Está patente
até 23 de Fevereiro, no Museu do Oriente (Doca de Alcântara, Lisboa) a exposição
«O Caminho Chinês». 56 fotografias de Paolo Longo, jornalista, documentarista e
fotógrafo nascido em Itália e actualmente a residir em Portugal.
O autor fará, em inglês, uma conferência,
de entrada gratuita, a 17 de Janeiro, a partir das 18 horas. E é dele o seguinte
texto de apresentação da exposição:
Os
orientais antigos, e muitas vezes sensatos, diziam que existem três tipos de
viajantes.
Há os comerciantes, que viajam com os pés e são movidos pelos seus interesses,
há os sábios que viajam com os olhos e querem descobrir, conhecer, entender, e,
finalmente, há os que viajam com o coração. Estes viajam para descobrir os
homens e as mulheres das terras que visitam, as histórias das suas vidas, as
suas verdades.
A exposição “O Caminho Chinês”, é uma “viagem do
coração” na vida quotidiana do povo chinês na época do boom económico e
da grande transformação económica, social e cultural.
Quando cheguei à China, num gélido dia de janeiro de 2004, para começar a
trabalhar como correspondente da Rai, a televisão nacional italiana, tinha uma
imagem da transformação da China baseada nos grandes sinais económicos e
políticos. Um sexto da população do planeta passava pela maior experiência
política e económico-social da História. Comecei então a olhar mais
profundamente para o quadro completo e a descobrir não “o povo
chinês”, mas “os chineses”, e comecei a compreender o que
havia lido nas páginas de Lu Xun, um grande escritor chinês do século XX.
A esperança, escreveu Lu Xun, é como um trilho num campo. De início não existe
trilho, mas quando alguém começa a atravessar esse campo, lentamente começa a
formar-se um caminho.
Muitos caminhos têm sido abertos na China nos últimos anos.
Os jornalistas que trabalharam na China na década de 1960 falavam de como os
chineses eram todos iguais. Durante 30 anos, desde a vitória da revolução até à
morte de Mao, o país habituou-se a pensar em termos do coletivo, grupos de
trabalho, movimentos de massas. Eu vi uma China diferente, uma onde a história
da comunidade se dissolve numa infinidade de histórias individuais, de vitórias
e de derrotas, de riqueza e de pobreza, de descobertas, de batalhas, de
desperdício, de protestos, mas sempre histórias de indivíduos debatendo-se com
um novo caminho que se abria.
Ao fazer a seleção de fotografias eliminei tudo o que estava relacionado com a
“crónica” e tudo o que tinha o sabor do exótico, do “Extremo
e Misterioso Oriente”.
Cada fotografia torna-se, portanto, numa história que faz referência a outras
histórias ou que vive por si mesma.
Histórias de pessoas, histórias verídicas, imagens do quotidiano na China do
boom económico. A vida do dia a dia que à primeira vista pode parecer
enfadonha, mas que encerra a política, a história, a cultura, as emoções, os
desejos e os segredos de uma sociedade.
A sequência de imagens inicia com aquilo que resta da China comunista
(Nanjiecun, a última aldeia comunista) e o mito de Mao, transformado num ícone
sem cabeça ou numa personagem passível de ser imitada, como Elvis; continua
através das ruínas das cidades imperiais, pelas vielas de Pequim, pela mítica
cidade de Lijiang com os seus telhados de lousa; olha para a metrópole
futurista projetada no século XXI e para os seus habitantes, que recordam muito
pouco do passado e olham para o Ocidente para encontrar um caminho chinês para
a modernidade; mistura o passado e o presente nos jovens da nova classe média
que se disfarçam para serem fotografados como protagonistas da antiga ópera
chinesa, tal como fazem os camponeses de uma aldeia não muito longe de Pequim,
que seguem dos campos para a caraterização, e daí para o palco.
Paolo Longo