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[Museum] Re O falecimento de Benjamim Enes Pereira

To :   museum <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Re O falecimento de Benjamim Enes Pereira
From :   Pedro Pereira <pedropereiraoffic@outlook.com>
Date :   Sat, 18 Jan 2020 17:29:06 +0000

 

Belas Palavras! As do professor José d’Encarnação.

Homenageiam, de facto, e com profundidade, o inesquecível contributo de Benjamim Enes Pereira. Porque fazem sentir, a todxs que tiveram o privilégio de experienciar o que elas dizem, a mesma emoção.

Recordo com saudade esses tempos, em que Henrique Coutinho Gouveia nos levava, à turma de 1985/1989, às reservas do Museu, numa das primeiras especializações em “Museologia” inserida na licenciatura e mestrado em antropologia em Portugal (FCSH/NOVA). Foi aí, nesse tempo e nessa experienciação, que iniciei o interesse pelo estudo antropológico do Património. Tal como dezenas de Colegas que tiveram a felicidade de ter por Professores pessoas como Benjamim Enes Pereira, e os outros que José d’Encarnação mencionou.

Foram muitxs, que foram influenciados por essa razão antropológica do Património.

No meu caso, a “Estrutura da Relevância” (“Estrutura do Valor Patrimonial”, como lhe comecei por chamar), que discerni e publiquei mais de vinte anos depois, em 2010, nasceram de um aspecto não-resolvido nas “Festividades Cíclicas” de Ernesto Veiga de Oliveira, ocorrido nessas visitas ao Museu de Etnologia.

Uns dirão (e não são poucos), que é uma geração e uma época que finda; e agora os tempos (científicos, conceptuais, teóricos e hermenêuticos) são outros. Não concordo.

Esse legado nunca se deixou conspurcar pelo pós-modernismo do actual Relativismo Cultural. Essa ideologia perversa e errada que confunde Ciência com Política, e infectou quase todas as universidades a partir desses «anos 70/80». Transformando muitas Faculdades em quase-sedes de partidos políticos; em vez de respeitarem o exercício humano do Conhecimento, tal como Descartes (esse proscrito) escreveu, em Leiden, em 1637: “Duvido, logo penso…”.

Não, o valor desse legado não está ultrapassado.

Esse legado desafia, ainda hoje, o modo como as universidades deviam ministrar a formação e o ensino em Património (Museologia/Patrimologia).

A minha crítica (lamento), à maioria das instituições de ensino superior de Património (museologia/patrimologia), é epistemológica. É continuarem a separar, como se fazia nos sécs. XIX e XX, as «ciências naturais/exactas» para um lado, e as «ciências sociais e humanidades» para outro.

Hoje, no séc. XXI, exige-se outra Epistemologia. Que permita aos “sistemas de educação, ensino e formação” irem por outro caminho. Concretamente, que instituam uma Educação STEM. Porque a maioria das profissões das futuras gerações, inevitavelmente, serão baseadas na Ciência e Tecnologia. O A.Ogien resumiu essa nova questão epistemológica muito bem: “Procurar [eu diria: em vez de opor] a conexão possível e plausível [eu diria: a probabilidade de Bayes/Lapalce] entre a descrição dos mecanismos físicos e bioquímicos e os processos de atribuição de significado”.

Espero, um dia, que, nessas Faculdades, permitam um espaço laboratorial e experimental para essa parte dita não-exacta e não-natural, tal como fazem para a outra parte (… como se tudo, matéria/energia/quântica/imaterialidade, não fosse feito de subpartículas do átomo). Essa estúpida cisão epistemológica já não se justifica, porém, já aprendíamos isso nessa época.

É o que me leva a pedir, há mais de trinta anos, uma sala com peças (como um “lego”) para construirmos Modelos e Equações, onde possamos experimentar a teoria dos Números e a Estatística aplicada às regularidades dos Fenomena social e humanos. Um espaço laboratorial para transformarmos a algoritmicade (encadeado) das histórias e das narrativas (e meta-narrativas relativistas) em logaritmicidade (em modelos e equações testáveis experimentalmente, comparáveis, e reprogramáveis), permitindo fazer, através do método científico, aquela conecção epistemológica atrás referida (a que vulgarmente se dá o nome de “interdisciplinaridade”).

Talvez um dia isso seja possível. O Património (como mostro na “Heptadimensionalidade do Objeto: It ou Bit?”, ou nessa “Estrutura da Relevância”) era um bom candidato a esse ensaio experimental e laboratorial.

Portanto, uma coisa do presente e do futuro, vinda desse legado, erradamente considerado ultrapassado.

Obrigado, professor José d’Encarnação.

Bem-Haja, Benjamim Enes Pereira.

 

Pedro Manuel-Cardoso

 





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