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[Histport] O falecimento de Benjamim Enes Pereira

To :   "archport" <archport@ci.uc.pt>, "museum" <museum@ci.uc.pt>, "histport" <histport@uc.pt>
Subject :   [Histport] O falecimento de Benjamim Enes Pereira
Date :   Sat, 18 Jan 2020 12:32:42 -0000

            Só agora acedi à informação que me fora enviada, a 2 deste mês, da parte da Associação Portuguesa de Antropologia, a comemorar o falecimento, ao fim da tarde desse dia, de Benjamim Enes Pereira.

         Apesar do atraso, não posso deixar de registar nas listas essa notícia, não só no voto de que descanse em paz mas também porque se trata de uma personalidade a que Portugal muito deve.

         Nasceu a 25 de Dezembro de 1928, na casa da Bouroa, no lugar de Montedor, Carreço, Viana do Castelo. Foi musicólogo, compositor, escritor, intérprete e encenador — no fundo, um vulto grande da Antropologia em Portugal, ligado como ficou àquele grupo que esteve na origem do Museu de Etnologia: Jorge Dias (e sua mulher Margot Dias), Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano, personalidades inesquecíveis no seu labor ímpar pela preservação do património (que hoje chamamos de imaterial) português. Vemo-los a percorrer o país para registarem costumes ancestrais, músicas e lengalengas, os moinhos, os lagares, alfaias, tudo!

         Permita-se-me que partilhe algumas das notas que respiguei, um pouco sem fio condutor, ainda na súbita e inesperada emoção de ter perdido uma das minhas referências culturais e científicas, que sempre me cativou, nos vários contactos que com ele tive, mormente no âmbito da Museologia, pela sua serenidade, modéstia (própria de quem tem um grande saber)… Recordo-me de uma visita em que me abriu gavetas das reservas do Museu e me mostrou dezenas de máscaras indígenas africanas, ali mui cuidadosamente guardadas e preservadas. Por sinal, cruzei-me à saída com Maria do Céu Guerra; perguntei-lhe ao que vinha, era precisamente pelas máscaras para uma peça teatral em que andava a pensar e eu disse-lhe «O Benjamim acabou de mas mostrar. Pede-lhe!».

Fazia questão, por exemplo, em que não o tratassem por dr., que o não era. Constituía, aliás, uma prova evidente de que não é necessário ter uma licenciatura universitária para se especializar num domínio científico, basta ter tenacidade, dedicação, entusiasmo! E essas qualidades Benjamim Enes Pereira tinha-as na perfeição-

Que descanse em paz!

                                                                  José d’Encarnação

 

            Recorto:

·         Foi aprovado pela Fundação Calouste Gulbenkian o Projecto ‘Organização e digitalização do arquivo fotográfico do etnólogo Benjamim Pereira: a(s) aldeia(s) da Luz’, apresentado pelo Museu da Luz no âmbito do Concurso ´Projectos de Recuperação, Tratamento e Organização de Acervos Documentais', promovido pelo seu Serviço de Bolsas e Educação.

Este conjunto foi doado por Benjamim Pereira ao Museu da Luz no final do ano passado (2018, se não erro) e consta de cerca de 1300 fotografias (slides) com importante valor documental: são retratos do antigo lugar, das paisagens, das gentes e dos animais, do rio, das casas, das festas, dos ofícios, das ruas e dos largos, das práticas e dos gestos. Dos lugares desaparecidos e em substituição. Da água que chega, da demolição do edificado, da procissão do adeus, das práticas no novo lugar.

 

·         Nota do Instituto de História Contemporânea (FCSH – UNL):

A linha temática “Usos do Passado, Memória e Património Cultural”, que congrega grande parte dos antropólogos e antropólogas do IHC, vem expressar o seu profundo pesar pela morte de Benjamim Enes Pereira (1928-2020), que foi um dos fundadores da moderna antropologia portuguesa e uma figura decisiva nos estudos da cultura material, da museologia e do património.

Benjamim Pereira, que desde cedo integrou a equipa que recolheu por todo o país muitos dos objectos que constituem a base do acervo do Museu Nacional de Etnologia, de que seria um dos fundadores, teve um papel de destaque na renovação da antropologia sobre Portugal. Os investigadores desta linha do Instituto de História Contemporânea salientam a importância do seu legado, que é decisivo para os caminhos que hoje enveredam.

 

·         Idanha-a-Nova: Nota de pesar pelo falecimento de Benjamin Enes Pereira

Reconquista - 16/01/2020 - 9:27

 “Estimado por todos aqueles que o conheceram e com ele trabalharam, Benjamim Enes Pereira foi um observador atento da realidade cultural da nossa região ao longo de várias décadas, com um reconhecido contributo para o conhecimento e divulgação da sua música tradicional, nomeadamente, de dois dos seus expoentes maiores, Catarina Chitas e Manuel Moreira, de Penha Garcia, com quem privou de perto”, destaca a autarquia raiana.

Benjamim Enes Pereira foi “um interveniente chave no processo de criação do Centro Cultural Raiano, em estreita ligação com o Museu Nacional de Etnologia, e na salvaguarda e valorização do património oleícola de Idanha-a-Nova, num trabalho de referência incontornável que envolveu a recuperação do Lagar de Varas da Aldeia Histórica de Idanha-a-Velha, o complexo do Núcleo do Azeite em Proença-a-Velha e a edição dessa obra ímpar que é a Tecnologia Tradicional do Azeite em Portugal”, refere ainda a mesma nota.

 





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