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Ele é «fartar
vilanagem!». A pretexto de se desmatar, parece que a ordem é mesmo de ir a
eito, sem se pensar nas consequências. Só se vê o horror dos incêndios,
destruidores da biodiversidade; mas… uma desmatação sem tir-te nem
guar-te não será ainda mais prejudicial? Ora
leia-se o que se decidiu no Campus de Gambelas da Universidade do Algarve e no meu
Algarve! Transcrevo,
com a devida vénia, o texto que me foi encaminhado, da autoria de Maria José
Castro, docente universitária. J.
d’E. A
grande desmatação de 2018
30/3/2018, 0:301.381 Testemunho de uma professora da Universidade do Algarve que
descreve os males feitos nos terrenos daquela escola superior e também em todo
o barrocal, onde se estão a dizimar majestosas alfarrobeiras. Na
Universidade do Algarve, fomos todos convocados pelos Serviços Técnicos, e
nossas famílias, para participar na acção de voluntariado que teve lugar no
passado sábado, de “limpeza de mato e recolha de material sólido
combustível” no campus de Gambelas. “Material sólido
combustível” – é assim que agora se designam as árvores e outra
vegetação e seres que neles habitam. Pobre pinhal do campus de Gambelas! As
árvores arbustos e ervas que nos pedem para “limpar”, são parte de
um ecossistema, têm variedade, albergam insectos, répteis e outros seres; as
aves dependem da manta morta do solo, dos arbustos e das copas dos pinheiros
para repouso e nidificar. As copas dos pinheiros reduzem a luz que limita a
vegetação que cresce no solo. A manta morta que cobre o solo, é precisa para
regenerar todo o sistema. Estamos na época do ano mais sensível para a
procriação da maior parte destas espécies vegetais e animais, em particular as
aves, que já começaram a construir os ninhos. O ruído invasivo das motosserras
e roçadeiras que se tem ouvido nos últimos dias não deixa dúvidas sobre o que
está a acontecer aos pinheiros e restante vegetação e seres que neles habitam e
deles dependem. É a contribuição da Universidade do Algarve para a salvação da
floresta em Portugal! Um
país cronicamente incapaz de prevenir fogos ao longo de décadas, vira-se agora
com ferocidade contra a primeira vítima do fogo, a natureza, que por ser
combustível e arder, tem que ser eliminada, mesmo que sejamos nós, incauta ou
criminosamente, a atear 99 % dos fogos – se não houver vítima, não pode
haver agressor ou agressão; se não houver combustível, não há combustão. Os
nossos governantes podiam ter decretado acabar com o ar – porque sem
oxigénio também não há combustão – mas como provavelmente têm
conhecimentos de química iguais aos que têm sobre combate a incêndios
florestais, lembraram-se de eliminar a vegetação em geral. É
surpreendente que a implementação da lei das limpezas de 2006 esteja a ser
acatado de forma tão resignada pela população em geral, sem discussão ou
questionamento sobre possíveis consequências e eficácia, nos meios de
comunicação social. Há algumas, poucas, vozes dissonantes, mas não têm tempo de
antena. Não sei se é menos ou mais surpreendente que a Universidade siga a
passividade do resto da nação, mas é com certeza lamentável, porque as
universidades, por vocação e missão, podem ser um dos últimos redutos de defesa
da verdade, da liberdade de expressão, do esclarecimento e debate público de
ideias e de independência do poder político. No
campus de Gambelas, era de temer o pior, com aquilo a que se tem assistido
desde 2013, quando os trabalhos de jardinagem, antigamente feitos por dois
jardineiros do quadro, foram adjudicados à empresa Ferrovial na sua vertente de
“valorização de resíduos sólidos”. Com efeito, a valorização foi só
para a empresa, porque a Universidade ficou não só com o dobro dos custos, como
ficou com os estragos irreversíveis causados pelas podas mutilantes dos
pinheiros e o abate de exemplares saudáveis. E tudo isto feito sem qualquer
respeito pelo calendário, sem lembrança das muitas aves que nidificam no campus
na Primavera, sem qualquer consideração pelas práticas de boa poda, mesmo
naqueles casos em que se justificavam cortes – muitos pinheiros
“podados” já desenvolveram tumores provocados por rasgões no
tronco, ou cortes feitos logo após chover. Alguns ficaram com a copa
ridiculamente reduzida, desventrada e totalmente descompensada – o que
resta são aleijões ou emaranhados de paus. Muitos, e há que incluir alguns
plátanos, têm morte anunciada. Convém saber que estas práticas de desbaste
radical, juntamente com perturbação das raízes, são a razão da morte e queda de
muitas árvores. Uma árvore é um ser vivo! Tal
insensibilidade e ignorância espelham infelizmente aquilo que se vê por todo o
lado – as práticas de podas abusivas que lesam a estética e comprometem a
viabilidade da árvore tornaram-se um cenário tristemente banal e aumentaram a
ritmo alucinante nos últimos anos. Estas práticas, que em alguns países
configuram crimes ambientais, mesmo quando perpretadas em terrenos privados,
aqui são sempre justificadas por qualquer razão irracional e mesquinha, ou
simplesmente, como se diz no Algarve, porque “as árvores querem-se
cortas”. Não há travão ético, estético, nem
legal, para refrear o apetite crescente por madeira e outros detritos vegetais,
que é a verdadeira força motriz que impulsiona toda esta voracidade podadora
recente. Árvores
e restante vegetação são em geral vistas entre nós como um estorvo ou apêndice
inútil da paisagem, mas – que azar para elas e demais criaturas que delas
dependem – cada vez mais uma fonte de rendimento irresistível, desde a
venda de madeiras nobres, que atingem no mercado centenas de euros por metro
cúbico, como o plátano, o jacarandá ou o cedro, até à transformação para
composto, pellets e
afins, biogás e electricidade. Quando podar, desbastar, recolher, só dava
trabalho e nenhum lucro, esses serviços eram realizados por funcionários
camarários. Embora as atrocidades tivessem aumentado na razão da evolução das
“tecnologias da poda” e diminuição da formação dos podadores, ainda
ia havendo uma certa indiferença tolerante. Quando começaram a dar lucro, e
muito, rapidamente os mesmos serviços passaram para as mãos de empresas
privadas, e desde então, não há erva ou árvore centenária que não esteja à
mercê dos exércitos de sapadores recrutados por estas empresas – mão de
obra barata não falta e quanto mais energúmenos melhor. A lei da limpeza de terrenos de 2006, tão precipitada e
draconianamente implementada pelo governo com requintes inauditos de
intimidação e ameaça, anunciada de forma atabalhoada, está a levar a
atrocidades que se podem ver por todo o lado. Quem
tem um pedaço de terreno em volta da casa e aplicar a lei até No caminho que faço diariamente para a Universidade, nas últimas semanas, foram reduzidas a tocos centenas de oliveiras e
alfarrobeiras, muitas seculares, hectares de terreno foram totalmente
descarnados. A lei das limpezas veio apressar estas razias, que
têm acontecido nos últimos anos devido a estar tudo à venda e os priprietários
cortarem as árvores para lenha quando vendem os terrenos. Na vila de S. Brás de Alportel, as únicas árvores de
grande porte que ainda não tinham sido decapitadas em espaço público, que eram
oliveiras e alfarrobeiras, foram arrazadas há duas semanas, perto do quartel da
GNR, para dar o exemplo aos munícipes. Em Espanha, onde as alfarrobeiras e
oliveiras centenárias são protegidas por lei, a poda de UMA alfarrobeira
centenária é notícia de jornal. Aqui, no barrocal algarvio, perante a
indiferença de todos, as majestosas alfarrobeiras, que podiam ser o ex-libris
do Algarve, têm sido dizimadas na última meia dúzia de anos. Com
elas, há aves que vão desaparecer, como os papa-figos. São “árvores de
grande porte” e como tal uma ameaça pública. O
ministro Cabrita está entusiasmado com a mobilização dos portugueses e com o
que vê à sua volta – “e ainda temos até ao final de Maio”. A
GNR já está no terreno para assinalar as situações de incumprimento e as multas
vão começar a chegar, que têm agora o carácter de notificação dos proprietários
para a limpeza, que se for feita até final de Maio anulam a multa. Supõe-se, o
governo não esclareceu, que depois do final de Maio as autarquias tenham que
avançar (até quando?), senão serão elas as multadas com perda de financiamento
pelo governo central (o mesmo governo que quer descentralizar). Podemos esperar
toda a sorte de arbitrariedades, confusões, guerras com as autoridades e entre
vizinhos. “E tem mais”, avisou ameaçadoramente o primeiro-ministro
Costa em Tondela – “as autarquias têm direito de tomar posse das
terras e de se cobrarem pela venda do material lenhoso e exploração das
terras”. Vale a pena ver o vídeo da visita do primeiro-ministro, porque,
ironicamente, nas casas ardidas por onde o primeiro-ministro Costa e sua
comitiva passam, e onde faz o seu discurso, a única coisa que não ardeu foram
as árvores e arbustos mesmo junto às paredes, que dão a única nota de vida e
alegria num cenário devastado.
Os telhados e o interior arderam, até o
betão vergou – pelo que se depreende que o fogo deve ter vindo do ar, de
algum eucaliptal ali perto. Como este ano o crescimento de
pastos começou mais tarde, as limpezas que agora estão a ser feitas, com mais
luz no chão sem a sombra das copas e arbustos cortados, com chuva, vão resultar
num vigoroso crescimento de ervas que vai cobrir tudo e estar no ponto de palha
em Julho. O rastilho perfeito para iniciar fogos. E
quanta natureza vai ser destruída até lá, quantas árvores, quantas aves? Tudo
isto é de uma bestialidade impensável, uma violência que vai atingir
economicamente muitas pessoas e que entra já na esfera da liberdade pessoal de
cada um. Aplicada a lei, as casas que têm uma floresta a A lei das limpezas que agora se invoca existir desde 2006, não
foi criada para prevenir fogos. Foi criada para suportar a implementação de 15
centrais de biomassa destinadas à produção de electricidade, previstas no mesmo
ano, quando foi lançado um concurso, na largada da grande corrida às renováveis
promovida pelo governo Sócrates; implementação essa
que não se concretizou, porque investimento, subsídios e potência de rede foram
sugados pelo lobby das eólicas. Por esta razão a lei nunca foi cumprida, da
mesma forma que no mesmo período nunca foram tomadas quaisquer medidas de
prevenção de incêndios, por decreto ou outras. Aliás, nestes anos fez-se
exactamente o contrário – o que restava da guarda florestal e postos de
vigilância foi desmantelado por completo; não houve endurecimento na
criminalização de incendiários ou actos negligentes; arranjou-se um calendário
para a “época de fogos” de Julho a Setembro como a de banhos na
praia, que se esperou que S. Pedro e os incendiários também seguissem. À
medida que se foi esgotando financiamento, subsídios, potência de rede
disponível e sítios com muito vento para espetar ventoinhas (sem restrições de
ordem paisagística ou ecológica), assim se foi refreando a fúria eólica. Mas
cresceu a do solar, porque os painéis são já tão baratinhos, e o preço que
pagamos pelo kWh é já tão elevado, que os investidores podem ter chorudos
lucros cobrindo vastíssimas áreas com painéis fotovoltaicos, mesmo sem
subsídios directos. É isso que estão a fazer e ainda mal começaram – a
Sul, a cultura do painel solar vai rivalizar com a do betão, do eucalipto e da
agro-indústria, no domínio da paisagem. Esta nova onda de investimento
desenfreado tem uma dimensão e ímpeto nunca vistos – antes ainda se
simulavam preocupações ambientais, agora até esses floreados se deixaram cair.
Está a ser resolvido o problema, para todas as renováveis, do esgotamento da
potência de rede – a electricidade tem que ir para algum lado onde seja
gasta – com a abertura das ligações para França através dos Pirenéus e
agora as subterrâneas para Marrocos. A Comissão Europeia vai financiar em força
(nós também), voltou o investimento de bancos e fundos especulativos. Voltaram
as grandes barragens (que o ministro Matos Fernandes diz não poder parar porque
não há dinheiro para as indemnizações), avança a eólica para o mar, chegou
finalmente a oportunidade de ouro para as centrais de biomassa em Portugal. Os
incêndios de 2017 deram o pretexto que faltava para resolver o grande problema
dessas centrais, que as leis das limpezas de 2006/2009 e a Portaria de 2009,
que permitiu a requisição de desempregados para a limpeza de florestas, não
conseguiu resolver: garantir o fornecimento de matéria vegetal em quantidades
colossais e de forma regular, a custo “sustentável” (o económico,
não o ecológico), que depende de uma engrenagem de corte, recolha e transporte.
O custo da matéria-prima agora vai ser perto de zero para as empresas que a
transformam – vamos todos contribuir directamente com a nossa cota parte
de desmatação cega. Já não é necessário pensar em soluções geniais como a do
sr. primeiro-ministro Costa (então candidato), que se lembrou que os refugiados
podiam ir limpar as florestas para suprir a falta de mão de obra (eles devem
ter ouvido e talvez por isso fujam todos mal chegam a Portugal). A
corrida aos lucros com os despojos do coberto vegetal de Portugal vai ser
enorme – depois de termos o maior eucaliptal da Europa, e sermos já
leaders na exportação de pellets (que
são feitos em grande parte com madeira e não com desperdícios como se faz crer),
até já ultrapassámos a Rússia, certamente vamos bater o record do kWh por m2 de
território gerado com biomassa. Os interessados nesta biomassa toda, sempre os
mesmos do costume, não se vão fazer rogados. Um comendador/comentador
conhecido, ele próprio um arrivista das energias renováveis, dá uma ideia do
que se poderá passar, na entrevista publicada na “Vida Rural” em
Dezembro de 2010 — “A biomassa é o ovo de Colombo em
Portugal”. Sobre os problemas que estas centrais levantam, ao nível da
destruição de ecossistemas e conservação do solo, para não falar na mais que
duvidosa “neutralidade” na produção de CO2, o pacote florestal do
governo que contempla a criação de centrais de biomassa como medida essencial,
nada refere. A
aplicação cega da lei das limpezas de 2006 tem um alcance mais largo: vem
colmatar em parte o que a reforma das florestas aprovada em Julho passado no
Parlamento, com base num pacote proposto pelo governo em 2016, não conseguiu
— a criação de um “banco de terras” — que ficou de fora
do pacote, e que provavelmente teria mesmo sido aprovada pela tal
“geometria variável”, não fora a proximidade de eleições
autárquicas (com retoques cosméticos, não faltará muito para ser aprovada, como
aconteceu com a lei do financiamento dos partidos). Este banco de terras, que é
dado como a grande solução para o ordenamento do território e desenvolvimento
do meio rural e do interior em particular, vai reunir terrenos privados sem
dono, terrenos rústicos do estado, terrenos de que o estado toma posse por incumprimento
de leis de manutenção, terrenos que o estado compra a privados com as receitas
das vendas dos primeiros. Na revenda a privados, no caso de “património
com vocação florestal”, as parcelas “deverão integrar uma área
mínima de O
ministro Capoulas Santos anuncia agora, em primeira mão, a criação de uma
“Nova Empresa Pública de Desenvolvimento e Gestão Florestal” que
vai procurar identificar os prédios rústicos para arrendamento e garantir um
rendimento anual aos proprietários, sobretudo “pessoas mais
idosas”. Não disse em que moldes e com que critérios isso vai se feito.
Mas parece ter pressa – é uma “questão de semanas”, afirma.
Trata-se do plano B do banco de terras que foi chumbado pelo Parlamento em
Julho? O ministro, que não conseguiu disfarçar o desconcerto que teve com o
chumbo, avisou logo — “o Código Civil permitir-nos-á contornar o
banco de terras”. Com banco ou sem banco, em áreas florestais, o Estado
poderá tomar posse de terrenos abandonados, ou desenquadrados da vocação
florestal. E como vai o governo convencer os agricultores idosos donos de
terrenos rústicos, e os que não são idosos, a passarem a gestão das suas
propriedades para a nova Empresa Pública? Ainda há uma esperança — poderá
recorrer a “elementos dispersos da legislação”. Como a lei das
limpezas? Esta
reforma das florestas parece feita à medida das ambições das indústrias do
papel. O banco de terras, ou seu substituto, era a oportunidade para o estado
impor áreas de floresta autóctone, floresta a sério — não se vislumbra
essa intenção nas propostas do governo. Pelo contrário, pretendem aumentar a
produção de eucalipto, tirando eucaliptal onde a produção não é rentável e
plantando em terrenos mais produtivos que antes não tinham eucalipto –
assim não se aumenta a área (mas também não se diminui). Quando se cortam eucaliptos, eles
voltam a crescer sozinhos com o dobro da força – o que vai acontecer a
estes ex-eucaliptais, que deixaram o solo arruinado? E que novos terrenos
produtivos vão ser eucaliptados? O
anterior governo queria pôr mais eucaliptos no Alentejo e regá-los com água do
Alqueva. A lei que liberalizou a plantação de eucalipto em 2013, e que podia
ter sido revogada em 2015, não foi – hipocritamente anunciou-se que iria
ser, um dia. Foi agora, em Fevereiro deste ano. A corrida ao eucalipto disparou
e foram plantados mais eucaliptos nestes dois anos do que nos dois anos após a
lei ser aprovada. Sobre isto, em Novembro passado, o ministro Capoulas Santos
desculpa-se com: “Roma e Pavia não se fizeram num dia”. O
mesmo ministro que dizia, entre os dois grandes fogos de 2017, que o governo
fez o que poderá ser “a maior revolução que a floresta conheceu desde os
tempos de D. Dinis”. O que aconteceu em Outubro deu-lhe razão… A
poderosa indústria do papel lançou nos jornais uma fortíssima campanha
publicitária paga (e outra aparentemente não-paga) quando o pacote da reforma
da floresta foi anunciado, pondo-se no papel de virgem ofendida e alegando que
estava a ser diabolizada, quando na verdade deve ter esfregado as mãos de
contente com a reforma anunciada. Mais pareceu uma manobra coordenada entre as
indústrias da celulose e o ministro Capoulas Santos: uns podem plantar mais
eucaliptos, os outros podem simular que querem reduzir a sua plantação. É bom
lembrar que Portugal continental tem a quinta maior área absoluta de eucalipto
no mundo, a seguir, à China, Brasil, Austrália e Índia, que têm 104, 92, 84 e
32 vezes a área de Portugal. Dos 22 milhões de hectares de área de eucalipto no
mundo, Portugal tem quase 1 milhão – é a maior densidade de eucalipto do
mundo. Comparativamente a Espanha, que tem características climáticas e de
relevo do solo semelhantes a Portugal, e tendo em conta a diferença de tamanho
do território, em Portugal a percentagem de área ardida em 2017 foi 25 vezes
superior à que foi em Espanha. Por coincidência ou não, a densidade de
eucalipto em Portugal, a maior do mundo, é 21 vezes maior que a de Espanha.
Será que em Espanha não há alterações climáticas? Mas Espanha também leva o
combate a incêndios muito mais a sério, sobretudo na prevenção, onde investe o
triplo do que investe em combate, ao contrário de Portugal. O nosso governo em vez de produzir
leis absurdas podia ir a Espanha ver o que exactamente lá se faz, que é o que o
senso comum e observação da realidade mandam (bastava ler os elucidativos
artigos publicados no “El País” sobre os fogos em Portugal). Se
uma pequena parcela do esforço intimidatório que está a ser exercido sobre
todos os proprietários, fosse dirigido aos que fazem queimadas indevidas e aos
incendiários, é possível que houvesse menos fogos este ano. Prefere-se atribuir
às alterações climáticas e fenómenos estranhos a ocorrência de 542 fogos num só
dia. Perseguir os incendiários não daria tanto lucro, nem tantos empregos, como
dão as consequências da não-aplicação da lei das limpezas. O
ministro Capoulas Santos declarou há dias que esta é a maior operação de
limpeza de floresta “em 800 anos de história”. Em
1958, na China, o grande leader Mao Tse-Tung convocou toda a nação para
erradicar a praga dos pardais, que roubavam cereais das colheitas e estavam a
prejudicar o progresso económico da China – foi a grande campanha dos
pardais. Os cidadãos chineses mobilizaram-se massivamente e durante dias vieram
para o campo e bateram em tambores, em tachos e panelas o mais que puderam para
aterrorizar os pardais e impedi-los de poisarem, até caírem mortos de exaustão.
Outros foram mortos a tiro, os ninhos foram destruídos. Foram exterminados
centenas de milhões de pássaros. As consequências do sucesso da campanha
tornaram-se evidentes em 1960. Os pássaros não comiam só cereais, também comiam
insectos. Sem pássaros os insectos proliferaram e destruíram as colheitas.
Dezenas de milhões de pessoas morreram à fome. Como
disse Henry Thoreau, filósofo e naturalista americano, “qualquer idiota
pode fazer uma regra e qualquer idiota a seguirá”. Avancemos, pois, com a
roçadeira e a motosserra! |
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