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Re: [Museum] Imersividade e Pós-Imersividade: Passados quase vinte anos, o que aconteceu ao Património dos «Objetos Sensíveis» nos Museus?

To :   "'Pedro Pereira'" <pedropereiraoffic@outlook.com>, <museum@ci.uc.pt>
Subject :   Re: [Museum] Imersividade e Pós-Imersividade: Passados quase vinte anos, o que aconteceu ao Património dos «Objetos Sensíveis» nos Museus?
From :   "Isabel Luna" <misabel.luna@gmail.com>
Date :   Tue, 30 Oct 2018 22:55:06 -0000

Caro Pedro Pereira,

 

 

Uma excelente análise, sobre um assunto que também tem ocupado as minhas reflexões, e que subscrevo inteiramente.

Obrigado por a ter partilhado, num texto tão claro.

 

Cumprimentos,

Isabel Luna

 

De: museum-bounces@ci.uc.pt <museum-bounces@ci.uc.pt> Em nome de Pedro Pereira
Enviada: 29 de outubro de 2018 23:07
Para: museum@ci.uc.pt
Assunto: [Museum] Imersividade e Pós-Imersividade: Passados quase vinte anos, o que aconteceu ao Património dos «Objetos Sensíveis» nos Museus?

 

 

Anthropologists of the senses have long argued that cultures differ in their sensory registers. This groundbreaking volume applies this idea to material culture and the social practices that endow objects with meanings in both colonial and postcolonial relationships. It challenges the privileged position of the sense of vision in the analysis of material culture. Contributors argue that vision can only be understood in relation to the other senses. In this they present another challenge to the assumed western five-sense model, and show how our understanding of material culture in both historical and contemporary contexts might be reconfigured if we consider the role of smell, taste, touch and sound, as well as sight, in making meanings about objects (Elizabeth Edwards, Chris Gosden e Ruth B. Phillips, 2006, “SENSIBLE OBJECTS: Colonialism, Museums and Material Culture”)

 

Hoje, não há projeto museológico, centro de interpretação, ou narrativa sobre o Património que não fale em «Imersividade». A «experiência imersiva» transformou-se num ícone dos atuais discursos sobre os museus.

 

Os recentes avanços tecnológicos (IA, nanotecnologia, robótica molecular, cubits, syncells, etc.) ampliam as soluções de imersividade nos mais recentes museus.

 

Perante este estado-da-arte museológica [sobretudo por causa dessas soluções terem sido absorvidas pela indústria que as vende aos museus, em catálogos, como produtos «prontos-a-usar»] talvez fosse útil alguma precaução e análise.

 

Os Visitantes entram por esses túneis imersivos como se fosse «uma coisa nova». É essa evidência que os discursos museológicos lhes tentam vender. Porém, ao visitarmos alguns desses mais recentes projetos imersivos, não será legítimo perguntar se esse novo «aparelho e aparato da Evidência» traz, de facto, algum avanço na compreensão e na percepção do Património? Julgo haver alguma ilusão (já para não falar da questão do negócio) no benefício deste tipo de «experiência imersiva à la carte». Até uma certa contradição e retrocesso relativamente à transição que se estava a operar entre a tradicional Museologia da Memória e uma emergente Museologia da Compreensão.

 

De um modo muito sintético e curto, talvez valha a pena relembrar o volume da Symposium Series (Berg) que a Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research publicou em 2006, sob o título “SENSIBLE OBJECTS: Colonialism, Museums and Material Culture”. Na Parte 3, dedicada aos Museus, concretamente os artigos: i) “The Museum as Sensescape: Western Sensibilities and Indigenous Artifacts” (Constance Classen e David Howes); ii) “The Fate of the Senses in Ethnographic Modernity: The Margaret Mead Peoples of the Pacific Hall at the American Museum of Natural History” (Diane Losche); “Contact Points: Museums and the Lost Body Problem” (Jeffrey Feldman); “The Beauty of Letting Go: Fragmentary Museums and Archaeologies of Archive” (Sven Ouzman).

 

Dez anos antes, em 1996, Fernando Gil no “Tratado da Evidência” (IN-CM, Lisboa) criticava esse sistema sensorial e perceptual imediatista, ao apelidar o Modelo de James Gibson de “realismo ingénuo” [James Gibson, “The senses considered as perceptual systems”, 1966, H. Mifflin, Boston, p. 50; e “The ecological approach to visual perception”, 1979, H. Mifflin, Boston]. Fazia a mesma pergunta que David Marr tinha feito acerca desse imediatismo da experiência mediada pelos sentidos: “Como se pode apreender formas estáveis quando na sensação não é nada fixo?” (F. Gil, 1996, p.61). Concluindo que “a linguagem fixa os parâmetros da Experiência, é ela que estrutura a Evidência” (p.55), Isto é, que a linguagem e a percepção são inseparáveis da Experiência.

 

A «Imersividade» por mais geringonças tecnológicas que lhe queiram fazer jamais deixará de ser uma experiência mediada pela cognição e pela linguagem. E cada Museu e cada Objeto são singularidades demasiado particulares (“Sensíveis”) para abdicarem de um percurso e de uma história pronunciada pelas palavras e pelas imagens da sua materialidade, em favor de um regresso à ingenuidade sensorial por mais atrativa que ela seja em termos de negócio e mediatismo.

 

Se esse for o caminho, então, não se avançará nada na compreensão e usufruto humano do Património nos museus.

 

Pedro Manuel-Cardoso

 

 







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