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[Museum] Museus para o Passado e Museus para o Futuro. Nunca para o Presente.

Subject :   [Museum] Museus para o Passado e Museus para o Futuro. Nunca para o Presente.
From :   Pedro Pereira <pedropereiraoffic@outlook.com>
Date :   Wed, 25 Apr 2018 18:46:16 +0000

 

Sugeri um tipo de Museu que servisse para preparar o Futuro.

Houve algum melindre.

Não se entende. Mas qual é verdadeiramente o motivo da hesitação? Não vale agora dizer que o que queriam dizer era: Mistos.

Se a Vida fosse o Presente, e apenas o Presente (como o hedonismo consumista pós-moderno e neoliberal pretende), como podíamos usar o Tempo de agora para projetar um museu que só depois será possível construir? Como é possível viver apenas no Presente se com mais de cinco dias sem água já seria problemático continuarmos a Viver? Não é para preparar o Futuro que se constroem barragens antes? Porque os Museus também o não podem ser?

O Presente não é aquela falta de Desenvolvimento que a ONU quantifica nos Objetivos do Milénio, e aquela insuportável assimetria que urge mudar? Será esse Presente que os museus propõem eternizar?

 

Em Três Partes tentaremos explicitar a questão. Vale a pena, porque o tema proposto pelo ICOMOS é exatamente “desta geração para as que lhe sucederem”.

 

PARTE 1

 

Um Museu para preparar o Futuro.

Sim.

Trata-se de gastar o dinheiro dos Contribuintes em Museus criativos e transformativos, em vez de Museus contemplativos e memoriais. Museus para transformar as Pessoas e a Sociedade. Museus para preparar o Futuro, em vez de museus para se viver eternamente no Presente ou no Passado.

Não foi Mariano Gago que denodadamente quis esses “museus” para Portugal? E os fez nascer em várias partes deste território jurídico que há mais de 800 anos se designa por Portugal?  Não é a atual Administração do Centro Cultural de Belém que quer também um Museu com projecção internacional através da construção das valências que faltam ao Projeto (repare-se na palavra Projeto; no sentido que ela tem)? E outros exemplos, tanto em museus novos ou antigos, dependendo de Quem os gere. Aliás, esta proposta não é nova. Faz parte de duas concepções de Patrimologia (museologia e afins) que há muito se digladiam na História do Património.

 

Disseram: «Um Museu para a Vida. Outro qualquer não interessa». Também estou de acordo. Desde que se considere que o próprio Ser-humano é um Projeto em permanente construção. Ou não?

 

Disseram: «Um Museu para a Vida. Outro qualquer não interessa». Também estou de acordo. Desde que por Vida se considerem todas as concepções de Tempo (e de Espaço) que ela criou e inventou. Ora um Museu que sirva o Futuro (um Projeto) não é aquele uso do Tempo que nos prepara melhor para o Presente (que imediatamente é… Passado)?

Não é essa a espécie de Tempo mais valiosa em termos patrimoniais, em vez da que julgávamos, ao fazermos todos os Museus para o Passado?

 

 

PARTE 2

 

Claro que todos conhecemos a importância desta questão. E não foi Jürgen Habermas que a veio ensinar (“a fundamental determinant of Modern culture was an altered perception of the meaning of time and history, to which a transformed consciousness of the temporality”). A questão é muito mais antiga.

A mudança, a duração, o Espaço e o Tempo são importantes para a Questão Patrimonial porque interfere diretamente na transmissibilidade. E transmitir aquilo que é vital às gerações futuras, através de um processo que guarda isso num local especial no núcleo da célula, é o que caracteriza a estratégia de vida Eucariote iniciada há 1800 milhões de anos da qual os Humanos são herdeiros diretos.

 

A concepção agosteana de Tempo não é a do “sempre Presente” (como no Budismo Zen). Pelo contrário. A concepção do “sempre Presente” é uma concepção cíclica de Tempo tão ajustada ao modo de produção agrícola e sedentário do Oriente Extremo como ao Europeu até à dita Idade Média. A concepção de Tempo proposta por Santo Agostinho (Agostinho de Hipona) é exatamente o contrário dessa. Instaura uma rutura contra a Ciclicidade. Que, mais tarde, vai ser usada pelo Iluminismo e pelo Progresso evolucionista dos Tempos Modernos. Um Tempo concebido como uma seta, que viajaria obrigatoriamente do Passado ao Futuro passando pelo Presente. A célebre formulação de Santo Agostinho (de Hipona) é a seguinte: "(...) quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, como poderíamos afirmar que ele existe, se a causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir? " (Agostinho de Hipona, 398).

 

Várias outras lhe sucederam.

# Se o Responsável pelo Património escolhesse a concepção Cíclica de Tempo o Visitante não seria capaz de separar (com tanto dramatismo e radicalidade como agora) o antes do agora e do depois, ou o princípio do fim.

# Mas se escolhesse a de Agostinho de Hipona (Santo Agostinho), o Visitante veria o Património de outra maneira - sucessivamente de um passado para um presente, e depois para um futuro.

# Se escolhesse a concepção de Giordano Bruno (1584), essa progressão agostineana seria uma ilusão, pois os inícios e fins seriam sempre uma espécie de figuras de retorno dos múltiplos a um Uno.

# Mas se escolhesse a de Heidegger (1924), sendo nós mesmos o nosso próprio conceito de tempo, situando-nos, assim, no nosso antropocentrismo enquanto sujeitos-no-mundo, víamo-lo ainda de modo diverso, girando como uma espiral no turbilhão feito por nossa causa, “(…) no nosso estar uns com os outros, seríamos o tempo... nenhum de nós e cada um.” (Heidegger, 1924/2008, p.31).

# E se escolhesse o conceito de Tempo de alguns físicos e biólogos da atualidade (por exemplo, C. Callender, J.A.Wheeler, Musser, 2010, 2012, 2014) o Visitante vê-lo-ia separado do Espaço, até com possibilidade de acabar.

 

Assim sendo, o Tempo é, e não é, uma convenção.

Por um lado É, porque é usado por cada ideologia política (económica e social) conforme lhes apraz. Cada arbítrio político e ideológico escolhe os inícios e os términos que mais lhes convêm. Bourdieu, exatamente em “O Indivíduo e o Poder”, chamou a esse jogo “regere fines” (o jogo de estabelecer fronteiras).

Por outro lado NÃO É, porque a Natureza (a Vida) para obviar a esse desvario criou a Memória no hipocampo. E estabeleceu regras entre as sinapses e os neurónios que permitem fazer funcionar nos humanos o “GPS cognitivo” (ver prémios Nobel May e Edward Britt). Assim, quaisquer que sejam as ideologias e as fantasias dos humanos há uma maior garantia de que Tudo não acaba por causa dessas interpretações anárquicas ou partidárias.

 

 

PARTE 3

 

Razão pela qual na Gestão do Património, depois de aprendermos essa lição da História e da Antropologia – de um conceito de Tempo feito à medida dos interesses ideológicos (económicos, sociais, religiosos, políticos, culturais) – foi necessário criar uma ferramenta que permitisse discernir e gerir esses diferentes regimes e escalas de Tempo (e Espaço). Foi necessário criar um Método para se fazer com mais rigor a descrição/levantamento/diagnóstico do Património e do seu percurso etno-histórico em cada Contexto e em cada Circunstância. Concretamente, a fórmula que permite em cada caso concreto responder à seguinte pergunta:

 

«Existe, em termos matemáticos, para um tempo/espaço quantificado (R), e para um objeto/facto particular (N), uma qualquer diferença (X) entre [O1, O2, O3], ou [U1, U2, U3], ou [V1, V2, V3]?»

 

 

REGIMES E ESCALAS DE TEMPO/ESPAÇO NA GESTÃO DO PATRIMÓNIO:

 

Existe, em termos matemáticos, para um tempo/espaço quantificado (R), e para um objeto/facto particular (N), uma qualquer diferença (X) entre [O1, O2, O3], ou [U1, U2, U3], ou [V1, V2, V3]?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Objeto/

Facto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uso

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Valor/

Significado

 

 

Passado

Antes

Anterioridade

 

 

O1

 

U1

 

V1

 

Presente

Agora

Contemporaneidade

Coetaneidade

 

 

O2

 

U2

 

V2

 

Futuro

Depois

Posterioridade

 

 

O3

 

U3

 

V3

 

 

 

OBJETO/FACTOS

que são PATRIMÓNIO

 

 

USO

 

VALOR

 

PATRIMÓNIO: objetos/factos concretos tal como existiam no Passado.

 

 

USO dado no Passado.

 

VALOR que tinham no Passado.

 

PATRIMÓNIO: objetos/factos concretos que existem no Presente.

 

 

USO dado no Presente.

 

VALOR que têm no Presente.

 

PATRIMÓNIO: objetos/factos concretos que se consideram (acervo, coleções) para o Projeto que se propõe Hoje/Agora para o Futuro.

 

 

USO que se quer dar no Futuro com o Projeto que se propõe Hoje/Agora.

 

VALOR que se deseja que venham a ter no Futuro com o Projeto que se propõe Hoje/Agora.

 

Na Gestão do Património é com esta ferramenta-de-análise que se estuda a historicidade dos processos e mudanças que ocorrem no Património a nível do valor, do uso, e do objeto (material, digital e imaterial e outros). Exatamente para contrapor – aos desvarios interpretativos e aos interesses político-ideológicos – um procedimento mais empírico e rigoroso.

 

 

Mas ainda não chega. É necessário mais.

É necessário a Quem gere e é responsável pelo Património que tenha consciência destes Regimes, e possua um Método para os trabalhar com o rigor e a imparcialidade exigidas pelo respeito para com a Inclusão, a Pluralidade, a Diversidade e a Singularidade.

Ora, de todas essas exigências a mais difícil é a Singularidade (aquela que permite viajar entre Culturas sem que o destino seja a miscigenação eugénica ou a união dissolutiva).

Singularidade é aquela parte da Liberdade em que não há vergonha de se adjetivar de Portuguesxs/Portugal áquilo que se fez, faz e fará neste Território (por exemplo: Descobrimentos).

 

Pedro Manuel-Cardoso

 

 


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