reformas necessárias ao Desenvolvimento», que se mantêm por fazer, são tidos como um assunto tabu. Uma conversa de maldizentes que querem estragar a festa do momento. O Gil Vicente, o Luís Vaz, o Eça, ou o Pessoa foram muito mais sarcásticos (ou realistas) a apontarem esse Problema Português do atraso epidémico e da teimosa assimetria da riqueza e dos êxitos. Mais recentemente, um português que lidera atualmente um dos maiores bancos de Inglaterra, voltou a dizê-lo. A dizer o quê? A pronunciar o impronunciável. Passo a citar: “Que o problema de Portugal é uma elite decadente que vive desde a monarquia de rendas. Uma classe que tem o dinheiro nas off-shores em vez de investir no País. No fundo porque, de algum modo, detesta ou se envergonha do seu Povo”. Não sou eu que o digo, são aqueles que referi. Uma Administração Pública onde as famílias e os enteados dessa classe ocupam os cargos (sobretudo as assessorias, as especialidades, e as adjuntices), tal como na Corte. De facto, quantos sobrinhos, netos, e outros descendentes de segundo e terceiro grau estão lá? Talvez alguém da Justiça, ou de um Observatório Independente, devesse fazer um Relatório sobre isso. E os Jovens investigadores e doutorados que andam à míngua, de Erasmus para Erasmus, de startups para startups, impedidos de quebrarem esse ciclo vicioso de uma economia irreformável à mercê de uma elite arrendatária que, quase desde Afonso Henriques, exporta o mesmo vinho, calçado, têxteis e metalomecânica? Por exemplo, no dito «Eixo Expo-Santa Apolónia-Belém-Algés» trocam-se locais de primeira classe mundial em termos de investimento/riqueza imobiliária (turismo, restauração, hotelaria, comércio) por uma programação cultural de terceira classe a nível europeu e mundial. Uma bela troca de valor, cuja reciprocidade faz sorrir quem dela usufrui. E cujos dividendos não financiam a Política Pública de Património e de Cultura como deviam. Tudo com a complacência dos responsáveis pelos sucessivos Governos. Caro Pedro, é assim, e continuará a ser. Queiramos ou não. Até a aquela nossa universidade dá ideia que desistiu de lutar. Porquê? Não sei. Talvez porque é o Fado que nos foi destinado. Aquele que até deita fumo e cheira a caldo verde dentro do Convento de Cristo ou do Panteão. Pedro Manuel-Cardoso |
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