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Re: [Museum] Imersividade e Pós-Imersividade: Passados quase vinte anos, o que aconteceu ao Património dos «Objetos Sensíveis» nos Museus?

Subject :   Re: [Museum] Imersividade e Pós-Imersividade: Passados quase vinte anos, o que aconteceu ao Património dos «Objetos Sensíveis» nos Museus?
From :   Pedro Pereira <pedropereiraoffic@outlook.com>
Date :   Fri, 2 Nov 2018 10:47:04 +0000

 

Cara Isabel Victor, e Pedro Serra, obrigado pelas palavras.

Permitam que acrescente o seguinte.

A questão complica-se mais porque a mutação do nosso corpo está a ocorrer a uma velocidade desenfreada (Crisp/iCas, manipulação genética, implantes biónicos, exoesqueletos, projeto Re-Anima, syncells, etc.). Foi por isso que fiz a Conferência na Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia/SPAE com o título “O Corpo em Mutação” (dez2016). Tentando mostrar as implicações que essa mutação tem na «condição humana».

No Museu Omnipresente, a comunicação faz-se de dentro para fora e de fora para dentro, a qualquer distância, e em qualquer lugar onde esteja o Visitante que quer nele intervir. O futuro próximo vai ser cada mais assim, por causa das tecnologias de comunicação e dos suportes quânticos de memória. Porque as propriedades físicas de intrincação (ubiquidade) e de superposição (simultaneidade de escalas de informação) serão inevitáveis no processo de comunicar o Património. Atualmente estão a ser exploradas por milhares de engenheiros em centenas de laboratórios pelo mundo fora.

Se olharmos para o funcionamento comunicativo e para as expografias da maior parte dos museus vemos um processo e um modo que em breve será substituído. A «iniciativa privada» explora essa lacuna que ocorre atualmente nos «museus sob a alçada do Estado». Usando-a para fins que nem sempre acautelam o valor patrimonial.

Infelizmente assistimos à inércia das estruturas e organismos estatais. Porque as pessoas sabem que têm empregos fixos até ao fim da vida, e estão protegidas por uma estrutura de relações que não mudou nos últimos 30 anos (o tal núcleo duro inamovível). Não se sentem motivadas para mudar, preferem esse conforto burocrático. Não possuem o gosto e o prazer pelo desafio de acompanharem os tempos, e o que está a acontecer nos países mais desenvolvidos. Basta olhar para as atuais dificuldades em recursos humanos, técnicos e orçamentais; que foram o acumular dessa falta de dinamismo e de visão.

O «mediador» (o corpo) está a ser transformado, e as consequências nas expografias e nos espaços dos museus vão ser afectados.

Não vejo cá em Portugal muitas pessoas preocupadas com um facto que é simultaneamente um desafio muito interessante, e uma necessidade para melhorar o processo de comunicar o Património. Noutros países isso é motivo de entusiasmo, e de cumplicidade com o poder político que decide as políticas museológicas e patrimoniais.

Na mensagem anterior insurgi-me com a destruição do património pela arquitectura. A realidade é bem pior.

Ora esta questão também entronca aí. Porque quando se elege a «arquitectura» (edifícios, infraestruturas) como “o património principal”, quando se impõe essa hierarquia, perdem-se o património dos «usos» e o «valor patrimonial dos objetos e coleções». Os exemplos da Joalharia Correia, da Casa Frazão, do mono do Rato, do museu judaico em Alfama, da Praça da Alegria, do paredão que querem construir que destrói a paisagem do estuário do Tejo a pretexto da filantropia da Fundação Champalimaud, ou do Bairro de Alvalade (infelizmente os casos em tribunal infelizmente são tantos), etc., são paradigmáticos desse erro. Que é causado por essa imposição hierárquica da arquitectura sobre o restante património.

Se se olhar para o património da Joalharia Correia como sendo o edifício, se se olhar para o bairro de Alvalade como sendo os edifícios, então, perde-se toda a transformação que lhes foi feita ao longo dos anos pelas Pessoas (pela «condição humana»). É todo esse Património dos «usos» que morre em detrimento da arquitectura. É esse crime lesa-Património que é cometido.

Se se olhar para o edifício da Joalharia Correia ou da Casa Frazão deixa-se de ver o Património da joalharia, dos tecidos, dos modos de convivência, das histórias da sociabilidade de Lisboa, da colecção de objetos e instrumentos utilizados nesse usos e comportamentos humanos, etc., etc.

O que querem é vender são os edifícios, querem fazer negócios imobiliários sem terem de se preocupar com as lojas histórias e com o Património dos Usos e dos Objetos. É por isso que apagam da Memória Colectiva esses escolhos. E têm lá pessoas que fazem esse serviço.

São os arquitectxs que decidem. Basta-lhes perguntar à DGPC se aquele edifício pode ser deitado abaixo, ou totalmente remodelado deixando as fachadas. Tudo o resto é destruído. Uma vergonha que devia envergonhar as atuais políticas públicas de património.

A «condição humana» que transformou a infraestrutura num uso peculiar, e lhe deu o valor patrimonial (não estava no edificado, nem nunca esteve) desaparece perante esta ignóbil hierarquia.

Razão pela qual, no Modelo que enviei em Anexo, se vê o modo como a Patrimologia (museologia) define os espaços da exposição permanente num acto técnico e científico que não tem nada a ver com os conhecimentos em arquitetura ou design, mas outrossim com aquilo que especifica o saber museológico (patrimológico). Separando as variáveis e as descontinuidades que estão sempre presentes quando se patrimoniza qualquer coisa em que a «condição humana» intervém.

 

 

OBJETO

(coisas, coleções)

SUPORTE

CORPO

INFRAESTRUTURA

(edifícios, etc.)

 

 

 

 

 

→

 

COGNIÇÃO

 

 

 

 

(Intenção, Escolha, Decisão)

 

 

 

→

 

USO

 

 

 

 

(Comportamento, Transformação, Adaptação)

 

 

 

→

 

ÉTICA

 

 

 

 

(Regulação, Integração social)

 

 

 

→

 

VALOR

 

 

 

 

(atribuição de Valor, Finalidade, Sentido, Relevância)

 

Património

 

 

 

Pedro Manuel-Cardoso

 

 


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