«No princípio do século XX, o poeta Guerra Junqueiro declarava: “Só há dois píncaros para ver o mundo: um é o Himalaia, outro o Chiado. Eu decidi-me pelo Chiado.” Imagine-se agora uma mulher de letras, contemporânea de Guerra Junqueiro, Carolina Michaelis de Vasconcelos, por exemplo. Ou Ana de Castro Osório. Fariam uma declaração destas? Este píncaro com vista para o mundo estaria disponível para elas, em igualdade de circunstâncias?
Não propriamente. Na época de Eça de Queirós, do citado poeta Junqueira ou mesmo na de Fernando Pessoa, as mulheres iam ao Chiado, mas às compras, ou trabalhar no comércio. A boémia e o intercâmbio intelectual, próprios dos cafés ou de estabelecimentos como a Casa Havaneza, estavam-lhes vedados, com algumas excepções para as mulheres do mundo do espetáculo, que, apesar de tudo, gozavam de uma liberdade que as outras não tinham. A atriz Beatriz Costa costumava dizer que fora, nas mesas da Brasileira, que aprendeu a desenhar o Z do seu nome próprio.
Só nos anos 1960 é que, apesar dos constrangimentos da ditadura, as mulheres começaram a ter direito de cidadania nesse Chiado que era o coração da cidade e, até certo ponto, do país. Assim surgiram mulheres como Natália Correia, Maria Teresa Horta, Sophia de Mello Breyner Andresen e, com elas, uma pequena multidão de estudantes universitárias e jovens trabalhadoras, que iniciavam uma revolução social ainda antes da revolução política.».
«Maria João Martins é licenciada e mestre em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e doutorada em Comunicação pela Universidad Carlos III de Madrid. Iniciou a vida profissional como jornalista no vespertino Diário de Lisboa, tendo posteriormente trabalhado em publicações como semanário Se7e, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Diário de Notícias, revistas Máxima e Vogue Portugal. Foi assessora de imprensa do Instituto Camões (1998-2000). Trabalhou em rádio, na Antena 2 e, em Madrid, na Rádio Nacional de España. Ainda na capital espanhola, foi professora convidada de História Social da Moda, na Universidad Carlos III. É autora de vários livros de História e de ficção, designadamente O Paraíso Triste - A Vida Quotidiana em Lisboa durante a IIª Guerra Mundial; Divas, Santas e Demónios - 120 Mulheres Portuguesas; Luanda - Invenção de uma Capital; História da Criança em Portugal e, mais recentemente, Natália Correia - entre o riso e a paixão, que marca a sua estreia na área infanto-juvenil.».