|
O OBJETO em Património: os limites da Evidência humana
A Gestão do Património (“ciências do Património”,
Museologia, ou a Patrimologia, como prefiro dizer) baseiam o seu discurso naquilo que designam por
OBJETO (peça, coleção, documento, imagem, facto, história, ideia, bem cultural, testemunho, etc.).
Mas o que é afinal, e no concreto, esse dito OBJETO?
A consciência daquilo que é a Evidência tem no
OBJETO o seu melhor retrato. O OBJETO oferece a consciência dos atuais limites da Evidência humana. O exercício da descrição empírica do que é efetivamente um
OBJETO talvez seja útil discutir e partilhar.
Tente-se descrever objetivamente o
Ciclo da Vida e da Singularidade de um OBJETO.
Essa tentativa conduz inevitavelmente a uma Equação com quatro variáveis:
1.[OBJETO®USO®VALOR]
2.[COISA/NOME®HISTÓRIA/NARRATIVA®CONTEXTO/AMBIENTE]
3.[CONSTRUÇÃO®CORRUPÇÃO®ANIQUILAMENTO]
4.[MEMÓRIA®CODIFICAÇÃO®RE-OBJETO/RE-INÍCIO].
Ou dito por outras palavras:
1. Um «Objeto» sofre um determinado «Uso» que lhe confere um determinado «Valor» (significado, relevância).
2. A esse «Objeto» indiferenciado existente na natureza/mundo é-lhe dado um «Nome», passando a adquirir uma «Identidade»
(“nasce” em termos sociais e humanos; adquire o seu estatuto de “diferença” em relação aos outros); depois, sofre um «uso» (um conjunto de episódios e peripécias conceptuais e práticas) ao qual a sociedade chama «História ou Narrativa»;
as quais estão aprisionadas a um Contexto/Ambiente chamado «paradigma, ideologia,
época, conceito, teoria, etc.».
3. Deste modo, este processo pelo qual um «Objeto» passa até o seu entendimento estar saturado/finalizado, e até ser codificado em Memória, inclui:
i) a fase de «Construção» (aparecimento, génese); ii) a
fase da sua «Corrupção» (devido ao «uso» que lhe foi dado por um Contexto/Ambiente/Ideologia/Concepção); iii) e a
fase de «Aniquilamento» (deixa de ser usado, eventualmente é
esquecido), após a qual se tenta preservar e transmitir aos vindouros a Memória daquilo que o «Objeto» foi e sofreu.
4. Este processo provoca uma nova reconceptualização do
Objeto inicial (re-Objeto) e uma transformação (re-Naturalização). A um
nível de conhecimento seguir-se-á outro, e assim sucessivamente. A gestão do Património permite reiniciar um
novo ciclo de complexidade, mas agora cumulativo, porque não se perdem os contributos anteriores independentemente de quem os possui ou criou (inclusive podem estar fora do seu corpo, num suporte de acesso diferente e distante). Não morrem com a morte
do Contexto (individual ou social; ambiental ou conceptual) onde foi gerado.
A formulação deste «ciclo da vida e singularidade de um Objeto» torna transitório e conjuntural
o conceito de “singularidade” em matemática e física, a “coisalidade da coisa”
de Heidegger, a “ex-posição” de Agamben, a “evidência”
de F. Gil, as “semelhanças de família” de Wittgenstein; e interfere com a “crítica
da Fenomenologia ao Positivismo”, etc.). Afeta o
conceito de Real e oferece a consciência dos
limites do Conhecimento (ver L. Wittgenstein, o teorema da indecidibilidade de Kurt Gödel, e a equação de Thomas Bayes/Laplace). Retira o caracter
absoluto, definitivo e universal a todas essas definições.
Talvez o melhor exemplo deste processo sejam as mudanças ocorridas no
Sistema de Unidades de Medida Legais (Sistema Internacional de Unidades/SI) definidos pelas sucessivas Conferências Gerais de Pesos e Medidas. Em Portugal remontam à Lei de Almeirim de 26 janeiro 1575, sucessivamente modificadas pelos: Decreto de 13
dezembro 1852, Lei de 19 abril 1876, Lei n.º 1850 de 5 março 1926, Decreto-Lei 427/83 de 7 dezembro, Decreto-Lei 320/84 de 1 outubro, Decretos-Lei 222/88 e 223/88 de 28 junho, e Decreto-Lei 238/94 de 19 setembro. A mudança nas Unidades de Base (comprimento,
massa, tempo, intensidade de corrente elétrica, temperatura termodinâmica, quantidade de matéria, e intensidade luminosa) refletem com nitidez a reconceptualização do conceito de Objeto e de Real. Em 16 de novembro 2018, na
26.ª Conferência Geral de Pesos e Medidas realizada em Versalhes (França), os 60 Estados membros votaram a redefinição da
Unidade de Medida do Quilograma que passará a ser calculado com base na “constante de Planck” em vez do cilindro de platina e irídio guardado em Saint-Cloud (Paris) na cave da sede do Comité Internacional de Pesos e Medidas. Em Portugal, e de
acordo com o atual Sistema Internacional de Unidades (SI), o Tempo passou a ser calculado com base na “duração de 9192631770 períodos da radiação correspondente à transição entre os dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de
césio 133”. E o Comprimento passou a ser calculado com base no metro, concebido como “o comprimento do trajeto percorrido no vazio pela luz durante 1/299792458 s.” (Decreto-Lei n.º 238/94, de 19 setembro, Anexo, alínea 1.1).
No cérebro a informação de um
Objeto vai da retina ocular ao tálamo; segue até ao córtex visual; e bifurca por dois circuitos: i) até ao
córtex parietal (circuito dorsal), ii) e até ao córtex temporal inferior (circuito ventral). A «representação de um Objeto no cérebro» passa por diferentes níveis de processamento que incluem a análise de atributos como: orientação, cor,
contraste, disparidade, movimento, silhueta, forma, textura, localização no espaço tridimensional. A estes atributos é associado um
valor emocional que funciona como marcador da sua Relevância. A infraestrutura metabólica desse processamento cerebral ocorre a uma “velocidade de aproximadamente 150 metros por segundo (impulso elétrico entre neurónios), entre 86 mil
milhões de neurónios, em 100 biliões (1014) de sinapses, com um potencial de 1 trilião (1018) de cálculos por segundo” (“Cérebro”, 15/março/2019, ISBN: 978-989-8807-40-3, F.C.Gulbenkian, Lisboa, pp. 9 e 28). A «representação
de um Objeto/Real» é o resultado deste processamento feito por este cérebro humano. Porém, o «Objeto» não é a sua «Representação» [tal como “o nome não é a coisa nomeada”, G. Bateson].
Assim sendo, são legítimas as seguintes interrogações: i) Porque o ser-humano é incapaz de aceder ao
verdadeiro Objeto? ii) Porque, para um ser-humano, um «Objeto» é sempre a «Representação do Objeto»?
A plurissignificação e a polissemia dos
Objetos (diferentes significados e interpretações para um mesmo Objeto) derivam desta descontinuidade (ver Pedro Manuel-Cardoso, 2011, “A Cultura perante o Património”, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa). Uma turbulência semântica
que exige à Gestão do Património um trabalho de rigor e discernimento para que o valor e a relevância do
Objeto sejam transmitidos corretamente aos presentes e vindouros. Assim sendo, em termos da
Gestão do Património, a definição de «OBJETO» é: “tudo o que a percepção-cognição detete como uma Diferença que possua um significado/especificidade/importância/valor considerado Relevante para a Continuidade (do Ser-humano, ou do «sistema-Vida
perpetrado atualmente por aquilo que se designa por Humano)»”. Esta limitação do sistema humano de cognição-percepção provoca uma Evidência aprisionada nesse limite (vê o Mundo como sendo constituído por Objetos/Partes/Partículas).
O cérebro permite o acesso e a recuperação da
Memória através de três modos distintos, os quais possuem localizações específicas no hipocampo (para a fundamentação científica deste processo perceptivo-cognitivo consultar os trabalhos em biologia molecular da cognição de E. Kandel, e outros):
i) Pela via de um OBJETO isolado.
ii) Pela via do Contexto (lugar, cenário, ambiente) onde o Objeto ocorreu, mas na ausência dele.
iii) Pela via da «relação do Contexto com os Objetos».
Ora, se não houvesse uma “Estrutura da Relevância codificada no cérebro, que herdamos sem consciência, e nos faz escolher o que é importante para a Continuidade” (Pedro Manuel-Cardoso, 2008) como seríamos
capazes de interrogar a Evidência e saber o que os OBJETOS são?
Pedro Manuel-Cardoso |
| Mensagem anterior por data: [Museum] Colóquio "Santos Rocha, Arqueologia e Territórios da Figueira da Foz " | Convite para apresentação de pósteres e comunicações | Próxima mensagem por data: [Museum] FINISSAGE: 21 JUN | CONVERSA | EXPOSIÇÃO "POSEIDON'S WAVE OF MUTILATION ", DE FABRIZIO MATOS |
| Mensagem anterior por assunto: [Museum] O OBJECTO EM PATRIMÓNIO | Próxima mensagem por assunto: [Museum] O Património contra o Desenvolvimento: o caso do Estádio Nacional. |