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IL MONDO AL ROVESCIO
«Il
Proteo ò sia il mondo al rovescio» é título do concerto de Antonio
Vivaldi com número de catálogo RV 544. Traduz-se, em português, como
«Proteu, ou o mundo às avessas», o que nos leva a perguntar acerca da sua
relação com a partitura. Fica-se então a saber que o seu propósito é
diferente ao do título «As quatro estações», datado da mesma época. É
bastante mais subtil do que a ilustração dos fenómenos da Natureza.
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Em meados da década
de 1720, o Cardeal Pietro Ottoboni encomendou um vasto conjunto de
partituras a Antonio Vivaldi. Também nascido em Veneza, Ottoboni passou a
maior parte da vida em Roma, onde foi mecenas de músicos como Corelli, A.
Scarlatti, Händel, e muitos outros. Vivaldi publicara recentemente Il
cimento dell’armonia e dell’invenzione, uma outra coleção que
incluía As Quatro Estações e da qual recuperou então algumas peças, para
lá da ideia de utilizar títulos sugestivos. O novo caderno, com dezenas
de concertos e sonatas para violino, terá sido entregue em Roma em 1726.
Abria com o concerto «Il Proteo ò sia il mondo al rovescio» (RV 572), uma
transcrição para orquestra de sopros e cordas de um concerto
originalmente escrito para violino, violoncelo e orquestra de cordas (RV
544).
A estrutura geral
deste concerto consiste num típico duplo concerto – ou seja, com
dois solistas. O primeiro e último andamentos intervalam cinco
Ritornellos com quatro passagens solísticas. O andamento central, lento,
divide-se em cinco secções e assemelha-se a uma sonata em trio, com duas
partes melódicas e baixo contínuo. O título sugere a ilustração de um
mundo virado do avesso, metáfora que era muito popular na época. Evoca
Proteu, divindade da mitologia grega que tinha o dom da profecia e o
poder de transformar a sua aparência, a fim de evitar aqueles que queriam
saber do futuro. Só os que conseguissem superar o medo provocado pelas
suas formas monstruosas obteriam resposta. Com sentido de humor, é neste
papel que o compositor coloca o ouvinte. Acrescentou no manuscrito
instruções que ofereciam possibilidades algo acrobáticas aos solistas. Em
concreto, o violino e o violoncelo podem trocar entre si as respetivas
pautas, provocando uma situação inusitada, e manifestamente lúdica. É a
esta inversão de papéis que o título faz referência. Não sabendo de tal,
o efeito poderá não ser percebido pelo ouvinte, que assim se limita a
notar uma vaga estranheza. Deste modo, resulta num jogo musical que
diverte sobretudo os intérpretes, que têm margem de liberdade para
acordar entre si o que fazer em cada momento.
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