O Museu do Ser-Humano prossegue as reuniões preparativas do
Projeto. Projecto, no sentido de uma “antropologia do Projecto”, referida, entre outros, por Jean-Pierre Boutinet (1990, Presses Universitaires de France, ISBN 972-8329-35-0).
Neste momento estabeleceu diálogo com Alex Coles (“Site-Specificity: The Ethnography Turn”, 2000, Vol. 4, ‘de-,dis-,ex-‘, Black Dog Publishing, London, ISBN 1-901033-12-0 (EU), British Library
catalogue) acerca do «processo de co-evolução Nós-Outro». Após o confronto com os dados atuais da etnografia comparada dos povos e culturas humanas, e após a nova formulação do
modelo do comportamento humano passar a incluir o contributo do Património e Museus.
Concretamente:
Neste diálogo, incluímos a partilha mútua da visita a duas Exposições. Ambas ocorridas no “Museu Coleção Berardo”. Uma, realizada em 2013, intitulada “Arquivo Universal.
Entre a Memória e Arquivo: a condição do documento e a utopia fotográfica moderna.” (curadoria de Ruth Rosengarten, 3/7 a 29/9/2013). E a outra, em 2016, intitulada “o teu corpo é o meu corpo”,
constituída pela ‘coleção de cartazes de Ernesto de Sousa’ (17/4 a 03/04/2016; ver ‘Catálogo da Exposição’ editado por Isabel Alves).
Após a inflexão de rumo da Etnografia referida por Alex Coles --- que, por exemplo, permitiu recolher ‘os doze síndromas comuns à espécie humana’ (referidos por John Monaghan e Peter Just (2000,
“Social & Cultural Anthropology”, Oxford University Press, pp.136-137) --- foi quebrado o preconceito e o erro científico de não se permitir comparar dados do comportamento humano ocorridos em diferentes
contextos e épocas históricas, como se a espécie humana não fosse a mesma desde o seu início.
Neste sentido, nesta reunião preparativa do
Museu do Ser-Humano, debateu-se a hipótese da evolução humana utilizar um «processo de co-apropriação do Outro, pelo Nós (do Tu, pelo Eu)».
De facto, os inúmeros relatos, documentos e dados extraídos da etnografia comparada das sociedades humanas (agora expurgada do isolamento contextual, a que foi submetida durante décadas pelas ciências sociais
e humanas) permitem constatar a existência de um processo comum ao comportamento humano, transversal às diferentes culturas, às diferentes anatomias étnicas, e às épocas históricas. Cuja característica comum é, todos os indivíduos da espécie humana «se
construírem a partir do Outro». Executarem a operação cognitiva e representacional de,
a partir do Outro, extraírem uma espécie de ‘duplo’, que lhes serve de espelho para adquirirem a consciência-de-si.
Ou seja, um processo de complexificação (‘evolução’) baseado numa «co-apropriação Nós-Outro / Eu-Tu». Um
processo que, por isso, permite que a construção de novas singularidades e idiossincrasias sociais e culturais (‘variação’) consiga incorporar o legado e as heranças do que mais relevante ocorreu no
passado e na diversidade. Reforçando a pertinência da formulação que fizemos do
modelo antropológico do comportamento humano, e do contributo da Relevância-Memória-Património na explicação da passagem da
Variável 5 para a Variável 1 (isto é, a explicação de como o re-iniciar do ciclo comportamental cumpre as condições bioquímicas de auto-catálise e auto-organização inerentes à continuidade adaptativa dos sistemas-Vivos).
A habilidade heterónima (o doppelgänger, já referido há tantos anos por Helmuth Plessner) de «nos tornarmos num Outro de nós Mesmos», e de «nos transformarmos num Mesmo que incorpora a soma de
todos os Outros», foi o diálogo e o debate que guiou esta reunião preparativa do
Museu do Ser-Humano.
Onde está a fronteira e os critérios que distinguem as identidades, as culturas e as nações humanas? De que modo, perante estes dados etnográficos, se poderá dividir e separar os factos humanos na expografia do
Museu do Ser-Humano?
Pedro Manuel-Cardoso |
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