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[Museum] Ainda a propósito do valor patrimonial da Gestualidade e da sua relação com as Migrações humanas

Subject :   [Museum] Ainda a propósito do valor patrimonial da Gestualidade e da sua relação com as Migrações humanas
From :   Pedro Pereira <pedropereiraoffic@outlook.com>
Date :   Mon, 14 May 2018 19:26:42 +0000

 

Ainda a propósito do valor patrimonial da Gestualidade:

 

Uma Colega perguntou sobre o alcance patrimonial daquele Objeto («o modo humano de caminhar», e o limite médio dos «200 milhões de passos disponíveis em cada Vida») que foi incorporado no acervo do Museu da Gestualidade, e que derivou do contributo de Dina Katabi (2018, MIT).

Para se compreender o valor patrimonial da gestualidade humana ligada ao caminhar é necessário relacioná-la os processos de orientação, com o modo como se fizeram as Migrações humanas, e até com as obras humanas expressas em património edificado ou em mapas e documentos cartográficos.

Não é possível desenvolver aqui toda a questão.

Era necessário começar na descoberta de Jonh O´Keefe em 1971; depois com aquilo que Eric Kandel lhe acrescentou em 1999; a seguir com a descrição bioquímica que May-Britt Moser e Edvard Moser fizeram em 2014; e finalmente com o contributo de Andrea Banino, Caswell Barry e Dharshan Kumaran em 2018 [De notar que os quatro primeiros autores são todos prémio Nobel de Medicina e Fisiologia].

Ou seja, o «ir de um lugar para outro, e saber orientar-se no espaço» é um processo codificado nas células piramidais do hipocampo (designadas “células-de-lugar” ou “células-de-posicionamento”). O processo de representação do Espaço no hipocampo não é topográfico. Isto é, há um mapa do espaço interno (no interior do cérebro, no hipocampo) que não é uma cópia do espaço exterior, daquele que o indivíduo percepciona (visualiza e sensorializa). É um mapa diferente, com uma forma diferente, e codificado de modo diferente. É através desse mapa interior que o indivíduo se orienta no espaço, e procura o caminho entre locais.

Ora este facto é muito relevante. Porque, perante a necessidade de definição da localização e da direção, o Ser-humano recorre a esse mapa interno, que sobrepõe a todas as topografias que encontra. Por exemplo, as Migrações humanas até ao momento fizeram-se num plano bidimensional. Mas as idas à Lua ou a Marte já se fazem num plano tridimensional. As Migrações futuras usarão essa exploração tridimensional. É o mapa interno que permite essa continuidade, apesar da topografia mudar.

Por outro lado, ao olhamos para o modo como foram construídas as ruas de New York, ou as da Baixa Pombalina, ou as cidades neolíticas, vemos a expressão desse mapa interno. Ou seja, vemos uma nítida correlação com a forma desse mapa interno codificado. É impossível ignorar a relação dessa exteriorização com esse processo interno de orientação e localização.

Assim sendo, o Património Edificado ganha um significado muito para além da arquitectura, das iconologias, da simbologia maçónica, ou de interpretações apenas circunscritas ao arbítrio cultural e à fantasia de uma pretensa liberdade humana. O modo de «ir de um sítio para outro» está codificado no ADN (no funcionamento da rede neuronal).

 

“O hipocampo de um ratinho tem cerca de um milhão de células piramidais. Cada uma destas células pode codificar as características do ambiente e a relação entre essas características. Uma das características que codificam de forma eficaz é o «lugar». Além disso, o disparo de células-de-lugar pode persistir após a remoção de pistas sensoriais pertinentes e mesmo às escuras. Deste modo, embora a atividade de uma célula-de-lugar possa ser modulada pelos contributos sensoriais, não é dominada pelo contributo sensorial, como acontece com a atividade neuronal de um sistema sensorial.” (SQUIRE, L.R, KANDEL, Eric R. (1999/2002) “Memória: da mente às moléculas”, cap. 6: “Um mecanismo de armazenamento sináptico para a memória declarativa”, Scientific American Library/Porto Editora, pp. 132)

 

“Os processos pelos quais os indivíduos chegam a determinados resultados de localização/posicionamento no Espaço não são inteiramente observáveis, mesmo por quem as cria (….) Tudo o que pensamos, recordamos, e sentimos está, de alguma forma, codificado nos nossos cérebros” (Andrea BANINO et alli, 2018, “Vector-based navigation using grid-like representations in artificial agents”, Nature)

 

 

 

O Património, cada vez mais, tal como venho demonstrando desde 2004, não pode ser desligado do fenómeno da Vida; concretamente, de uma “estrutura do valor patrimonial” ou “estrutura da relevância” codificada nos tijolos da Vida (moléculas e células), que remonta à estratégia Eucariote. O Património não começou na Revolução Francesa, ou na etimologia e nos mitos da Hélade. É um assunto muito mais antigo, e intrínseco à Vida. Portanto, ao contrário do que se faz agora, um assunto que não pode ser adjetivado de “Cultural” para marcar a separação com a sua parte “Material, Natural, e Biológica” (para construir essa oposição ideológica). É essa a maior lacuna no processo de ensino e formação do Património nas universidades e nos curriculae atuais.

«Ir de um lugar para outro», «ficar com a lembrança de um lugar ou de um objeto na memória», ou reter a experiência de um “lugar social emblemático”, é muito mais do que uma decisão cultural inventada por uma inspiração totalmente humana.

O Património é muito mais do que isso. Essa redução é uma falácia e uma insuficiência analítica que contribui para menorizar o estudo científico do Património.

 

Pedro Manuel-Cardoso

 





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