Sugeri um tipo de
Museu que servisse para preparar o Futuro.
Houve algum melindre.
Não se entende. Mas qual é verdadeiramente o motivo da hesitação? Não vale agora dizer que o que queriam dizer era:
Mistos.
Se a Vida fosse o
Presente, e apenas o Presente (como o hedonismo consumista pós-moderno e neoliberal pretende), como podíamos usar o Tempo de
agora para projetar um museu que só depois será possível construir? Como é possível viver apenas no
Presente se com mais de cinco dias sem água já seria problemático continuarmos a Viver? Não é para preparar o
Futuro que se constroem barragens antes? Porque os Museus também o não podem ser?
O
Presente não é aquela falta de Desenvolvimento que a ONU quantifica nos Objetivos do Milénio, e aquela insuportável assimetria que urge mudar? Será esse
Presente que os museus propõem eternizar?
Em
Três Partes tentaremos explicitar a questão. Vale a pena, porque o tema proposto pelo ICOMOS é exatamente “desta geração para as que lhe sucederem”.
PARTE 1
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Um Museu para preparar o Futuro.
Sim.
Trata-se de gastar o dinheiro dos Contribuintes em
Museus criativos e transformativos, em vez de Museus contemplativos e memoriais. Museus para transformar as Pessoas e a Sociedade.
Museus para preparar o Futuro, em vez de museus para se viver eternamente no
Presente ou no Passado.
Não foi Mariano Gago que denodadamente quis esses “museus” para Portugal? E os fez nascer em várias partes deste
território jurídico que há mais de 800 anos se designa por Portugal? Não é a atual Administração do Centro Cultural de Belém que quer também um
Museu com projecção internacional através da construção das valências que faltam ao
Projeto (repare-se na palavra Projeto; no sentido que ela tem)? E outros exemplos, tanto em museus novos ou antigos, dependendo de
Quem os gere. Aliás, esta proposta não é nova. Faz parte de duas concepções de Patrimologia (museologia e afins) que há muito se digladiam na História do Património.
Disseram: «Um Museu para a Vida. Outro qualquer não interessa». Também estou de acordo. Desde que se considere que o próprio Ser-humano é
um Projeto em permanente construção. Ou não?
Disseram: «Um Museu para a Vida. Outro qualquer não interessa». Também estou de acordo. Desde que por Vida se considerem
todas as concepções de Tempo (e de Espaço) que ela criou e inventou. Ora um
Museu que sirva o Futuro (um Projeto) não é aquele uso do Tempo que nos prepara melhor para o
Presente (que imediatamente é… Passado)?
Não é essa a espécie de Tempo mais valiosa em termos patrimoniais, em vez da que julgávamos, ao fazermos todos os
Museus para o Passado?
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PARTE 2
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Claro que todos conhecemos a importância desta questão.
E não foi Jürgen Habermas que a veio ensinar (“a fundamental determinant of Modern culture was an altered perception of the meaning of time and history, to which a transformed
consciousness of the temporality”). A questão é muito mais antiga.
A mudança, a
duração, o Espaço e o Tempo são importantes para a Questão Patrimonial porque interfere diretamente na transmissibilidade. E
transmitir aquilo que é vital às gerações futuras, através de um processo que guarda isso num local especial no núcleo da célula, é o que caracteriza a estratégia de vida
Eucariote iniciada há 1800 milhões de anos da qual os Humanos são herdeiros diretos.
A concepção agosteana de Tempo não é a do “sempre Presente” (como no Budismo Zen).
Pelo contrário. A concepção do “sempre Presente” é uma concepção cíclica de Tempo tão ajustada ao
modo de produção agrícola e sedentário do Oriente Extremo como ao Europeu até à dita
Idade Média. A concepção de Tempo proposta por Santo Agostinho (Agostinho de Hipona) é exatamente o contrário dessa. Instaura uma rutura contra a
Ciclicidade. Que, mais tarde, vai ser usada pelo Iluminismo e pelo Progresso evolucionista dos Tempos Modernos. Um
Tempo concebido como uma seta, que viajaria obrigatoriamente do Passado ao
Futuro passando pelo Presente. A célebre formulação de Santo Agostinho (de Hipona) é a seguinte: "(...)
quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, como poderíamos afirmar que ele existe, se a causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir? " (Agostinho de Hipona, 398).
Várias outras lhe sucederam.
# Se o
Responsável pelo Património escolhesse a concepção Cíclica de Tempo
o Visitante não seria capaz de separar (com tanto dramatismo e radicalidade como agora) o
antes do agora e do depois, ou o princípio do fim.
# Mas se escolhesse a de Agostinho de Hipona (Santo Agostinho), o Visitante veria o Património de outra maneira
- sucessivamente de um
passado para um presente, e depois para um futuro.
# Se escolhesse a concepção de Giordano Bruno (1584), essa progressão agostineana seria uma ilusão, pois os
inícios e fins seriam sempre uma espécie de figuras de retorno dos múltiplos a um Uno.
# Mas se escolhesse a de Heidegger (1924), sendo nós mesmos o nosso próprio conceito de tempo, situando-nos, assim, no nosso
antropocentrismo enquanto sujeitos-no-mundo, víamo-lo ainda de modo diverso, girando como uma espiral no turbilhão feito por nossa causa,
“(…) no nosso estar uns com os outros, seríamos o tempo... nenhum de nós e cada um.” (Heidegger, 1924/2008, p.31).
# E se escolhesse o conceito de Tempo de alguns físicos e biólogos da atualidade (por exemplo, C. Callender, J.A.Wheeler, Musser,
2010, 2012, 2014) o Visitante vê-lo-ia separado do Espaço, até com possibilidade de acabar.
Assim sendo, o Tempo
é, e não é, uma convenção.
Por um lado É, porque é usado por cada ideologia política (económica e social) conforme lhes apraz. Cada arbítrio político e ideológico escolhe os inícios e os términos que mais lhes
convêm. Bourdieu, exatamente em “O Indivíduo e o Poder”, chamou a esse jogo “regere fines” (o jogo de estabelecer fronteiras).
Por outro lado NÃO É, porque a Natureza (a Vida) para obviar a esse desvario criou a Memória no hipocampo. E estabeleceu regras entre as sinapses e os neurónios que permitem fazer funcionar
nos humanos o “GPS cognitivo” (ver prémios Nobel May e Edward Britt). Assim, quaisquer que sejam as ideologias e as fantasias dos humanos há uma maior garantia de que
Tudo não acaba por causa dessas interpretações anárquicas ou partidárias.
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PARTE 3
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Razão pela qual na
Gestão do Património, depois de aprendermos essa lição da História e da Antropologia – de um conceito de Tempo feito à medida dos interesses ideológicos (económicos, sociais, religiosos, políticos, culturais) – foi necessário criar uma ferramenta que permitisse
discernir e gerir esses diferentes regimes e escalas de Tempo (e Espaço). Foi necessário criar um
Método para se fazer com mais rigor a descrição/levantamento/diagnóstico do Património e do seu percurso etno-histórico em cada
Contexto e em cada Circunstância. Concretamente, a fórmula que permite em cada caso concreto
responder à seguinte pergunta:
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«Existe, em termos matemáticos, para um tempo/espaço quantificado (R), e para um objeto/facto particular (N), uma qualquer
diferença (X) entre [O1, O2, O3], ou [U1, U2, U3], ou [V1, V2, V3]?»
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REGIMES E ESCALAS DE TEMPO/ESPAÇO NA
GESTÃO DO PATRIMÓNIO:
Existe, em termos matemáticos, para um tempo/espaço quantificado (R), e para um objeto/facto particular (N), uma qualquer
diferença (X) entre [O1, O2, O3], ou [U1, U2, U3], ou [V1, V2, V3]?
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Objeto/
Facto
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Uso
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Valor/
Significado
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Passado
Antes
Anterioridade
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O1
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U1
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V1
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Presente
Agora
Contemporaneidade
Coetaneidade
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O2
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U2
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V2
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Futuro
Depois
Posterioridade
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O3
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U3
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V3
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OBJETO/FACTOS
que são PATRIMÓNIO
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USO
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VALOR
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PATRIMÓNIO: objetos/factos concretos tal como existiam no
Passado.
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USO dado no Passado.
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VALOR que tinham no
Passado.
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PATRIMÓNIO: objetos/factos concretos que existem no
Presente.
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USO dado no Presente.
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VALOR que têm no Presente.
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PATRIMÓNIO: objetos/factos concretos que se consideram (acervo, coleções) para o
Projeto que se propõe Hoje/Agora para o Futuro.
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USO que se quer dar no
Futuro com o Projeto que se propõe Hoje/Agora.
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VALOR que se deseja que venham a ter no
Futuro com o Projeto que se propõe Hoje/Agora.
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Na Gestão do Património é com esta
ferramenta-de-análise que se estuda a historicidade dos processos e mudanças que ocorrem no Património a nível do
valor, do uso, e do objeto (material, digital e imaterial e outros). Exatamente para contrapor – aos desvarios interpretativos e aos interesses político-ideológicos – um procedimento mais empírico e rigoroso.
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Mas ainda não chega. É necessário mais.
É necessário a
Quem gere e é responsável pelo Património que tenha consciência destes
Regimes, e possua um Método para os trabalhar com o rigor e a imparcialidade exigidas pelo respeito para com a Inclusão, a Pluralidade, a Diversidade e a Singularidade.
Ora, de todas essas exigências a mais difícil é a Singularidade (aquela que permite
viajar entre Culturas sem que o destino seja a miscigenação eugénica ou a união dissolutiva).
Singularidade é aquela parte da Liberdade em que não há vergonha de se adjetivar de
Portuguesxs/Portugal áquilo que se fez, faz e fará neste Território (por exemplo:
Descobrimentos).
Pedro Manuel-Cardoso
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