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Estimados amigos:
He quedado impactada leyendo estas dos necrológicas. Las dos, pero especialmente la del colega Carlos Fabião, es aquella, sincera, detallada, emotiva, sin convencionalismos, elogiando lo sustancial, y escrita por uno de sus buenos discípulos. Lo que cualquier docente aspiraría a poder tener algún día sobre sí mismo, y que me deja lamentando no haber podido conocer en persona, y oír, las enseñanzas del ahora extinto Prof. de Castro Nunes.
Pero si hoy oso decir en alto lo que pienso es porque, de forma por completo casual, querría hacer una mínima aportación a su mejor recuerdo.
Dentro de la larga investigación que ya he terminado sobre la preciosa pátera de plata de Alvarelhos (Trofa, PO) del MNA (cuyo resumen acabo de exponer en Lisboa y espero se publique en OAP), me interesé por otros extraordinarios hallazgos monetales portugueses semejantes al de Alvarelhos de 1964 y 1971, que alcanzó la brutal suma de 5.500 denarios de plata republicanos de entre 221 y 27 a.C. (muchos de ellos igualmente perdidos).
De esta forma llegué a la noticia de un antiguo artículo de João de Castro Nunes sobre un hallazgo en Oliveira do Hospital en 1902, más modesto y uniforme (eran sólo 210, y de hacia 15-14 a.C.) pero también interesante. Era el que precisamente recuerda ahora el colega Fabião cuando dice "penso, por exemplo, na notícia sobre o tesouro de denários da época de Augusto, da Moura da Serra, Oliveira do Hospital, cuja única publicação se encontra nas páginas do jornal regional “A Comarca de Arganil” (1959), para onde escrevia com alguma regularidade". Lo pude leer, y es éste el pretexto de estas líneas.
El periódico A Comarca de Arganil está ahora completamente digitalizado desde 1901 a 2009 (lo que es un enorme y elogiable esfuerzo). En su número 4951, de
12 de mayo 1959, en la pág. 1 y su final en la pág. 3, se encuentra el artículo citado de Castro Nunes, "Um tesouro monetário romano aparecido na região há meio século", con un pequeño dibujo en portada (sólo lo había encontrado aquí, pero incompleto, por lo que seguí buscando).
Si lo digo ahora es porque, en efecto, de todas las colaboraciones menores del fallecido profesor de Castro Nunes -en palabras de Fabião "esses pequenos artigos... peças marcantes... nem sempre fáceis de encontrar ou conhecer. Pequenos trabalhos, digo, mas extremamente ricos..."-, al menos los muchos que hizo en este diario de Arganil ahora sí pueden buscarse y leerse. Y se verá que, en efecto, como bien dice su alumno, Nunes escribía detalladamente, hasta con largas citas en inglés del entonces muy moderno y completo libro de Michael Grant (otro gigante) Roman Imperial Money, aparecido no hacía mucho en Londres, 1954, y que él bien citaba y comentaba.
Quede este "hilo de Ariadna" para las publicaciones menores de D. João de Castro Nunes en A Comarca de Arganil (y citas suyas, que muchas hay también, de su curiosa faceta de poeta) como una modesta y lejana contribución, junto con mi adhesión a las condolencias generales a su familia y alumnos.
Cordialmente,
Alicia Mª Canto (UAM)
http://uam.academia.edu/AliciaMCanto
CARLOS FABIÃO <cfabiao@campus.ul.pt> escribió:
> João de Castro Nunes deixou-nos.
>
>
> Como muitos saberão, Castro Nunes foi / é aquele a quem desde há muito
> chamei e chamo Mestre. Não no habitual sentido da palavra, gasto, usado e
> abusado nos dias que correm, mas no sentido oriental da expressão, de
> alguém que me marcou profundamente como homem, como investigador, como
> professor. De João de Castro Nunes poderia dizer somente que foi um
> extraordinário ser humano que tive o privilégio de conhecer e com quem tive
> a honra de conviver, até porque não poderei transmitir por palavras tudo
> aquilo que generosamente me deu. Mas creio que importa dizer mais e por
> isso o direi.
>
>
> João de Castro Nunes foi meu Professor (assim mesmo, com maiúscula) na
> minha Licenciatura em História, pela Faculdade de Ciências Sociais e
> Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Frequentei as suas aulas de
> Sociedades, Culturas e Civilizações Clássicas, Arqueologia, Arqueologia
> Pré-Histórica e Arqueologia Clássica e Medieval, durante a Licenciatura, e
> foi o meu orientador na prova de Capacidade Científica (As ânforas do
> acampamento romano da Lomba do Canho, Arganil).
>
>
> Do Professor, deixo aqui dois ou três apontamentos que muito me marcaram:
> dizia constantemente que aquilo que pretendia era transmitir vivências, não
> propriamente informação ou conhecimento. Dizia que havia dois tipos de
> discentes, os bons alunos, que lêem toda a bibliografia que o professor
> indica, e os bons estudantes, que escolhem aquilo que lhes parece mais
> interessante e buscam para lá do que o professor indicou, naturalmente,
> sempre preferiu os segundos. As suas aulas eram muito pouco convencionais,
> um espaço de explanação das suas vivências, embalado pela sua vasta
> erudição e conhecimento, desde a escala da grande síntese à microanálise
> etnoarqueológica. Gostava de ouvir e sabia ouvir, gostava que pensássemos
> com ele e não necessariamente como ele. Pertencia a essa estirpae antiga
> (hoje quase desaparecida) que gostava de prolongar o seu magistério em
> informais encontros à mesa do café, frequentemente mais longos do que o
> próprio tempo de aula.
>
>
> O seu magistério corria um pouco à margem dos grandes debates da época. Na
> Academia da minha formação, havia as correntes dominantes do Materialismo
> Histórico, de vários tons e sons, a que muitos chamavam Marxismo, embora
> com muito pouco de Marx; e a irrupção da Escola dos *Annales*, própria da
> formação francófona, frequentemente de exílio, de muitos dos professores
> existentes. Castro Nunes estava à parte. Evocando uma célebre ilustração do
> livro de Marrou (*Do Conhecimento Histórico*), que todos lemos à época,
> Castro Nunes estava do lado superior esquerdo, onde o autor colocava
> Nietzsche, era esse o flanco intelectual que habitava e naturalmente
> repercutia nas suas aulas. Juntava-se-lhe uma forte componente
> neo-Humanista e empirista. Era brilhantemente intuitivo, mais do que
> analítico. Creio que hoje em dia, o seu magistério seria muito mais
> apreciado e celebrado, do que naqueles tempos em que os ventos sopravam
> fortes em outras direcções, particularmente no mundo da Arqueologia, onde o
> novo paradigma dominante era aquilo a que hoje chamamos *processualismo*.
> De qualquer modo, imprimia uma vivíssima impressão em alguns dos seus
> alunos, que se prolongava muito para lá das salas de aula, nesses momentos
> se afirmava a aludida característica de saber ouvir e de gostar de pensar
> em grupo.
>
>
> Como leccionava na FCSH, da Universidade Nova de Lisboa, e simultaneamente
> na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, gostava de juntar em
> grupos de estudo, reflexão e debate informal estudantes de ambas escolas.
> Assim passei a frequentar as salas do Departamento de Estudos Clássicos e
> do Instituto de Arqueologia da FLUL onde hoje trabalho. Foi no âmbito
> desses grupos que conheci o Amílcar Guerra, o Arnaldo Espírito Santo, o
> saudoso Victor Jabouille, o João Senna-Martinez, o António Dias Diogo,
> entre outros. Era também exímio na construção destas pontes
> interinstitucionais e na capacidade de agregação de pessoas de
> diversificadas formações e trajectos.
>
>
> Como investigador, João de Castro Nunes não deixou publicada uma obra à
> dimensão da sua grandeza intelectual. A não integração em instituição
> académica depois do Doutoramento forçou-o a um enriquecedor, mas complexo,
> périplo por diferentes Universidades espanholas, como Leitor de Língua
> Portuguesa até se fixar como docente do Ensino Secundário, em Portugal, só
> alcançando a Universidade, mais tarde, em Angola, de onde regressou após a
> independência da ex-colónia portuguesa. O grosso da sua obra foi publicado
> na década de 50 e inícios de 60 do século XX, em pequenos artigos
> extremamente elegantes e de um rigor ático: “nem uma palavra a mais, nem
> uma palavra a menos”, como tantas vezes dizia, frase que tenho sempre
> presente quanto tento (sem êxito) seguir o Mestre. Mas esses pequenos
> artigos são, de facto, peças marcantes e de temática muito diversa, desde a
> epigrafia, *Os miliários de Nerva* (1950), por exemplo; indústrias
> macrolíticas do noroeste (1955-56); os temas da Idade do Bronze, com
> especial referência ao estudo da estela de Meimão (1960), que deixou
> incompleto, tendo-me mostrado várias imagens e texto da segunda parte do
> trabalho, nunca publicada; as fíbulas de tipo Nauheim (1959); a arte
> rupestre de Góis, Pedra Letreira (1959) e Pedra Riscada (1974); o
> megalitismo do curso inferior do Alva (1974), que apresenta a escavação do
> monumento dos Moinhos de Vento, Lomba do Canho, Arganil, onde, na década de
> 50, realizou uma intervenção de escavação e estudo de todo o monumento e
> não somente da câmara e corredor, como era então norma. Não vale a pena
> enumerar a obra, que pode ser rastreada nos volumes da Bibliografia
> Arqueológica Portuguesa, de Pires de Oliveira. Refira-se, contudo, para
> além da obra conhecida, publicada em revistas de Arqueologia, em Espanha e
> Portugal, essa outra quase esquecida dada à estampa em periódicos regionais
> (“Arquivo Histórico de Góis”) ou mesmo na imprensa generalista (penso, por
> exemplo, na notícia sobre o tesouro de denários da época de Augusto, da
> Moura da Serra, Oliveira do Hospital, cuja única publicação se encontra nas
> páginas do jornal regional “A Comarca de Arganil” (1959), para onde
> escrevia com alguma regularidade). Alguns dos seus estudos foram publicados
> em brochuras autónomas, nem sempre fáceis de encontrar ou conhecer.
> Pequenos trabalhos, digo, mas extremamente ricos, de tal modo que, creio,
> podem ainda hoje ser lidos com todo o proveito, pelo rigor da informação
> transmitida e pelas belíssimas intuições constantemente presentes.
> Infelizmente, nos tempos que correm, com a investigação a cingir-se por
> norma ao publicado na última década, presumo que Castro Nunes não seja
> muito lido. Mas sei que os seus trabalhos permanecerão como pequenas
> pérolas que ao longo dos anos novos estudiosos irão redescobrindo e
> valorizando.
>
>
> Comecei a trabalhar no campo com João de Castro Nunes em 1978, justamente
> em Arganil. No que respeita à prática arqueológica retive dois ensinamentos
> maiores: a utilidade de trabalhar de uma forma continuada os sítios
> arqueológicos, em vez de praticar pequenas intervenções em vários locais e,
> na esteira da lição de Estácio da Veiga, em privilegiar a instalação local
> de unidades museológicas e centros interpretativos nas regiões onde se
> localizam os sítios arqueológicos, para que se não perca a relação entre os
> sítios e os seus espólios móveis. Castro Nunes praticou-o desde os tempos
> em que tal perspectiva não era habitual e, pode dizer-se, foi de algum modo
> um marco a instalação, em 1980, do Museu Regional de Arqueologia, em
> Arganil. A salutar multiplicação de unidades museológicas e centros de
> interpretação de escala local e regional que hoje em dia se verifica
> demonstra bem o acerto da perspectiva do Mestre.
>
>
> No volume que publicou sobre a *Pedra Letreira*, de Góis, escolheu como
> epígrafe uma bela frase de Maurice Barrès, de que muito gostava e que, no
> seu entender, constituía a melhor explicação para a escolha de certos
> lugares do Sagrado: *Il est des lieux où souffle l’esprit*. Há mais de uma
> dúzia de anos atrás, no Serro de S. Miguel da Mota, Alandroal, com o
> Amílcar Guerra, comentando o sítio e a sua localização, saltou-nos
> espontaneamente a frase tantas vezes ouvida ao Mestre:* Il est des lieux où
> souffle l’esprit*… Com toda a sinceridade, é a resposta que me parece mais
> adequada para a pergunta constantemente feita da razão por que se escolheu
> aquele Serro em particular para instalar um Santuário.
>
>
> Partiu João de Castro Nunes. Imagino que, sem antes soltar aquele ligeiro
> pigarro com que discretamente anunciava a sua chegada. Que descanse em paz,
> meu inesquecível Mestre.
>
>
>
>
>
> Carlos Fabião
>
> No dia 19 de junho de 2016 às 00:46, José d'Encarnação <jde@fl.uc.pt>
> escreveu:
>
>> Acabo de saber por mensagem de seu filho, que ora mesmo divulguei
>> na *archport**,* que faleceu o Prof. João de Castro Nunes.
>>
>> A seu filho, Manuel, e demais família, apresento os mais sentidos
>> pêsames.
>>
>> Personalidade forte, do género dos portugueses de «antes quebrar
>> que torcer», o Doutor Castro Nunes não hesitava em dizer o que lhe parecia
>> correcto, não temendo enfrentar polémicas.
>>
>> Formado na Faculdade de Letras de Coimbra, foi professor na
>> Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa no âmbito dos Estudos
>> Clássicos, mas cedo começou a dedicar-se à Arqueologia. Natural de Arganil,
>> teve no acampamento romano da Lomba do Canho um dos seus primeiros e mais
>> importantes trabalhos, que abriu novas perspectivas à história dos
>> primórdios da vinda dos Romanos para a Lusitânia.
>>
>> Também a Epigrafia o interessou e «Inscrições latinas
>> inéditas do *conventus
>> Bracaraugustanus*», publicado em Santiago de Compostela em 1948, deve ter
>> sido um dos seus primeiros artigos nesse domínio, a que outros se seguiram:
>> os miliários de Nerva na *Gallaecia *(1950), «Pugius, um erro de leitura
>> epigráfica» (1954)… Fez também incursões no âmbito da Pré-História e da
>> Idade do Bronze e teve papel preponderante na organização, de 4 a 8 de
>> Novembro de 1980, do III Colóquio Internacional sobre Línguas e Culturas
>> Páleo-Hispânicas*,* em Lisboa (Fundação Calouste Gulbenkian), que
>> terminou com uma inesquecível jornada precisamente em Arganil com visita à
>> Lomba do Canho e memorável recepção por parte das entidades locais.
>>
>> Acrescentarei que não se coibia, amiúde, de – com elevado espírito crítico
>> e sempre pleno de ironia – comentar com uma quadra notícia que, veiculada
>> pela *archport* ou por qualquer outra das listas*,* particularmente lhe
>> caísse no goto. Exemplifico, em sua memória:
>>
>> - A 4 de Outubro de 2014, a propósito do Destaque do mês "180 anos da
>> morte D. Pedro IV - Palácio de Queluz", escreveu:
>>
>> D. Pedro IV de Portugal e I do Brasil
>>
>> Foi no Real Palácio de Queluz
>>
>> que sob o signo da fatalidade
>>
>> a sua infausta mãe o deu à luz
>>
>> para instaurar na pátria a liberdade.
>>
>> - Antes, a 13 de setembro de 2014, a propósito do convite para a apresenta
>> ção do Foral de Aldeia Galega:
>>
>> Se acaso lá não me virem,
>>
>> por motivo é de saúde:
>>
>> longe estou da juventude
>>
>> para comigo... insistirem!
>>
>> - Sobre uma reunião científica em que o tema era a Turdetânia, não hesitou
>> em dar a sua opinião (07-11-2014):
>>
>> Mas que raio de projecto
>>
>> que coisa alguma adianta:
>>
>> marcando passo, em concreto
>>
>> poeira apenas levanta!
>>
>>
>>
>> Que descanse, pois, em paz quem sempre foi um estrénuo lutador!
>>
>>
>>
>> J. d’E.
>>
>>
>>
>>
>> <https://www.avast.com/sig-email?utm_medium=email&utm_source=link&utm_campaign=sig-email&utm_content=emailclient>
>> Sem
>> vírus. www.avast.com
>> <https://www.avast.com/sig-email?utm_medium=email&utm_source=link&utm_campaign=sig-email&utm_content=emailclient>
>>
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>> _______________________________________________
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>> Archport@ci.uc.pt
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