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Ainda a propósito do valor patrimonial da Gestualidade:
Uma Colega perguntou sobre o alcance patrimonial daquele Objeto («o modo humano de caminhar», e o limite médio dos «200 milhões de passos disponíveis em cada Vida») que foi incorporado no acervo do Museu da Gestualidade, e que derivou do contributo
de Dina Katabi (2018, MIT).
Para se compreender o valor patrimonial da gestualidade humana ligada ao caminhar é necessário relacioná-la os processos de orientação, com o modo como se fizeram as Migrações humanas, e até com as obras humanas expressas em património edificado ou em mapas
e documentos cartográficos.
Não é possível desenvolver aqui toda a questão.
Era necessário começar na descoberta de Jonh O´Keefe em 1971; depois com aquilo que Eric Kandel lhe acrescentou em 1999; a seguir com a descrição bioquímica que May-Britt Moser e Edvard Moser fizeram em 2014; e finalmente com o contributo de Andrea Banino,
Caswell Barry e Dharshan Kumaran em 2018 [De notar que os quatro primeiros autores são todos prémio Nobel de Medicina e Fisiologia].
Ou seja, o «ir de um lugar para outro, e saber orientar-se no espaço» é um processo codificado nas células piramidais do hipocampo (designadas “células-de-lugar” ou “células-de-posicionamento”). O processo de
representação do Espaço no hipocampo não é topográfico. Isto é, há um mapa do espaço interno (no interior do cérebro, no hipocampo) que
não é uma cópia do espaço exterior, daquele que o indivíduo percepciona (visualiza e sensorializa). É um mapa diferente, com uma forma diferente, e codificado de modo diferente. É através desse
mapa interior que o indivíduo se orienta no espaço, e procura o caminho entre locais.
Ora este facto é muito relevante. Porque, perante a necessidade de definição da localização e da direção, o Ser-humano recorre a esse mapa interno, que sobrepõe a todas as topografias que encontra. Por exemplo, as Migrações humanas até ao momento fizeram-se
num plano bidimensional. Mas as idas à Lua ou a Marte já se fazem num plano tridimensional. As Migrações futuras usarão essa exploração tridimensional. É o mapa interno que permite essa continuidade, apesar da topografia mudar.
Por outro lado, ao olhamos para o modo como foram construídas as ruas de New York, ou as da Baixa Pombalina, ou as cidades neolíticas, vemos a expressão desse mapa interno. Ou seja, vemos uma nítida correlação com a forma desse
mapa interno codificado. É impossível ignorar a relação dessa exteriorização com esse processo interno de orientação e localização.
Assim sendo, o Património Edificado ganha um significado muito para além da arquitectura, das iconologias, da simbologia maçónica, ou de interpretações apenas circunscritas ao arbítrio cultural e à fantasia de uma pretensa liberdade humana. O modo de «ir de
um sítio para outro» está codificado no ADN (no funcionamento da rede neuronal).
«Ir de um lugar para outro», «ficar com a lembrança de um lugar ou de um objeto na memória», ou reter a experiência de um “lugar social emblemático”, é muito mais do que uma decisão cultural inventada por uma
inspiração totalmente humana.
O Património é muito mais do que isso. Essa redução é uma falácia e uma insuficiência analítica que contribui para menorizar o estudo científico do Património.
Pedro Manuel-Cardoso |
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