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[Museum] A Menina da Brasileira

Subject :   [Museum] A Menina da Brasileira
From :   Pedro Pereira <pedropereiraoffic@outlook.com>
Date :   Tue, 23 Jul 2019 21:42:34 +0000

 

Como habitual, antes da horda desenfreada de turistas assaltar (assassinar) a Brasileira, lá tomei o café. Naquele sítio do balcão onde se consegue ver uma nesga do Tejo.

 

A “Menina da Brasileira” (como a própria insiste em dizer) tinha regressado de um longo calvário de problemas de saúde, com origem na tiroide. Ficámos à conversa, apenas interrompida por outro habitual, que também lhe deu as boas-vindas. “Já somos dois”, dissemos.

 

São cinquenta e seis anos de Brasileira. O filho e o neto vão-lhe sucedendo, nos intervalos que as maleitas de saúde a impedem. Três gerações de olhares, de uma história de Lisboa que está prestes a perder-se. Um tesouro, ali, escondido na pressa quotidiana da troca de sorrisos e afetos.

 

Quantas cigarrilhas não fumei, no banco do largo de São Carlos, de costas para o Belcanto, compradas no seu quiosque, enquanto escrevia milhares de textos?

 

Hoje, 23 de julho de 2019, contou-me mais uma “história da Brasileira” (uma história de Lisboa);

 

 

Todos os dias um Senhor, que se sentava na mesa em frente ao seu balcão, recebia uma chamada de telefone, que ela fazia o favor de lhe passar (ainda não havia telemóveis, e a Menina da Brasileira nessa época vendia café, no lado oposto ao atual quiosque; nem havia o atual balcão corrido, era tudo cadeiras e mesas até ao fundo). O que a intrigava, nessa repetição diária de passar-lhe o telefone, era saber que o Senhor cantava ópera no São Carlos, não percebendo porque lhe telefonavam todos os dias, estando ali tão perto.

 

A Menina da Brasileira tinha por essa altura 17 anos. E teve que dar à luz o filho, sem cesariana, e a sangue frio, na Maternidade Alfredo da Costa. O filho nascera grande. Esvaía-se em sangue, e a enfermeira estava em pânico, sem saber como conter a situação. Teve a sensação de que era ali o seu fim.

 

De repente, abriu-se uma porta, e um médico abeirou-se dela. Na aflição, a Menina da Brasileira, não olhou para a sua cara. Mas ele reconhecera-a. Apenas ouviu uma voz forte ordenar: “O que se passa enfermeira? Porque a parturiente está nestas condições? Façam já uma transfusão de sangue!”.

 

Mais tarde, no recobro, a enfermeira perguntou: “Então a menina conhece o nosso Diretor? Sabe, ele salvou-lhe a vida”. “Não, não conheço”, retorquiu a Menina da Brasileira. Entretanto, o médico entrou…

 

Era aquele Senhor que todos os dias se sentava na mesa à frente do seu balcão da venda do café na Brasileira, aquele que recebia todos os dias um telefonema, e que ela, intrigada, fazia o favor de lhe passar o telefone.

 

Sim, era o cantor lírico Álvaro Malta. Aquele que contracenou em 1958 com Maria Callas no Teatro Nacional de S. Carlos. Que também era médico, e diretor na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa.

…

 

 

E tantas outras histórias.

 

Talvez alguém da DGPC pudesse recolher este Património.

 

Mas, por favor não cometam a ofensa de chamar-lhe Património Imaterial. Isso seria uma ignomínia que fariam às Pessoas, à Memória e ao Património.

 

Pedro Manuel-Cardoso

 





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