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Pedro,
Agradeço o teu texto. Mesmo quando sou mais assertivo, nunca confundo ideias com pessoas. Por mór razão não o faria em relação a ti, que muito respeito e com quem estou basicamente de acordo nas questões mais profundas dos museus (e da vida, ousaria dizer).
E é bem o caso da maior parte da explicação que dás agora: concordo contigo que os museus, e este possível museu em particular, qualquer que seja o nome, só valerá realmente a pena se for útil para o presente. E é a partir do presente que ele deve interrogar o passado (e talvez também, mais isso é mais duvidoso, projectar o futuro). Cita-se a propósito muitas vezes o clássico agostiniano quanto ao tempo: só temos presente (presente-passado, presente-presente e presente-futuro).
Ora, estando ancorado no presente, não pode evidentemente ser um museu neutral (de resto, o que é isso de neutralidade?), ou seja, deve intencionalmente passar uma mensagem, a de “incorporar a diversidade da dignidade humana”, mesmo lá onde tal signifique cortar o ramo sobre nós próprios, sobre aquilo que foram e porventura são ainda segmentos do que somos.
Uma última nota, que os teus comentários me suscitam: contrariamente à minha colega e amiga Matilde Sousa Franco, que procurou – e bem – recolher as reacções de instituições e personalidades, a minha tomada de posição é exclusivamente pessoal e não articulada com ninguém. Em tudo o que fiz na vida, o meu “poder” sempre esteve contido no pequeno arco que medeia entre o que penso com a cabeça e o que escrevo com a mão. E em afirmá-lo com clareza. Há dias coloquei um pequeno poste no meu Facebook fazendo o elogio da tomada de posição do meu colega e também amigo António Filipe Pimentel, do qual divirjo consideravelmente sobre estes assuntos. Como aí disse e porque ele citava o conhecido aforisma de Boileau, felicitava-o porque “pelo abandono do dever de ‘prudente silêncio’ se permite de Conrado melhor perceber o pensamento.” Acrescentava depois: “Ora, se ‘mesmo o estulto, quando se cala, passa por sábio’, como nos ensina o Livro dos Provérbios, compreende-se o risco da fala, no que ela expõe de saberes e motivações…” E concluía: “Celebro, pois, a virtude, por oposição ao dever, como diz Kant: ‘Virtude e dever são duas coisas diferentes. O dever é uma coerção, a virtude uma liberdade.’
É esta virtude da liberdade que me leva neste contexto a esclarecer que não só nada tenho a ver com a iniciativa política da CML, da qual nem sequer nunca ninguém entendeu ser útil falar comigo (de resto, como estrangeirado que sou, sou muito mais chamado e ouvido sobre “grandes realizações” na área dos museus na Europa, do que sobre “grandes projectos” em Portugal), como tenho, até ver, as maiores dúvidas quanto ao mesmo. Sobretudo e se como tu muito bem recordas ele enveredar pelo caminho da excessiva subordinação à perspectiva, à influência ou até à tutela militar, repetindo o modelo da Ditadura, quando tinha um venerando e muito coitado almirante na chefia do Estado. O Museu da Viagem que eu visiono, para ser intrinsecamente humanista, há-de ser também fortemente civilista. E, mesmo sendo localizado em Lisboa, deveria resultar da acção conjugada do Estado central (e aqui da área da Cultura basicamente), da Autarquia e da chamada “Sociedade Civil”, entre a qual cumpre salientar o movimento associativo.
Luís Raposo
Quoting pedropereiraleite <pedropereiraleite@ces.uc.pt>:
Uma das virtudes que esta lista nos dá, é a possibilidade de debate sobre questões de museus. Nesse sentido é uma espaço de liberdade que devemos proteger.
Interroguei aqui no passado domingo, talvez de forma pouco correcta, se os meus estimados colegas Matilde de Sousa Franco e Luís Raposo "estariam conscientes de criar uma narrativa da diversidade" sobre o lugar de Portugal no mundo.
Devo começar por afirmar que quer a Profª Matilde de Sousa Franco, quer o Prof. Luís Raposo são dos melhores profissionais que temos entre nós, e que poderão, sem qualquer dúvida executar um bom projeto museológico. Deveria ter escrito, em vez de dupla (que poderá ser lido como uma conotação mais vulgar) duo. Duo, porque revelaria uma busca da virtuosidade, tal como é característico da nossa literatura (expresso nas cantigas de amigo) que talvez tenha sido um dos primeiros sinais da autonomia cultural que se procura identificar. E ter esse "duo" seriam uma inovação nos processos museológicos .
Recordo também, que essa "proposta e nomeação" dos dois distintos museólogos tinha partido do colega Pedro Cardoso Pereira. Tendo-os nomeado sem reparo, pensava que tinha ficado claro o apoio à ideia e não pensei que pudesse vir a ser interpretado como ironia, o que justifica algumas respostas mais robustas, o que não posso deixar de compreender . Ter um museólogo (ou dois) é, para estes projetos fundamental, para evitar os "buracos" que conhecemos nos últimos museus de Lisboa (e falo dos Coches e do MUMA).
Também quis distinguir as questões do orçamento participativo da CML, dos projetos políticos da CML: No orçamento participativo de Lisboa, foi vencedora uma proposta de um "memorial da escravatura". Não foi proposto um museu. Um memorial é um elemento simbólico na cidade, como por exemplo o que está no largo de São Domingos, sobre o Pogrom dos Judeus no século XVI.
Um museu é outra coisa. É um equipamento cultural, com determinadas funções e que tem, em princípio uma dada "narrativa" (uma história). Ora a atual veração socialista da Câmara Municipal de Lisboa (que tem a legitimidade do voto) apresentou como proposta eleitoral a criação do tal "museu dos descobrimentos", que naturalmente estará agora a tentar concretizar.
Neste caso, de criar um museu, é expectável que tal decorra duma "política cultural para a cidade". Por principio criam-se equipamentos para satisfazer necessidades sociais. A vereadora Catarina Vaz Pinto tem, indubitávelmente uma política cultural em exercício na a cidade. Podemos estar de acordo ou não, mas há política cultural na cidade, como também há uma política cultural no país. E como política cultural que é, resulta do jogo dos atores políticos.
Sobre este tal equipamento sabemos que foi assinado um protocolo com a Marinha, para "animar" a área ribeirinha. Sabemos que há pelo menos mais três museus das descobertas ou dos descobrimentos em Portugal (em Belmonte, no Porto e em Lagos), pelo que podemos interrogar sobre o que terá de novo e diferente e que necessidades sociais e culturais procura satisfazer.
O museu, dos descobrimentos ou qualquer outro, é um lugar de poder. É por isso natural que sobre ele converjam interesse diferenciados. E também natural que cada ator afirme o seu lugar para com isso ganhar espaço de afirmação.
Nesse exercício, é salutar todas as posições que a Professora Matilde de Sousa Franco tem vindo a expressar, bem como é de saudar todos os apoios que tem vindo a recolher, o que naturalmente dá relevância ao seu projeto, e que veja esta questão como oportunidade para concretizar um projeto que há muito alenta. É também notável o esforço que desenvolve para a alinhar o escopo gerador desse tal novo museu com a visão humanista que é característica conhecida desta nossa colega.
É também de saudar os posicionamentos do Prof. Luís Raposo, que como bem sabemos tem desde à vários anos tomado posições corajosas e relevantes sobre os museus portugueses. não podemos deixar de recordar a sua posição de criar um equipamento cultural que valorize no espaço simbólico da Cordoaria Nacional com também nos lembramos, com admiração, das suas posições sobre o "complexo museológico de Belém".
São todos atores que se pronunciam de diferentes lugares, que exercem diferentes poderes, e que usam como argumentos "narrativas de racionalidade". Será desse jogo de poderes ou "balançeamentos" que se construirá certamente o futuro e influenciará esse tal "novo" equipamento.
Finalmente sobre as "narrativas da racionalidade". Um museu conta uma história. Como diz com propriedade Luís Raposo, a maioria dos museus resultas de "viagens". As viagens dos cientistas do século XVIII alimentaram os museus de História Natural e os "Jardins Botânicos". As viagens à antiguidade grego-romana dos humanistas alimentaram "gabinetes de curiosidades e antigualhas", tal como as conquistas napoleónicas no Egito alimentaram o Louvre .O colonialismo britânico alimentou o British Museum, o colonialismo francês e belga os museus etnológicos". Não é possível esquecer que as construções das narrativa sobre o outro foram no passado, nos museus europeus, narrativas excludentes. Na nossa modernidade é hoje necessário ousar criar narrativas inclusivas com base na dignidade humana.
A viajem está na matriz dos museus. Sim. Viagens e descobrimentos poderão constituir sem dificuldade uma narrativa de racionalidade. Ou num termos mais técnico o seu "conceito gerador". Mas não podemos esquecer que essas viajem hoje não podem continuar a ser de saque e rapina.Necessitamos de viajem que sejam libertadoras.
Até aqui estamos de acordo.
O que é procurei relevar na minha questão sobre a diversidade, e volto a esta questão, neste espaço de debate, é que uma narrativa sobre a identidade portuguesa poderia/deveria ser construída sobre uma leitura do presente. Uma leitura da diversidade dos portugueses como seres viajantes que trocam ideias, corpos, alimentos, sonoridade, sensibilidades, palavras. Essa é uma leitura que está por ser construída, e que este equipamento poderá ajudar a pensar se souber nele incorporar a diversidade da dignidade humana dos seu enunciados e contributos.
A força da narrativa dum museus não está na abordagem do passado. Está em ele ser capaz de falar sobre o presente. Se assim não for, com mais ou menos tecnologia, com mais ou menos virtuosidade da sua museália, com mais ou menos milhões, é um museu moribundo. E "como sabemos um museu que não serve para a vida não serve para nada".
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