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A atribuição dos prémios
Fields (matemática) são sempre um importante acontecimento para o Património (e para a Patrimologia, enquanto ciência que o estuda e gere). Este ano (2018) não foi excepção. Importante, porque esses prémios
Fields permitem atualizar o conceito de Real e de Objeto, logo, aquilo que constitui a substância/coisalidade/materialidade de que é «feito» o Património.
Em termos lógicos e dedutivos, permitem clarificar
a fronteira que separa a Ficção (narrativa) da Realidade (coisa/objeto), ou, com mais rigor «a ficção que a realidade e o objeto são» para a mentalidade e ideologia de cada época. E essa clarificação é essencial para se saber de que Património
«se está a falar», «a gerir», e a «escolher/selecionar/classificar-desclassificar» em cada
Política Patrimonial. Sem essa clarificação, a intencionalidade e a definição dos objetivos em
Gestão do Património (planos e orçamentos) tornam-se actos inconsistentes, relativistas, arbitrários e fenomenológicos. Quase sempre um pretexto para mediatizar «quem fala», «quem dirige/tutela», ou «manipular politicamente assuntos sociais», em vez
de se falar e trabalhar em Património.
Neste ano, dos quatro prémios atribuídos, merece destaque (nessa relação entre a matemática e o Património) o contributo de
Peter Sholze. A tentativa de unificar a aritmética (número) e a geometria (forma/espaço) é, afinal, a tentativa de unificar o
Ponto e a Coisa. Ou seja, a tentativa de Compreender (numeralizar, localizar e codificar) como a
Coisa (objeto) e o Espaço/Forma são uma única Realidade, em vez de duas diferentes. Este contributo remete para o conteúdo de várias mensagens que apresentámos aqui na
Lista Museum, por exemplo, a proposta que fizemos na Mensagem nº 18592 de 21abril2018, e pelo Modelo aí proposto:
A presunção de que, por sabermos que o «Património é a escolha da Relevância a transmitir às gerações seguintes», sabemos automaticamente aquilo que a Relevância
e o Objeto são, é um erro. Até, uma ingenuidade.
No dia 31Julho2018, na reunião e debate que o
Impronuncialismo promoveu a pretexto dos «Olhares sobre a Livraria do Convento da Arrábida» (exposição no Museu da Fundação Oriente), e no contexto do tema «Transdisciplinaridade», foi debatido
o processo pelo qual a «realidade dita Física» (isto é, os electrões que giram à volta do protão/neutrão no núcleo do «átomo», e as partículas de escala menor que interferem com esse «objeto») se transforma em «realidade dita Vida, ou
química e biológica» (isto é, se transforma num agregado de átomos e de moléculas). Isto é,
o processo como as órbitas dos electrões permitem que os núcleos dos átomos se agreguem e, desse modo, formem a Matéria (qualquer que ela seja, e qualquer que seja o nome que lhe atribuamos na Linguagem). É assim, também, que é criada a materialidade/coisalidade
daquilo que designamos por Objeto Patrimonial.
É aqui, na compreensão e descrição deste
processo (desta Transdisciplinaridade) que a Matemática (e o referido contributo de Peter Sholze) serve de mediador imprescindível. E que permite estudar e investigar a coisalidade do Objeto Patrimonial e a respetiva Relevância.
A Relevância do Património não se compadece com o erro e a ingenuidade dos raciocínios (e da ideologia) que julgavam que eram
Objetos Diferentes por estarem em estados diferentes (sólido, líquido, gasoso, plasma), em
escalas diferentes (material, imaterial, digital, informação-bit), ou em
níveis de organização diferentes (física, química, biológica, social, cultural-simbólica). Esse conceito de Objeto e de Património
morreu. Porém, ainda estão bem vivos os que perfilham e vivem nesse mundo antigo.
Um exemplo, ilustra bem essa inércia e ingenuidade; mas também permite perceber as lacunas nos conceitos de Património e Museus (por exemplo, do ICOM/ICOFOM ou do MINOM):
… Há dias, um especialista, afirmou que (passo a citar) «80% dos Museus estão vazios» (Miguel Falomir Faus, diretor do Museu do Prado, entrevista em «La Vanguardia», 10/07/2018). Ora,
afirmar que os museus estão vazios é não Compreender, de todo, o que é um Museu e o que é o
Património. Mas também é a prova de que o que escrevi nesta Mensagem é
necessário (inclusive para os critérios que definem uma Política Patrimonial de um país ou Cultura).
Pedro Manuel-Cardoso
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