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[Museum] Tempo sem conta: Os limites da perspectiva funcionalista na definição de museu

To :   Museum <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Tempo sem conta: Os limites da perspectiva funcionalista na definição de museu
From :   Luís Raposo <3raposos@sapo.pt>
Date :   Sat, 06 Jan 2018 12:38:45 +0000

Tempo sem conta: Os limites da perspectiva funcionalista na definição de museu

Em fim-de-semana “de turno” como conservador/arqueólogo de serviço no Museu onde trabalho, entrando rigorosamente às 10h para assistir à abertura de espaços expositivos e saindo depois das 18h para verificar o seu encerramento em boa ordem (não sei se algum dos amigos que fala sobre museus, sem nunca neles ter trabalhado no dia-a-dia, sabe o que seja isto), dei por mim a fazer este exercício (o tempo sem conta, induz-nos neste tipo de exercícios algo barrocos *, para não dizer estultos):

Casas / Lugares

“que guardam e apresentam sonhos, sentimentos, pensamentos e intuições que ganham corpo através de imagens, cores, sons e formas”

Galerias de arte, centros e grupos culturais, casas do povo, academias e sociedades de belas artes, ateneus, conservatórios, bandas, filarmónicas e coros, associações cívicas, grupos e ligas de amigos, parques de diversões, teatros, cinemas, bibliotecas, arquivos… e museus

 
(que são) “pontes, portas e janelas que ligam e desligam mundos, tempos, culturas e pessoas diferentes”

Galerias de arte, centros e grupos culturais, casas do povo, academias e sociedades de belas artes, ateneus, conservatórios, bandas, filarmónicas e coros, associações cívicas, grupos e ligas de amigos, parques de diversões, teatros, cinemas, bibliotecas, arquivos, igrejas, planetários…  e museus

 
(que são) “conceitos e práticas em metamorfose”

Galerias de arte, centros e grupos culturais, casas do povo, academias e sociedades de belas artes, ateneus, conservatórios, bandas, filarmónicas e coros, associações cívicas, associações cívicas, grupos e ligas de amigos, parques de diversões, teatros, cinemas, bibliotecas, arquivos, igrejas, planetários, centros de ciência, escolas, enfim, tudo… e museus


…ou seja, entidades culturais que promovem o sonho, a liberdade e o empoderamento social podem ser todas as que são reconhecidas como potenciais beneficiárias da consignação da parte do imposto do IRS dos cidadãos que assim as entendam acarinhar (veja-se a lista em anexo, referente ao ano de 2016)

Por outro lado, 

Casas/Lugares 

“em que sensações, ideias e imagens de pronto irradiadas por objetos e referencias ali reunidos iluminam valores essenciais para o ser humano” (sublinhado meu)

Galerias de arte, bibliotecas, arquivos… e museus

 
(com identidade própria: “instituições”) “permanentes sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, abertas ao público, que adquirem, conservam, investigam, comunicam e expõem o património material e imaterial da humanidade e do seu meio envolvente com fins de educação, estudo e deleite.”

Museus

 
…..
Chegado aqui, lembrei-me de postal que há meses coloquei no meu Facebook (uma novidade para mim desde há dois anos, ditada pela “obrigação” em contactar regularmente com colegas de vários países – e daí o uso do inglês-de-despachante, prática que fora deste contexto jamais usaria, porque prezo demasiado a nossa língua materna/paterna):

https://www.facebook.com/raposo.luis/posts/1470487013069875
(The limits of the functionalistic approach in defining museums)

Li de novo este meu postal. Nele apenas sinto que falta a referência às virtudes aristotélicas da “essência real” (por
oposição à “essência nominal”) na procura da definição das coisas. O resto está lá (quase) tudo. E, a mim, me satisfaz.
 
 
* Soneto, obra-prima do trocadilho, escrito no século XVII por Frei António das Chagas (António Fonseca Soares):
 
CONTA E TEMPO
 
 Deus pede estrita conta de meu tempo.
 E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta.
 Mas, como dar, sem tempo, tanta conta,
 Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?
 
 Para dar minha conta feita a tempo,
 O tempo me foi dado, e não fiz conta.
 Não quis, sobrando tempo, fazer conta.
 Hoje, quero fazer conta, e não há tempo.
 
 Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
 Não gasteis vosso tempo em passatempo.
 Cuidai, enquanto é tempo, em fazer conta!
 
 Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
 Quando o tempo chegar, de prestar conta,
 Chorarão, como eu, o não ter tempo...








Quoting Pedro Pereira Leite <pedropereiraleite@ces.uc.pt>:

Em outubro de 2017, nas jornadas de outono do ICOM Portugal, realizada em Évora discutiu-se a atualidade da Lei Portuguesa de Museus. Dele se deu uma notícia no site do ICOM Portugal.

Em síntese, como já noutros postais referi, a opinião da “comunidade” museológica do ICOM, é de que a aprovação da lei foi um fator positivo, embora as dinâmicas atuais tenham vindo a levantar alguns problemas.

A questão, para os profissionais dos museus parece estável. O museu continua a ser a tal "instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público e que adquire, conserva, investiga, difunde e expõe os testemunhos materiais do homem e de seu entorno, para educação e deleite da sociedade". Trata-se duma definição que está vertida no texto da Lei e que coincide com a definição que é adotada pelo próprio ICOM.

Ora esta definição, como todas as definições sobre as instituições são narrativas socialmente construídas. São usadas pelas sociedade enquanto são úteis. O conceito de museu, ou a definição sobre o que é um museu varia no tempo e no espaço. Assim, por exemplo o Instituto Brasileiro de Museus definiu, em 2010, na altura em que foi criado que:    “Os museus são casas que guardam e apresentam sonhos, sentimentos, pensamentos e intuições que ganham corpo através de imagens, cores, sons e formas. Os museus são pontes, portas e janelas que ligam e desligam mundos, tempos, culturas e pessoas diferentes. Os museus são conceitos e práticas em metamorfose."

Notícia em arquivo no IBRAM

Atualmente o mesmo IBRAM suvizou a radicalidade poética com um texto que não deixa de procurar capturar a uma situação que presente na comunidade ibero americana: "No universo da cultura, o museu assume funções as mais diversas e envolventes. Uma vontade de memória seduz as pessoas e as conduz à procura de registros antigos e novos, levando-as ao campo dos museus, no qual as portas se abrem sempre mais. A museologia é hoje compartilhada como uma prática a serviço da vida. O museu é o lugar em que sensações, ideias e imagens de pronto irradiadas por objetos e referenciais ali reunidos iluminam valores essenciais para o ser humano. Espaço fascinante onde se descobre e se aprende, nele se amplia o conhecimento e se aprofunda a consciência da identidade, da solidariedade e da partilha. Por meio dos museus, a vida social recupera a dimensão humana que se esvai na pressa da hora. As cidades encontram o espelho que lhes revele a face apagada no turbilhão do cotidiano. E cada pessoa acolhida por um museu acaba por saber mais de si mesma".

Trata-se duma definição ainda poética, longe das realidades "europeias" dirão uns, ou talvez "patética" argumentarão os mais cépticos. Mas nela está contida o princípio de transformação. As instituições, tal como as pessoas e os pensamentos são processuais. E as leis, como todos sabemos, resultam de compromissos possíveis num dado tempo.

Ora se a questão parece continuar estável em Portugal, o mesmo não se passa no “mundo dos museus”, onde o que é um museus está a ser discutido. Veja-se por exemplo o que está a ser discutido no ICOFOM, onde até foi publicada um pequena resenha do debate , que foi apresentado em Paris, en junho do ano passado.

Em outubro foram feitas discussões em Beijing e Buenos Aires, em Novembro em Havna, no Rio de Janeiro e finalmente na Escócia, no âmbito do encontro do EULAC. Tratam-se de cinco reuniões que podemos acompanhar.

Estamos portanto num momento de discussão e considerarmos que a ideia de museu é estável é perdermos um importante debate. Deixar a cabeça enterrada não vai resolver a questão. Também já verificamos que o ICOM Portugal não irá mais longe do que já foi.

Será a comunidade museológica capaz de se mobilizar?

O desafio para debater esta questão em 2018 está feito!

Querem os museus portugueses ser instituições ou casas de poesia?



 






Attachment: Entidades-beneficiarias-irs-2016.pdf
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