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[Museum] Museu da Interculturalidade, ou Disto, ou Daquilo, com diferentes nomes e conteúdos ...

To :   "archport" <archport@ci.uc.pt>, "museum" <museum@ci.uc.pt>, "histport" <histport@ml.ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Museu da Interculturalidade, ou Disto, ou Daquilo, com diferentes nomes e conteúdos ...
From :   José d'Encarnação <jde@fl.uc.pt>
Date :   Mon, 23 Apr 2018 23:57:35 +0100

         Partilho, com todo o gosto e aplauso. – J. d’E.

 


De: Matilde Sousa Franco [mailto:matildesousafranco@gmail.com]

 

Caríssimos José d`Encarnação, Luís Raposo, Pedro Pereira Leite e todos os outros Colegas e Amigos

 

1. Começo por pedir ao meu colega e amigo Prof. Doutor José d`Encarnação que faça o favor de divulgar esta missiva pela Rede através das suas 3 Listas, pois penso ser pena o assunto estar restrito ao Museum.

 

2.  Na sequência dos meus dois artigos publicados no jornal online “Observador”, “Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa, e não Museu das Descobertas” e “Interculturalidade de origem portuguesa como património mundial, e mais elementos e sugestões para esse museu”, publicados no jornal online “Observador”, respectivamente em 24 de Março e 9 de Abril de 2018, o meu amigo José d`Encarnação tão amavelmente divulgou-os,  a meu pedido, pela Rede (WorldWideWeb) através das 3 Listas “museum”, “histport” e “archport”, o que muito agradeço, pois eu já então pretendia contactar o mais possível com todos vós.

 

Agradeço os numerosos e ponderosos apoios entretanto também recebidos, pedindo licença para aqui os sumariar, indicando agora apenas os seguintes: da Academia Portuguesa da História (que, segundo o ofício, de 27 de Março, assinado pela Presidente, Profª Doutora Manuela Mendonça, transmitindo a deliberação do Conselho Académico, colabora “com o maior entusiasmo”), do meu amigo Prof. Doutor Luís Raposo, com a  mais-valia de ser o Presidente do ICOM Europa e Membro do Comité de Partes Interessadas do Ano Europeu do Património Cultural (que logo, em 30 de Março, me escreveu a apoiar “com entusiasmo” … em “tudo o que entenda útil”), do Presidente da Academia das Ciências de Lisboa, Prof. Doutor Artur Anselmo  (que considerou o projecto “do maior interesse”), da Secretária-Geral da Academia das Ciências de Lisboa, Profª Doutora Maria Salomé Pais (que logo me escreveu “Muito bem parabéns. Espero que a sua magnífica ideia se concretize em todas as vertentes propostas”), do Coordenador Nacional do Ano Europeu do Património Cultural e Administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, Prof. Doutor Guilherme d`Oliveira Martins (que logo me escreveu “Felicito-a vivamente pela pertinência das considerações. É indispensável pensar nestes  temas e agir em conformidade”, do Prof. Doutor José Eduardo Franco, Director do CLEPUL, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa ( a maior unidade de pesquisa da FCT do país, na área das ciências sociais e humanas), o  qual me escreveu “Excelente ideia! ....  Pode contar com todo o meu apoio”, etc, etc, etc. 

Sou amiga da Drª Catarina Vaz Pinto, Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa e, como anotei, por cortesia enviei-lhe o meu 1º artigo, logo a 24 de Março e em primeira mão, tendo-me ela logo simpaticamente respondido.

Há também contactos e apoios a nível governamental, político, diplomático, de outras universidades, autarquias, etc. 

Está em aberto o meu projecto museológico  ser concretizado em diferentes autarquias, pois já foi manifestado interesse na zona de Lisboa e no Norte.

 

3. No dia 20 de Abril de 2018, fiquei gratamente surpreendida com a tão simpática Proposta do Prof. Doutor Pedro Manuel Cardoso para que a Câmara Municipal de Lisboa, em parceria com a Direcção-Geral do Património Cultural, me convidem para, com o Prof. Doutor Luís Raposo, sermos os Coordenadores de "um grupo-de-trabalho, constituído formalmente em termos legais, com o objectivo de apresentar um Documento Orientador do Programa Preliminar de Concepção desse Museu”.

 Bem-haja, caríssimo Pedro! 

Obrigada também pela sua referência ao “modo aberto e democrático” da apresentação dos contributos, o meu e o do Luís!.

 

4.  Agradeço imenso e aceito a Proposta do Prof. Doutor Pedro Manuel Cardoso e o eco/apoio  já granjeados, mas sublinho que julgo ser indispensável haver também sempre a colaboração da Academia Portuguesa da História, com  o seu garantido rigor científico em todas as áreas, como este museu necessita, para que possa unir todos, sem elitismos, sem populismos, etc, ajudando a melhor conduzir à reconciliação e à Paz, objectivos que concordaremos serem urgentes. 

Aliás, lembro que fiz questão de encetar contactos com a Academia Portuguesa da História, prévios à publicação do  1º destes meus referidos artigos, por sempre ter considerado essencial a sua colaboração neste projecto desde o início.

 

5. Assim, respondendo ao Pedro: “Estará a dupla Raposo e Franco consciente do desafio de criar uma narrativa da “diversidade”. A partir de onde, com que e com quem?”. Sempre estive consciente disso, sempre contei com a Academia Portuguesa da História, tendo também ficado muito feliz com o mencionado, pronto e amigo apoio de Luís Raposo.

 

Abraços para todos

 

Matilde

 

 

 

No dia 22/04/2018, às 13:12, Luís Raposo <3raposos@sapo.pt> escreveu:

 

Pedro,

Penso que a breve explicação que dei do que entendo por “Museu da Viagem” é em si mesma suficiente para, qualquer que seja o ângulo elitista (“intelectual português” ou “de afro descendentes”… como se os dois não fossem miscigenáveis…) que se adopte, não poder ser feita a amálgama que constitui a expressão “dupla Raposo e Franco”, não obstante os pontos em comum (e a consideração pessoal) que existem e eu também referi.

Quanto a estar eu consciente de tudo o que dizes, sim, estou. Tanto, que sei bem que o projecto de um “Museu dos Descobrimentos”, celebratório do génio ou simplesmente da originalidade do ser português constitui alegoria não apenas da “elite intelectual portuguesa” (seja ela a monárquica ou a explicitamente salazarista, seja ela alguma da republicana e maçónica – como se viu nas épocas históricas que evoquei no meu texto, incluindo a actual, e poderia ser mais desenvolvido pela análise da posições coloniais da burguesia republicana durante a 1ª República) como, ouso dizer, de grande parte do “povo”. Pelo menos da parte dele (parte muito ampla, assim me parece) que não vive na órbita dos tais “intelectuais portugueses” (os quais presumo que tu não integras, porque nem no BI ou passaporte terás esse odioso qualificativo de “português”) e, pelo contrário, se considera ainda hoje nostálgico e carente de “pátria e autoridade".

Sabes, Pedro, talvez não fosse mau desceres à terra e perceberes que o grande perigo de um Museu dos Descobrimentos ultramontano não é o de ser conduzido por elitismo, mas sim por populismo.

Por mim e se não fizermos nada ou se o que fizermos for simplesmente amalgamar tudo à maneira de “western” de mau gosto (“bons/esclarecidos/humanistas… nós”; “maus/néscios/cruéis... outros”, esquecendo pudicamente de saber onde situar os “feios, porcos e maus” de Ettore Scola, que afinal e na verdade somos todos nós), não tenho grandes dúvidas que, na altura e com as condições próprias, voltará a existir uma “iniciativa da sociedade civil” para “reparar o passado” e mostrar, de forma mais ou menos explícita, “o orgulho da raça e do império”. E será, podes crer, iniciativa muito mais forte e avassaladora do que a dos "afro-descendentes" que agora se mobilizaram pelo Memorial da Escravatura (a qual, já agora, convém dizer que não tem cor de pele, até porque, como bem saberás ou pelo menos eu julgo saber, a grande maioria desses “resgatados esqueletos dos escravos descritos por Zurara” eram magrebinos e não negros).

Dito tudo isto, regresso ao essencial: a “viagem” caracteriza-nos e não vejo mal nenhum em documentá-lo através de narrativa museológica. Antes pelo contrário, vejo grandes, enormes vantagens. Mas, insisto no que escrevi: falo do sermos habitantes da Finistrerra ocidental europeia, antes de sermos portugueses. Falo da Viagem num sentido profundamente metafórico (mais do que o tempo/espaço da deslocação de um lugar para o outro, o tempo/espaço do ficar e do interagir; e tanto quanto a movimentações e cruzamento de gentes como quanto a troca de saberes e ideias). Falo, pois, da Viagem no sentido de uma sedimentação muito espessa nesta Finisterra ocidental europeia, que ocupamos desde a Pré-História (muitos milénios, pois) e que nos últimos cerca de 900 anos (menos de um milénio, pois) adquiriu a o estatuto político-jurídico de Estado/País. E, claro, falo também (como não?!) da Viagem mais ampla em que os portugueses (Estado, ou seja, elites dominantes, e Nação, ou seja povo em busca de melhores condições de vida) se envolveram desde há cerca de 600 anos (pouco mais de meio milénio, portanto). Falo de como esta dimensão global nos moldou a todos.
E quando digo todos, é todos mesmo: os que fomos, os que ficámos (aqui ou lá) e os que viemos, dos quais apenas uma pequena parte são retornados posto que a grande maioria são novos vindos e nos fazem ser o que somos tanto quanto os velhos idos.

Quoting Pedro Pereira Leite <pedropereiraleite@ces.uc.pt>:

Apesar de ter pouco tempo para a escrita nesta listas, tenho vindo a acompanhar os debates sobre a proposta do Museu da Interculturalidade em Lisboa, na sua ligação com a iniciativa do orçamento participativo de Lisboa.

Não resulta claro  nesta discussão se a proposta de Matilde de Sousa Franco para o Museu da Interculturalidade e a proposta do Memorial da Escravatura (projeto p 126 vencedor no orçamento participativo de Lisboa) é sobre a mesma questão. 

Tenho ideia que Matilde de Sousa Franco, tem desde sempre vindo a defender a ideia do tal museu da interculturalidade ou da celebração do "encontro de culturas" tal como a elite intelectual portuguesa gosta de se referir à tragédia colonial e pós-colonial portuguesa, procura, como sempre tem vindo a fazer, reunir apoios e influencias para um projeto que é digamos assim "designio de vida". 

Já o Memoria da Escravatura, no orçamento participativo, resulta duma iniciativa da sociedade civíl, nesta caso da "afro-descendentes" que se mobilizou. 

Ora entre os dois processos há uma distância epistemológica que vale a pena registar. 

No primeiro caso, o do Museu, não é mais do que uma vontade duma elite intelectual, ainda que celebrada, por narrativas simbólicas e legitimada por influentes lideres de opinião, entre os quais o peso pesado António Guterres. 

O segundo caso, o do memorial da escravatura, é também uma vontade duma elite de afro descendentes, que confronta a narrativa elitista, procurando impor uma outra narrativa, da diversidade do presente. 

Para além da diferença epistémica, que poderia ser uma razão para dialogar e avançar conjuntamente, e da diferença de  legitimidade que  as duas propostas transportam, a do orçamento participativo, por via do paradigma da democracia participativa, e a do orçamento da CML, por via da legitimidade do paradigma representativo, há ainda uma terceira questão que valeria a pena discutir. A da vontade de museu.

A vontade de museu é essa expressão duma comunidade que escolhe uma maneira de se representar. Nesta questão, a vontade de museu não só é na sua forma divergente, como no plano dos conteúdos também o é.

E temos como exemplo, para refletir, a trágica  situação do museu da escravatura em Lagos, a cidade dos Descobrimentos, como se gosta de proclamar. Vai para dez anos que na lixeira da cidade foram resgatados esqueletos dos escravos descritos por Zurara, nos idos de quatrocentos. Caso único na Europa e no Mundo. Esses escravos estão esquecidos em Coimbra, sem que os tais intelectuais de hoje lhe tenham reconhecido valor. Os mesmo intelctuais que montaram uma deplorável exposição com objetos africanos (recolhidos nas coleções locais), confundindo escravatura e africanos, como os seus (nossos) antepassadaos confundiram a humanidade com a mercadoria. 

Estará a dupla Raposo e Franco conscientes do desafio de criar uma narrativa da "diversidade" . A partir de onde, com que e com quem?

 


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