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Lamento profundamente que a decisão tenha sido a extinção do IBRAM. Todas as mudanças podem ser feitas a partir do que está feito. Quando se afirmam pela destruição do que as antecedeu, então, quase sempre, não são verdadeiras
mudanças. Se há domínio humano onde essa lição melhor se aprende, é no Património.
Este lamento tem muito de pessoal. Porque conheço algumas Pessoas que subscrevem a Mensagem n.º 19193, de 11 de setembro 2018, designada «Nota sobre a medida provisória que extingue o Instituto
Brasileiro de Museus (Ibram) e cria a Agência Brasileira de Museus (Abram)». Sei quanto esforço, seriedade e competência puseram nesse trabalho gigantesco de construírem um edifício para a museologia e património no
Brasil. E quantas centenas de alunxs formaram aqui, na Universidade Lusófona; e lá no Brasil em várias outras, as mais reputadas. Um imenso trabalho que deve orgulhar a museologia portuguesa, e que não têm sido devidamente valorizado.
Para elxs envio uma mensagem de ânimo e de solidariedade.
Porém, à parte dessa consideração pessoal, há algo mais a acrescentar. Que não é tão agradável. Mas que esta trágica ruptura torna o momento certo para referir.
Quando na Ciência se mistura a Política, e na Intervenção Social as opções ideológicas, o resultado é quase sempre uma sucessão de rupturas violentas, que se sucedem ao ritmo das alterações político-partidárias das conjunturas.
O pior que pode acontecer ao Património é transformar-se numa disputa ideológica de facções contrárias e antagónicas. Quem conhece a História do Património, passada e recente, sabe quão trágicas foram essas destruições e incêndios à conta dessas antinomias.
A única forma de evitar esse descalabro é fortalecer cientificamente os alicerces da casa. Para que, quando vierem as tormentas, a casa resistir. E aqui, neste aspecto, na minha opinião, houve algo que podia ter sido feito de
diferente por parte do MINOM. E que poderá ainda ser feito no futuro, para que a casa não se desmorone por completo.
Houve um momento em que o MINOM (concretamente, a sustentação do seu edifício teórico, científico e metodológico) podia ter ido por outro caminho. Em vez de se refugiar nos contributos relevantes antigos que o edificaram, podia
ter escolhido um novo caminho. Houve, em 2010, esse outro caminho disponível. Um caminho de transformação e reconceptualização, que não foi a opção tomada. Refiro-me concretamente, a poder ter-se transformado naquilo que designei por «Patrimologia».
Se o tivesse feito, muito dificilmente a extinção do IBRAM seria agora conotada com um «acto político de extinção de uma certa ideologia», e bandeira de uma disputa eleitoral fratricida entre culpados e inocentes, maus e bons,
Nós e os Outros. É tempo de ultrapassarmos essa estúpida «estrutura opositiva isomorficamente binária e dicotómica» que está programada no automatismo genético dos
sapiens sapiens, a qual tem sido o mais trágico impasse para o Viver Humano em Sociedade.
Melhores tempos virão, se, entretanto, não morrermos todos a lutar uns com os outros. Os exercícios militares em larga escala, a Ocidente e a Oriente, não auguram nada de bom. Haja discernimento, em vez de barbárie. Destruir é
fácil.
Pedro Manuel-Cardoso
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