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[Museum] Poética da autonomia I –Distopia

To :   museum@ci.uc.pt
Subject :   [Museum] Poética da autonomia I –Distopia
From :   Pedro Leite <p4298@ulusofona.pt>
Date :   Thu, 23 Apr 2020 16:33:44 +0100

Perante O COVID19 a Crise da Cultura, em Portugal e na Europa,  apresenta-se extensa e complexa. No conjunto de postais que efetuamos, no âmbito dum diário imperfeito sobre a Crise do COVID 19 a que demos um nome genérico "Memória dum Tempo Perdido" demos conta da distopia que essa crise evidência. As instituições da cultura, enquanto lugares encontro encerraram. As pessoas ficaram, numa extensa maioria do sector privado e associativo  sem trabalho ou sem perspetivas de trabalho. O desemprego atinge de forma desigual o setor, sendo cada vez mais evidente das diferenças entre grupos, com uma cada vez maior exclusão de vozes ativas e criativas. 

Paradoxalmente o que se manteve, tendo mesmo sido reforçado, são os canais digitais. Apressadamente tudo se foi digitalizando, assumindo uma nova face "moderna". 

Para remediar os problemas do emprego, foram criadas linhas de financiamento, concursos e processos de intenções. 

Entre várias discussões, questionamos a forma como as atuais instituições da cultura, públicas, privadas ou associativas, estão a responder a esta distopia. E fomos mais longe. Questionamos se não seriam apenas as instituições que já não servem, como também o trabalho que nelas é feito também já não serve os fins sociais que essas organizações supostamente prosseguem. 

Será certo que as respostas que as instituiçõe estão a dar se inserem no âmbito dos fins para que elas foram criadas. A questão de relevância sobre a qual procuramos refletir é sobre a transição tecnológica que a sociedade e a economia está a atravessar, que implica uma alteração quer do trabalho quer dos objetivos sociais desse trabalho. Interrogamos se com a mudança do trabalho não se exigirá também mudanças nas configurações organizacionais.

Vários sinais de que estamos perante novas situações e as atuais instituições parecem ter dificuldades em responder de forma adequada são evidentes. 

Para problemas complexos exige-se um pensamento crítico e dinâmico. Três exemplos que advém desta crise:

Apesar de se conhecer a virulência da pandemia e das formas de prevenção e tratamento que foram tomadas na China- o seu epicentro, a maioria dos países Europeus, tiveram no seu início grandes dificuldades em assumir os instrumentos adequados de prevenção e tratamento (mitigação dos efeitos). Aliás, em alguns lugares ainda existem dúvidas que é necessário para, isolar e tomar conta dos mais frágeis e incluir os grupos desfavorecidos. 

Um segundo exemplo, doméstico: Já poucos se recordarão, mas no dia imediatamente ao encerramento das escolas públicas, após uma longa reunião dum conselho qualquer de saúde, constituído por solenidades da área, termina inconclusivo, com três linhas de recomendação. Ora não só muitas escolas já tinha fechado, como também muitos pais já tinham decidido manter os filhos em casa. No dia seguinte, o chefe do governo anuncia o óbvio e as escolas fecharam, até hoje. Mais. Na semana seguinte, declara-se o estado de emergência, tendo-se o país encerrado em casa. É certo que houve exceções, mas a maioria das pessoas já tinha percebido o que era necessário fazer. Depois foi a polémica da Páscoa, para inibir de forma musculada as reuniões familiares. Agora, no terceiro prolongamento, para prevenir as manifestações de Abril e do 1º de Maio.

Será necessário tanto músculo perante o bom senso dos cidadãos. E poderíamos multiplicar estes excessos de músculo, acompanhados de desinformação, que vão entre a identificação de fiéis na missa, a operações de stop (20 de março) na ponte 25 de Abril, que levou a um congestionamento, depois noticiado como meliantes em fuga de fim-de-semana para o “sol da Caparica”. O normal passou a ser vigiado e punido. Perguntamos então se será que os poetas continuaram a flanar pela cidade ou se os namorados deixaram de cruzar os interditos?

O terceiro exemplo, é sobre o funcionamento dessas mesmas escolas. Sendo previsível que o tal encerramento fosse até ao final do ano, decidiu-se pela reconversão da “telescola”, um projeto de literacia criado nos idos de 1965, em pleno Estado Novo, para colmatar o deficit de professores e escolas e o excesso de alunos a alfabetizar.

Não sei se já viram os programas mas é "tecnologicamente" e "pedagogicamente" assustador. E houve mais de um mês para preparar. É confrangedor, mas os recursos que forma mobilizados para isto são de tal forma imperfeitos e desconectados com a realidade tecnológica em que vivemos, que não dá para entender o amadorismo da coisa. Fica-se com a ideia, para além da bondade da ideia de universalizar o acesso, que tudo, que poderia ser mais facilmente feito pelos professores nas suas próprias salas de aulas, com ligação via internet para os seus alunos. Se hoje existem redes em jardins e centro comerciais, seria fácil, arranjar um sinal e providenciar acesso livre para este efeito. é claro que os alunos não têm equipamentos. Em tempos houve tal "choque tecnológico"  que distribuiu equipamentos em escolas. Ben parece que tudo foi esquecido e o vetusto Ministério da Educação migrou para a uma pré-história digital. 

O pior de tudo é que nada disso acautela a relação entre o aluno e o professor, que é o centro da atividade pedagógica. Ou seja o tal #ensinoemacasa não é mais de que um embuste. Ao invés de enfrentar um problema real com um solução adequada, substitui-se pela ilusão burocrática dos sumários do livro de ponto, neste caso, televisionados na “RTP memória”. 

Por isso falamos na Distopia. Tal como escreveram à mais dum século Orwell e Huxley, estas instituições e os seus pensadores persistem numa organização pouco humanizada, controlada, vigiada, e punida. Por isso falamos mais acima, nas memória do tempo perdido" sobre um dos problemas da Europa como a emergência dos populismos. Ou seja, perante a incapacidade de entender as mudanças na sociedade, o pensamento construído com base no conhecimento dum tempo de regularidades, apresenta soluções desadequados ao tempo vivido, às necessidades da sociedade e dos cidadão.  Esta educação não é pensada para formar cidadãos, mas para manter os  processos vigiados, uniformizados e, numa visão mais radical procurar o controlo sobre a vontade individual.

São processo característicos de modelos sociais em que os atores são desresponsabilizados pelo seu destino, com típicas organizações em que os chefes são sempre mais sábios dos que os subordinados, com vozes unidirecionais. Este é um problema destas instituições que já não servem para a vida. São organizações em que o que é mais importante reside dentro de si própria, na sua sobrevivência como instância de poder, mesmo quando a sua função na sociedade se esteja a dissolver.

A questão, como sempr, está em não nos deixarmos enlear por essa cantiga do bandido, e tomarmos nas mãos a responsabilidade pela mudança. Construir a autonomia crítica de cidadãos. 


Pedro Pereira Leite
      ( Ph. D )

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