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Re: [Archport] Beja: ponte romana e sítios arqueológicos destruídos para plantar amendoal

Subject :   Re: [Archport] Beja: ponte romana e sítios arqueológicos destruídos para plantar amendoal
From :   Sérgio Simões Pereira <sergiomspereira71@gmail.com>
Date :   Tue, 10 Oct 2017 11:15:16 +0100

Caros colegas!

Não tenho por hábito participar neste espaço de partilha, mas desta vez atrevi-me numa perspectiva simplesmente construtiva e com o maior respeito por todos os trabalham na área de arqueologia.

Disse-me um dia um engenheiro civil, que depois de conviver cerca de um ano com arqueólogos, empresas de arqueologia, Tutela, e de ter lido alguns relatórios preliminares da obra em questão, chegou à triste conclusão: "- Sérgio! O maior problema da arqueologia, não são os promotores nem as empresas de construção, mas os próprios arqueólogos". 
 
Na verdade, são tantos os problemas na "arqueologia nacional", que enumerá-los dá vergonha e deprime qualquer profissional da área.
Pensar que alguns desses problemas se arrastam há décadas, permitindo destruições ou perdas irreversíveis em monumentos e sítios, inexistência de qualquer registo de informação, ocultação de vestígios, etc, é simplesmente vergonhoso e inaceitável.
Lembro que no final dos anos 90, com menos tecnologia, éramos mais respeitados no terreno e trabalhávamos em melhores condições. Parece que regredimos, ao invés de outras áreas emergentes como por exemplo a do ambiente. O exemplo pode parecer caricato e com o devido respeito, mas é triste constatar em campo que não se pode cortar um sobreiro, porque é protegido, mas pode-se destruir um sítio, total ou parcialmente, desde que se faça o registo arqueológico.

Não vale a pena centrarmos-nos apenas em destruições no Alentejo, quando é um problema nacional, pois acontecem do Algarve a Trás-os-Montes. Aceitamos que muitos projectos tenham afectado o nosso património, desde que tenha sido feito algum investimento no registo e investigação (parques eólicos, estradas, urbanização, barragens). Fingimos não ver outros projectos que foram avançando, em grande escala, sem qualquer tipo acompanhamento ou parecer (agricultura intensiva, viticultura, fruticultura, florestação, muitas obras particulares e até algumas públicas)...  
Denunciar destruições ou outro tipo de crimes patrimoniais poderá acarretar muitos problemas ou mesmo rótulos, localmente e no circuito profissional, sendo que, na maioria dos casos, os promotores dão a volta à situação e quem é que fica mal na fotografia é o arqueólogo e a nossa área profissional.
No estado lamentável em que a Arqueologia se encontra, não admira que a nossa imagem profissional no terreno esteja denegrida, em geral, entre os promotores, empresas de construção, outros profissionais e até por uma larga franja da população.

O caminho não é continuarmos entretidos nos nossos interesses pessoais, projectos individuais e institucionais, e ignorar o estado deprimente em que se encontra a "arqueologia nacional". 

Temos a obrigação profissional e ou ética de defender o nosso património histórico-arqueológico? 
Então, de que estão à espera para se sentarem à mesma mesa (tutela, universidades, associações, sindicato, empresas, profissionais, profissionais liberais) e debaterem com objectividade, transparência e seriedade o problema do estado da "arqueologia nacional".

Saudações a todos.

Sérgio Simões Pereira

 




Em 9 de outubro de 2017 20:38, Jorge Feio <jorgefeio77@hotmail.com> escreveu:

A arqueologia como a vivemos em Portugal tem muito que se diga. Para alguns arqueólogos o problema está na arqueologia dita empresarial. No "deixar destruir" após o registo e etc, etc, etc.


Bom, eu não sei quando é que a "villa" do Monte da Cegonha foi destruída. Filmei lá um programa para a RTP2, se não me engano, em 2008 ou 2009 e ainda estava de pé. Com muita erva em cima, mas de pé. 


Mas eu pergunto: os anos 70, 80 e 90 não existiram destruições arqueológicas? Ou seja, antes da arqueologia empresarial não foram destruídos sítios arqueológicos? Pois eu respondo: em Alvito foi completamente arrasada uma "villa" romana com mosaicos (à vista, ou seja, não estavam tapados com terra) para plantar uma vinha nos inícios dos anos 90. Era a "villa" de Malcabrão e já era conhecida desde 1958, data em que foi publicada pelo Dr. Abel Viana!


A "villa" de Pedras de Zorra, concelhos da Vidigueira e Cuba? Já estava arrasada antes de 1996! 


Poderia dar muitos mais exemplos, mas são imensos e não é isso que aqui mais interessa. Eu sei que os colegas da Direcção Regional da Cultura do Alentejo têm feito tudo o que é humanamente possível (e impossível) para suplantar esta situação. O problema, que a maior parte da malta da arqueologia ainda não percebeu, não está na "nossa" tutela. Está no Ministério da Agricultura e no IFAQ (acho que é esta a sigla). Ou seja, são aprovados projectos agrícolas sem que a DRCALEN seja consultada para emitir parecer sobre os sítios arqueológicos. E isto foi-me dito claramente por um amigo meu que trabalha no Ministério da Agricultura, que me informou ainda que esta falta de comunicação começou há pouco tempo, sobretudo quando os Espanhóis começaram a comprar terras no Baixo Alentejo, gastando 21000€ por hectare junto a Beja.


Posso ainda dar a conhecer o caso das várias empresas das águas. Muitas vezes só contractam o acompanhamento arqueológico quando já têm 2 terços da obra feita. E falamos de empresas ligadas ao Estado.


Voltando um pouco ao início, apenas chamo a atenção para o seguinte: nunca numa fase anterior ao advento da EDIA e da arqueologia empresarial se publicou tanto como agora. Nunca houve tantos arqueólogos a trabalhar no terreno como no início do século XXI. Quer se queira, ou quer não se queira, muitas das grandes novidades da arqueologia foram dadas a conhecer por arqueólogos ao serviço de empresas. Dou o exemplo dos povoados de fossos, como o dos Perdigões. Quando a Carta Arqueológica de Serpa foi publicada, conheciam-se pouco mais de 300 sítios. Hoje estão registados quase 800 no mesmo concelho. Os mais de 400 que se acrescentaram devem-se aos trabalhos realizados por colegas no âmbito de acompanhamentos arqueológicos.


Gostava ainda de perguntar o que é que pensam de arqueólogos que obtêm informações junto de detectoristas. Alguns desses arqueólogos (inclusivamente de renome), em trabalhos de cariz científico e não empresarial, até se dão ao luxo de publicar que foram a um sítio arqueológico e que estavam lá uns detectoristas que lhes mostraram umas moedas. Esses detectoristas foram identificados na GNR? Foi feita alguma queixa contra eles? Não estavam eles a destruir um sítio arqueológico? 


Deixemos de parte situações do passado e concentremos-nos naquilo que realmente interessa: identificar as situações, apresentar queixa junto das autoridades competentes e dar a conhecer ao País o que se está a passar na comunicação social (o meu amigo insistiu muito para fazermos isso). só assim, iremos conseguir travar estas situações catastróficas.



Jorge Feio

Arqueólogo


De: archport-bounces@ci.uc.pt <archport-bounces@ci.uc.pt> em nome de Alexandre Monteiro <no.arame@gmail.com>
Enviado: 9 de outubro de 2017 11:35:48
Para: Maria C. Lopes
Cc: archport
Assunto: Re: [Archport] Beja: ponte romana e sítios arqueológicos destruídos para plantar amendoal
 
Ah, mas esse é o modus operandi das intervenções em meio aquático, em
que a tutela continua a sancionar aquela coisa fabulosa que é permitir
que as empresas de arqueologia paguem a arqueólogos para estarem nas
condutas de saída " a ver se saem madeiras ou artefactos", já depois
de mastigadas e cuspidas pelas dragas.

Ou em que se permite que as empresas apresentem orçamentos nivelados
por baixo, muito, mas mesmo muito lá por baixo, quando obviamente as
condições dos sítios e o potencial histórico-arqueológico dos mesmos
aponta para metodologias que empreguem mais técnicos, bem mais
especializados e com bem mais meios tecnologicos de prospecção PRÉVIA
aos impactes do que os previstos que apontam quase sempre para
"prospecções visuais".

Assim de repente, vem-me à cabeça Lisboa, Cascais, Douro, Sines,
Setúbal, Milfontes, etc., tudo áreas de elevado potencial mas onde
nunca, obviamente, se encontra algo - o que não deixa de ser um
descanso para os promotores.

Na verdade, tirando o caso dos Açores (Ponta Delgada, Horta e Angra) o
património marítimo só se encontra quando se escava em terra, na borda
do Tejo, em Lisboa. Dá que pensar..





Em 9 de outubro de 2017 11:37, Maria C. Lopes <conlopes@ci.uc.pt> escreveu:
> Porque se trata da Arqueologia de Beja, do território de Pax Iulia sobre o qual fiz uma tese e onde continuo a trabalhar, permito-me expressar aqui alguns comentários que, saídos de rompante, após a leitura do artigo — que me parece bem e, tardio, mas oportuno, não levam nenhum filtro.
> O Carlos Dias tem sido um jornalista atento e, por isso, muito tem contribuído para a discussão em torno do património do Alentejo.
>
> Infelizmente, todo o Alentejo está a ser destruído.  E não é agora.
> Fico, pois, muito feliz porque as vozes finalmente se levantam. Mas pergunto, porquê, porque será que só agora? Acredito que não é por ser contra os espanhóis.
> É que esta destruição começou há muito e o silêncio foi até há pouco ensurdecedor. Eu fiz o papel da chata, da maluquinha que não pára de chatear, nos locais próprios e aqueles que têm localmente a responsabilidade de cuidar (cuidar, é isso), do nosso Património arqueológico. Sempre esbarrei no preceito Preservação pelo Registo e no dogma da concorrência.
> E foi assim: Foi assim que o Cerro Furado foi destruído perante o silêncio de todos e, creio eu, com a conivência de arqueólogos e responsáveis pela preservação do património, os quais se assumiram  como fautores da preservação pelo registo.  Sobre este assunto, é público, a minha voz e acção levou-me a tribunal e ao Zé de Baleizão a morrer no estado que muitos sabemos. Poucos foram os que nessa altura se pronunciaram sobre a destruição do Cerro Furado de cujo certificado registo nada se sabe.
>  Aquando da destruição da villa de Represas ( onde me ofereci para lá ir fazer um parecer) dado que conheço muito bem, dados eu a estudei e até fiz geofísica em 1986!!!! e, porque fui acompanhando a evolução ao longo do tempo, foi-me dito, por quem de direito, que não havia problema, porque uma empresa haveria de acompanhar os trabalhos e que eu não deveria ir porque isso era contra a lei da concorrência! ; Quando denunciei a destruição da Fonte dos Frades, também não havia problema porque as empresas que estavam a acompanhar haveriam de tomar conta do assunto e registar tudo; quando, muito antes, denunciei a destruição da fantástica villa de S. Pedro (uma das primeiras a ser destruída), também não havia problema, porque os arqueólogos acompanhavam os trabalhos e o registo garantiria tudo. A villa da Cegonha, que escavei nos anos 80 foi também destruída, com o acompanhamento de uma empresa de arqueologia.
> E eu pergunto onde está o registo e para que serve.
> Preservação pelo Registo. Essa interpretação portuguesa de definição de Preservação pelo Registo, ainda por cima sistematicamente aplicada contra o espírito da lei, serve muito bem os proprietários, o comércio da Arqueologia mas, em caso algum, a ciência Arqueológica.
>
> Mas, felizmente que acabou o Alqueva;  porque as vozes  são agora  coro e, desse modo, talvez possamos, quando acabarem o Sabor e outras, discutir o que é aPreservação pelo Registo que tem servido para destruir o património arqueológico do país e transformar a arqueologia numa técnica de registo e retirado dignidade social aos arqueólogos.
>
> O que se está a passar nas nossas cidades históricas é por enquanto um silêncio. Haveremos de ver no futuro se, talvez quando vierem os espanhóis, ou os franceses que tanto restauram, esse silêncio também  não estala em revolta.
>
> O ministro pode não ser bom, mas não é o ministro que diz que o dono de obra é que decide se se escava ou não, se se faz arqueologia da Arquitectura ou não!
> Há muito para resolver na Arqueologia nacional; desde logo, e em primeiro lugar o financiamento para a ciência Arqueologia e a práticaArqueológica de acordo com a ciência e não como uma técnica.
>
>
> Maria da Conceição Lopes
> PhD Archaeology
>
>> No dia 09/10/2017, às 09:21, Alexandre Monteiro <no.arame@gmail.com> escreveu:
>>
>> A sério, estou a ficar sem adjectivos para apodar a tutela central...
>>
>>
>>
>> "BEJA
>>
>> Ponte romana e sítios arqueológicos destruídos para plantar amendoal
>>
>> Direcção Regional da Cultura do Alentejo pediu ao Ministério Público e
>> à Direcção Geral do Património Cultural a suspensão dos trabalhos em
>> Beja, mas a movimentação de terras prossegue.
>>
>> Público, por CARLOS DIAS 9 de Outubro de 2017, 8:36
>>
>>
>> Sucedem-se quase diariamente os alertas que dão conta da destruição de
>> património arqueológico que está a ser sacrificado ao plantio de
>> diversas monoculturas de olival, amendoal, vinha, eucaliptos e até
>> pinheiros no Alentejo. Agora foi uma empresa espanhola que arrasou
>> vários sítios arqueológicos perto de Beja para ali colocar
>> amendoeiras. Já foram feitas queixas à justiça.
>>
>> Os arqueológos contestam este tipo de práticas e queixam-se junto da
>> tutela, mas o silêncio e a inacção tem sido a resposta que
>> sistematicamente recebem. “Por este andar, ficarão apenas os
>> testemunhos que se encontram nas vitrinas dos museus ou nas salas de
>> exposição. O resto vai desaparecendo da face da Terra”, protesta o
>> arqueólogo Miguel Serra, que ao longo dos últimos anos tem o seu
>> centro de pesquisa nos campos da região de Beja.
>>
>> As destruições de património associadas às novas culturas “não são de
>> agora” mas as que estão a ser instaladas ao longo da última década
>> “são muito mais agressivas”. E se fosse possível contabilizar o que já
>> foi arrasado todos ficariam perplexos, assinala o investigador.
>>
>> O caso mais recente que se conhece, entre vários que têm tido lugar,
>> foi denunciado pela Direcção Regional da Cultura do Alentejo (DRCA)
>> junto do Ministério Público (MP) em Beja e da Direcção-Geral do
>> Património Cultural (DGPC). A empresa de capitais espanhóis De Prado
>> Portugal S. A. arrasou, entre Abril e Agosto, quase duas dezenas de
>> sítios arqueológicos, que estavam devidamente assinalados no Plano
>> Director Municipal de Beja. Uma área com cerca de 3 mil hectares onde
>> será plantado amendoal, situada a seis quilómetros da capital do Baixo
>> Alentejo, mesmo junto ao IP8.
>>
>> A maior parte dos sítios estava identificada como sendo dos períodos
>> do calcolítico, Idade do Ferro, período romano, medieval e moderno,
>> com destaque para as referências arqueológicas da presença romana. As
>> informações facultadas ao PÚBLICO referem que os trabalhos de ripagem
>> do terreno foram executados com maquinaria pesada e envolveu a
>> extracção de pedra (despedrega) que existia em grande quantidade no
>> espaço intervencionado.
>>
>> As operações de movimentação de terra destruíram, entre outros
>> vestígios, uma ponte, um aqueduto e uma villa da época romana. Nos
>> esclarecimentos que prestou ao PÚBLICO, Ana Paula Amendoeira,
>> directora Regional da Cultura do Alentejo, disse que os serviços
>> intervieram logo que tomaram conhecimento da operação de ripagem numa
>> parte de território de grande sensibilidade arqueológica. Os
>> promotores do projecto agrícola foram notificados pela DGPC para
>> pararem os trabalhos mas o pedido não foi respeitado.
>>
>> Ao mesmo tempo, foi dado conhecimento à autarquia e ao Ministério
>> Público de Beja para que fossem “suspensos de imediato os trabalhos em
>> curso”, para que pudessem ser aplicadas “medidas cautelares de
>> avaliação dos impactos no património arqueológico existente no local e
>> o estabelecimento de consequentes medidas de minimização dos mesmos”.
>>
>> O PÚBLICO procurou obter informações junto do Ministério Público mas
>> este apenas avançou que dera entrada no dia 31 de Agosto uma
>> “queixa-crime” contra a empresa visada pela DRCA e que “continuavam a
>> decorrer as investigações” sobre este caso.
>>
>> No terreno intervencionado observam-se abundantes fragmentos cerâmicos
>> e pedras trabalhadas, presumivelmente do período romano. E as
>> intervenções no terreno prosseguem. O espaço, tal como noutros que
>> foram lavrados e abertas valas para a colocação da tubagem do sistema
>> de rega, são o El Dorado para indivíduos munidos de detectores de
>> metais para a apanha de moedas antigas ou outro tipo de vestígios
>> metálicos. Há muita gente a sonhar com novos tesouros, à semelhança do
>> que foi descoberto em Baleizão em 2004.
>>
>> Foi isso que se passou na villa romana de Represas, próximo de Beja,
>> depois desta ter sido destruída para plantar olival, conta Miguel
>> Serra. Centenas de moedas, sobretudo do período romano, foram
>> recolhidas no local por indivíduos que depois negoceiam os achados.
>>
>> Também o arqueólogo Monge Soares não esconde a sua indignação pelo que
>> se está a passar, sobretudo na área de influência do Alqueva. E dá
>> exemplos dos estragos que já presenciou por causa da plantação de
>> olival e amendoal intensivo e superintensivo: há dois anos, na
>> freguesia de Baleizão, tinha encontrado dois pequenos fragmentos de
>> uma lápide e vestígios de ocupação desde o calcolítico até à idade
>> moderna. “Caterpílares envolvidos na limpeza e tratamento do terreno
>> para a plantação de amendoal destruíram tudo. Queixei-me à tutela que
>> superintende o património, mas nada foi feito”.
>>
>> Ainda em Baleizão, para a construção de um lagar de azeite,
>> “destruíram um sítio do período calcolítico e uma villa romana. E
>> continuam alegremente a destruir tudo sem qualquer critério ou
>> preocupação de salvaguarda patrimonial”, protesta o investigador,
>> agastado com a apatia do Ministério da Cultura.
>>
>> Lembra os vultuosos encargos (cerca de 20 milhões de euros) que a
>> Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva (EDIA) assumiu
>> para financiar os trabalhos de levantamento arqueológico que foram
>> realizados no âmbito do projecto do Alqueva para a instalação da rede
>> primária. No entanto, as “explorações agrícolas que instalam olival,
>> amendoal, vinha etc, abrem barrancos de drenagem das águas que atingem
>> profundidades equivalentes às que foram abertas para a instalação da
>> rede primária de rega mas não necessitam de acompanhamento
>> arqueológico”, observa Monge Soares, frisando que há uns anos, quando
>> exercia funções de responsabilidades no Ministério da Cultura, “sempre
>> que havia revolvimento de terras era necessário acompanhamento
>> arqueológico”. Hoje, qualquer agricultor que pretenda plantar as novas
>> monoculturas de olival, amendoal, vinha, montado, eucaliptos e
>> pinheiros está dispensado desta exigência.
>>
>> “O problema está do lado da tutela que não previne a salvaguarda do
>> património arqueológico”, acusa o arqueólogo Rui Mataloto, admitindo
>> que é “quase impossível plantar vinha sem destruir os achados”. Na sua
>> opinião, “o olival é, das novas culturas, a que provoca menos impacto”
>> porque a técnica de plantio “não implica intervenções profundas no
>> solo” a não ser na abertura de valas para a colocação das redes de
>> rega. “Mas sei de villas romanas profundamente afectadas pela ripagem
>> [operação de limpar e sulcar o solo], do terreno”, acentua.
>>
>> A experiência diz-lhe que é possível “conciliar o desenvolvimento
>> económico com a defesa do património” pelo que considera
>> “inacreditável” que “nunca se tenha acordado um protocolo que articule
>> as acções do Ministério da Agricultura e as diversas instituições do
>> património” de modo a acautelar as intervenções nos territórios de
>> maior sensibilidade patrimonial.
>>
>> Outra das lacunas referidas por Rui Mataloto reside na informação que
>> não chega aos proprietários das terras, que muitas intervêm com pleno
>> “desconhecimento” dos sítios arqueológicos que se encontram nas suas
>> explorações. Nos últimos 15 anos as instituições que têm por função a
>> salvaguarda do património “navegam à vista” e os problemas subsistem.
>>
>> Contactada pelo PÚBLICO, a De Prado escusou-se a prestar declarações."
>>
>>
>> https://www.publico.pt/2017/10/09/local/noticia/beja-ponte-romana-e-sitios-arqueologicos-foram-destruidos-para-plantar-amendoal-1787981
>>
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Sérgio Simões Pereira
(Arqueólogo)
Tm: 914 707 072


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