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Re: [Archport] Beja: ponte romana e sítios arqueológicos destruídos para plantar amendoal

Subject :   Re: [Archport] Beja: ponte romana e sítios arqueológicos destruídos para plantar amendoal
Date :   Mon, 09 Oct 2017 19:50:02 +0100

Boa noite, chamo-me Rui Pinheiro, sou arqueólogo formado no Porto, profissional da área há cerca de 20 anos e fico muito contente com este comentário da Professora Conceição Lopes. Um comentário de uma lucidez impressionante! O principal objetivo de uma escavação/intervenção arqueológica não é o registo; este é importante não por si mesmo mas para compreender o sítio.
Hoje em dia desvirtuamos o objetivo das escavações arqueológicas; coisas dos tempos modernos; o registo é muito, muito relativo. É tudo o que um homem quer e também o que não quer. Depende do tempo, das pressões; todo o tipo delas; etc, etc, etc.
Não interessa; como um Professor meu me explicou há muito tempo; Prof. Marcelo Mendes Pinto; a quantidade de camadas, interfaces, estruturas, enfim unidades estratigráficas que se registe, se não se consegue fazer a história ou compreender o local intervencionado. Esse trabalho muitas vezes moroso; conservação pelo registo; não vale nada. É zero. 
Boa noite 
Rui PInheiro

 

Citando Maria C. Lopes <conlopes@ci.uc.pt>:

Porque se trata da Arqueologia de Beja, do território de Pax Iulia sobre o qual fiz uma tese e onde continuo a trabalhar, permito-me expressar aqui alguns comentários que, saídos de rompante, após a leitura do artigo — que me parece bem e, tardio, mas oportuno, não levam nenhum filtro.
O Carlos Dias tem sido um jornalista atento e, por isso, muito tem contribuído para a discussão em torno do património do Alentejo.

Infelizmente, todo o Alentejo está a ser destruído.  E não é agora.
Fico, pois, muito feliz porque as vozes finalmente se levantam. Mas pergunto, porquê, porque será que só agora? Acredito que não é por ser contra os espanhóis.
É que esta destruição começou há muito e o silêncio foi até há pouco ensurdecedor. Eu fiz o papel da chata, da maluquinha que não pára de chatear, nos locais próprios e aqueles que têm localmente a responsabilidade de cuidar (cuidar, é isso), do nosso Património arqueológico. Sempre esbarrei no preceito Preservação pelo Registo e no dogma da concorrência.
E foi assim: Foi assim que o Cerro Furado foi destruído perante o silêncio de todos e, creio eu, com a conivência de arqueólogos e responsáveis pela preservação do património, os quais se assumiram  como fautores da preservação pelo registo.  Sobre este assunto, é público, a minha voz e acção levou-me a tribunal e ao Zé de Baleizão a morrer no estado que muitos sabemos. Poucos foram os que nessa altura se pronunciaram sobre a destruição do Cerro Furado de cujo certificado registo nada se sabe.
Aquando da destruição da villa de Represas ( onde me ofereci para lá ir fazer um parecer) dado que conheço muito bem, dados eu a estudei e até fiz geofísica em 1986!!!! e, porque fui acompanhando a evolução ao longo do tempo, foi-me dito, por quem de direito, que não havia problema, porque uma empresa haveria de acompanhar os trabalhos e que eu não deveria ir porque isso era contra a lei da concorrência! ; Quando denunciei a destruição da Fonte dos Frades, também não havia problema porque as empresas que estavam a acompanhar haveriam de tomar conta do assunto e registar tudo; quando, muito antes, denunciei a destruição da fantástica villa de S. Pedro (uma das primeiras a ser destruída), também não havia problema, porque os arqueólogos acompanhavam os trabalhos e o registo garantiria tudo. A villa da Cegonha, que escavei nos anos 80 foi também destruída, com o acompanhamento de uma empresa de arqueologia.
E eu pergunto onde está o registo e para que serve.
Preservação pelo Registo. Essa interpretação portuguesa de definição de Preservação pelo Registo, ainda por cima sistematicamente aplicada contra o espírito da lei, serve muito bem os proprietários, o comércio da Arqueologia mas, em caso algum, a ciência Arqueológica.

Mas, felizmente que acabou o Alqueva;  porque as vozes  são agora  coro e, desse modo, talvez possamos, quando acabarem o Sabor e outras, discutir o que é aPreservação pelo Registo que tem servido para destruir o património arqueológico do país e transformar a arqueologia numa técnica de registo e retirado dignidade social aos arqueólogos.

O que se está a passar nas nossas cidades históricas é por enquanto um silêncio. Haveremos de ver no futuro se, talvez quando vierem os espanhóis, ou os franceses que tanto restauram, esse silêncio também  não estala em revolta.

O ministro pode não ser bom, mas não é o ministro que diz que o dono de obra é que decide se se escava ou não, se se faz arqueologia da Arquitectura ou não!
Há muito para resolver na Arqueologia nacional; desde logo, e em primeiro lugar o financiamento para a ciência Arqueologia e a práticaArqueológica de acordo com a ciência e não como uma técnica.


Maria da Conceição Lopes
PhD Archaeology

No dia 09/10/2017, às 09:21, Alexandre Monteiro <no.arame@gmail.com> escreveu:

A sério, estou a ficar sem adjectivos para apodar a tutela central...



"BEJA

Ponte romana e sítios arqueológicos destruídos para plantar amendoal

Direcção Regional da Cultura do Alentejo pediu ao Ministério Público e
à Direcção Geral do Património Cultural a suspensão dos trabalhos em
Beja, mas a movimentação de terras prossegue.

Público, por CARLOS DIAS 9 de Outubro de 2017, 8:36


Sucedem-se quase diariamente os alertas que dão conta da destruição de
património arqueológico que está a ser sacrificado ao plantio de
diversas monoculturas de olival, amendoal, vinha, eucaliptos e até
pinheiros no Alentejo. Agora foi uma empresa espanhola que arrasou
vários sítios arqueológicos perto de Beja para ali colocar
amendoeiras. Já foram feitas queixas à justiça.

Os arqueológos contestam este tipo de práticas e queixam-se junto da
tutela, mas o silêncio e a inacção tem sido a resposta que
sistematicamente recebem. “Por este andar, ficarão apenas os
testemunhos que se encontram nas vitrinas dos museus ou nas salas de
exposição. O resto vai desaparecendo da face da Terra”, protesta o
arqueólogo Miguel Serra, que ao longo dos últimos anos tem o seu
centro de pesquisa nos campos da região de Beja.

As destruições de património associadas às novas culturas “não são de
agora” mas as que estão a ser instaladas ao longo da última década
“são muito mais agressivas”. E se fosse possível contabilizar o que já
foi arrasado todos ficariam perplexos, assinala o investigador.

O caso mais recente que se conhece, entre vários que têm tido lugar,
foi denunciado pela Direcção Regional da Cultura do Alentejo (DRCA)
junto do Ministério Público (MP) em Beja e da Direcção-Geral do
Património Cultural (DGPC). A empresa de capitais espanhóis De Prado
Portugal S. A. arrasou, entre Abril e Agosto, quase duas dezenas de
sítios arqueológicos, que estavam devidamente assinalados no Plano
Director Municipal de Beja. Uma área com cerca de 3 mil hectares onde
será plantado amendoal, situada a seis quilómetros da capital do Baixo
Alentejo, mesmo junto ao IP8.

A maior parte dos sítios estava identificada como sendo dos períodos
do calcolítico, Idade do Ferro, período romano, medieval e moderno,
com destaque para as referências arqueológicas da presença romana. As
informações facultadas ao PÚBLICO referem que os trabalhos de ripagem
do terreno foram executados com maquinaria pesada e envolveu a
extracção de pedra (despedrega) que existia em grande quantidade no
espaço intervencionado.

As operações de movimentação de terra destruíram, entre outros
vestígios, uma ponte, um aqueduto e uma villa da época romana. Nos
esclarecimentos que prestou ao PÚBLICO, Ana Paula Amendoeira,
directora Regional da Cultura do Alentejo, disse que os serviços
intervieram logo que tomaram conhecimento da operação de ripagem numa
parte de território de grande sensibilidade arqueológica. Os
promotores do projecto agrícola foram notificados pela DGPC para
pararem os trabalhos mas o pedido não foi respeitado.

Ao mesmo tempo, foi dado conhecimento à autarquia e ao Ministério
Público de Beja para que fossem “suspensos de imediato os trabalhos em
curso”, para que pudessem ser aplicadas “medidas cautelares de
avaliação dos impactos no património arqueológico existente no local e
o estabelecimento de consequentes medidas de minimização dos mesmos”.

O PÚBLICO procurou obter informações junto do Ministério Público mas
este apenas avançou que dera entrada no dia 31 de Agosto uma
“queixa-crime” contra a empresa visada pela DRCA e que “continuavam a
decorrer as investigações” sobre este caso.

No terreno intervencionado observam-se abundantes fragmentos cerâmicos
e pedras trabalhadas, presumivelmente do período romano. E as
intervenções no terreno prosseguem. O espaço, tal como noutros que
foram lavrados e abertas valas para a colocação da tubagem do sistema
de rega, são o El Dorado para indivíduos munidos de detectores de
metais para a apanha de moedas antigas ou outro tipo de vestígios
metálicos. Há muita gente a sonhar com novos tesouros, à semelhança do
que foi descoberto em Baleizão em 2004.

Foi isso que se passou na villa romana de Represas, próximo de Beja,
depois desta ter sido destruída para plantar olival, conta Miguel
Serra. Centenas de moedas, sobretudo do período romano, foram
recolhidas no local por indivíduos que depois negoceiam os achados.

Também o arqueólogo Monge Soares não esconde a sua indignação pelo que
se está a passar, sobretudo na área de influência do Alqueva. E dá
exemplos dos estragos que já presenciou por causa da plantação de
olival e amendoal intensivo e superintensivo: há dois anos, na
freguesia de Baleizão, tinha encontrado dois pequenos fragmentos de
uma lápide e vestígios de ocupação desde o calcolítico até à idade
moderna. “Caterpílares envolvidos na limpeza e tratamento do terreno
para a plantação de amendoal destruíram tudo. Queixei-me à tutela que
superintende o património, mas nada foi feito”.

Ainda em Baleizão, para a construção de um lagar de azeite,
“destruíram um sítio do período calcolítico e uma villa romana. E
continuam alegremente a destruir tudo sem qualquer critério ou
preocupação de salvaguarda patrimonial”, protesta o investigador,
agastado com a apatia do Ministério da Cultura.

Lembra os vultuosos encargos (cerca de 20 milhões de euros) que a
Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva (EDIA) assumiu
para financiar os trabalhos de levantamento arqueológico que foram
realizados no âmbito do projecto do Alqueva para a instalação da rede
primária. No entanto, as “explorações agrícolas que instalam olival,
amendoal, vinha etc, abrem barrancos de drenagem das águas que atingem
profundidades equivalentes às que foram abertas para a instalação da
rede primária de rega mas não necessitam de acompanhamento
arqueológico”, observa Monge Soares, frisando que há uns anos, quando
exercia funções de responsabilidades no Ministério da Cultura, “sempre
que havia revolvimento de terras era necessário acompanhamento
arqueológico”. Hoje, qualquer agricultor que pretenda plantar as novas
monoculturas de olival, amendoal, vinha, montado, eucaliptos e
pinheiros está dispensado desta exigência.

“O problema está do lado da tutela que não previne a salvaguarda do
património arqueológico”, acusa o arqueólogo Rui Mataloto, admitindo
que é “quase impossível plantar vinha sem destruir os achados”. Na sua
opinião, “o olival é, das novas culturas, a que provoca menos impacto”
porque a técnica de plantio “não implica intervenções profundas no
solo” a não ser na abertura de valas para a colocação das redes de
rega. “Mas sei de villas romanas profundamente afectadas pela ripagem
[operação de limpar e sulcar o solo], do terreno”, acentua.

A experiência diz-lhe que é possível “conciliar o desenvolvimento
económico com a defesa do património” pelo que considera
“inacreditável” que “nunca se tenha acordado um protocolo que articule
as acções do Ministério da Agricultura e as diversas instituições do
património” de modo a acautelar as intervenções nos territórios de
maior sensibilidade patrimonial.

Outra das lacunas referidas por Rui Mataloto reside na informação que
não chega aos proprietários das terras, que muitas intervêm com pleno
“desconhecimento” dos sítios arqueológicos que se encontram nas suas
explorações. Nos últimos 15 anos as instituições que têm por função a
salvaguarda do património “navegam à vista” e os problemas subsistem.

Contactada pelo PÚBLICO, a De Prado escusou-se a prestar declarações."


https://www.publico.pt/2017/10/09/local/noticia/beja-ponte-romana-e-sitios-arqueologicos-foram-destruidos-para-plantar-amendoal-1787981




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