A arqueologia como a vivemos em Portugal tem muito que se diga. Para alguns arqueólogos o problema está na arqueologia dita empresarial. No "deixar destruir" após o registo e etc, etc, etc.
Bom, eu não sei quando é que a "villa" do Monte da Cegonha foi destruída. Filmei lá um programa para a RTP2, se não me engano, em 2008 ou 2009 e ainda estava de pé. Com muita erva em cima, mas de pé.
Mas eu pergunto: os anos 70, 80 e 90 não existiram destruições arqueológicas? Ou seja, antes da arqueologia empresarial não foram destruídos sítios arqueológicos? Pois eu respondo: em Alvito foi completamente arrasada uma "villa" romana com mosaicos (à vista, ou seja, não estavam tapados com terra) para plantar uma vinha nos inícios dos anos 90. Era a "villa" de Malcabrão e já era conhecida desde 1958, data em que foi publicada pelo Dr. Abel Viana!
A "villa" de Pedras de Zorra, concelhos da Vidigueira e Cuba? Já estava arrasada antes de 1996!
Poderia dar muitos mais exemplos, mas são imensos e não é isso que aqui mais interessa. Eu sei que os colegas da Direcção Regional da Cultura do Alentejo têm feito tudo o que é humanamente possível (e impossível) para suplantar esta situação. O problema, que a maior parte da malta da arqueologia ainda não percebeu, não está na "nossa" tutela. Está no Ministério da Agricultura e no IFAQ (acho que é esta a sigla). Ou seja, são aprovados projectos agrícolas sem que a DRCALEN seja consultada para emitir parecer sobre os sítios arqueológicos. E isto foi-me dito claramente por um amigo meu que trabalha no Ministério da Agricultura, que me informou ainda que esta falta de comunicação começou há pouco tempo, sobretudo quando os Espanhóis começaram a comprar terras no Baixo Alentejo, gastando 21000€ por hectare junto a Beja.
Posso ainda dar a conhecer o caso das várias empresas das águas. Muitas vezes só contractam o acompanhamento arqueológico quando já têm 2 terços da obra feita. E falamos de empresas ligadas ao Estado.
Voltando um pouco ao início, apenas chamo a atenção para o seguinte: nunca numa fase anterior ao advento da EDIA e da arqueologia empresarial se publicou tanto como agora. Nunca houve tantos arqueólogos a trabalhar no terreno como no início do século XXI. Quer se queira, ou quer não se queira, muitas das grandes novidades da arqueologia foram dadas a conhecer por arqueólogos ao serviço de empresas. Dou o exemplo dos povoados de fossos, como o dos Perdigões. Quando a Carta Arqueológica de Serpa foi publicada, conheciam-se pouco mais de 300 sítios. Hoje estão registados quase 800 no mesmo concelho. Os mais de 400 que se acrescentaram devem-se aos trabalhos realizados por colegas no âmbito de acompanhamentos arqueológicos.
Gostava ainda de perguntar o que é que pensam de arqueólogos que obtêm informações junto de detectoristas. Alguns desses arqueólogos (inclusivamente de renome), em trabalhos de cariz científico e não empresarial, até se dão ao luxo de publicar que foram a um sítio arqueológico e que estavam lá uns detectoristas que lhes mostraram umas moedas. Esses detectoristas foram identificados na GNR? Foi feita alguma queixa contra eles? Não estavam eles a destruir um sítio arqueológico?
Deixemos de parte situações do passado e concentremos-nos naquilo que realmente interessa: identificar as situações, apresentar queixa junto das autoridades competentes e dar a conhecer ao País o que se está a passar na comunicação social (o meu amigo insistiu muito para fazermos isso). só assim, iremos conseguir travar estas situações catastróficas.
Jorge Feio
Arqueólogo
De: archport-bounces@ci.uc.pt <archport-bounces@ci.uc.pt> em nome de Alexandre Monteiro <no.arame@gmail.com>
Enviado: 9 de outubro de 2017 11:35:48
Para: Maria C. Lopes
Cc: archport
Assunto: Re: [Archport] Beja: ponte romana e sítios arqueológicos destruídos para plantar amendoalAh, mas esse é o modus operandi das intervenções em meio aquático, em
que a tutela continua a sancionar aquela coisa fabulosa que é permitir
que as empresas de arqueologia paguem a arqueólogos para estarem nas
condutas de saída " a ver se saem madeiras ou artefactos", já depois
de mastigadas e cuspidas pelas dragas.
Ou em que se permite que as empresas apresentem orçamentos nivelados
por baixo, muito, mas mesmo muito lá por baixo, quando obviamente as
condições dos sítios e o potencial histórico-arqueológico dos mesmos
aponta para metodologias que empreguem mais técnicos, bem mais
especializados e com bem mais meios tecnologicos de prospecção PRÉVIA
aos impactes do que os previstos que apontam quase sempre para
"prospecções visuais".
Assim de repente, vem-me à cabeça Lisboa, Cascais, Douro, Sines,
Setúbal, Milfontes, etc., tudo áreas de elevado potencial mas onde
nunca, obviamente, se encontra algo - o que não deixa de ser um
descanso para os promotores.
Na verdade, tirando o caso dos Açores (Ponta Delgada, Horta e Angra) o
património marítimo só se encontra quando se escava em terra, na borda
do Tejo, em Lisboa. Dá que pensar..
Em 9 de outubro de 2017 11:37, Maria C. Lopes <conlopes@ci.uc.pt> escreveu:
> Porque se trata da Arqueologia de Beja, do território de Pax Iulia sobre o qual fiz uma tese e onde continuo a trabalhar, permito-me expressar aqui alguns comentários que, saídos de rompante, após a leitura do artigo — que me parece bem e, tardio, mas oportuno, não levam nenhum filtro.
> O Carlos Dias tem sido um jornalista atento e, por isso, muito tem contribuído para a discussão em torno do património do Alentejo.
>
> Infelizmente, todo o Alentejo está a ser destruído. E não é agora.
> Fico, pois, muito feliz porque as vozes finalmente se levantam. Mas pergunto, porquê, porque será que só agora? Acredito que não é por ser contra os espanhóis.
> É que esta destruição começou há muito e o silêncio foi até há pouco ensurdecedor. Eu fiz o papel da chata, da maluquinha que não pára de chatear, nos locais próprios e aqueles que têm localmente a responsabilidade de cuidar (cuidar, é isso), do nosso Património arqueológico. Sempre esbarrei no preceito Preservação pelo Registo e no dogma da concorrência.
> E foi assim: Foi assim que o Cerro Furado foi destruído perante o silêncio de todos e, creio eu, com a conivência de arqueólogos e responsáveis pela preservação do património, os quais se assumiram como fautores da preservação pelo registo. Sobre este assunto, é público, a minha voz e acção levou-me a tribunal e ao Zé de Baleizão a morrer no estado que muitos sabemos. Poucos foram os que nessa altura se pronunciaram sobre a destruição do Cerro Furado de cujo certificado registo nada se sabe.
> Aquando da destruição da villa de Represas ( onde me ofereci para lá ir fazer um parecer) dado que conheço muito bem, dados eu a estudei e até fiz geofísica em 1986!!!! e, porque fui acompanhando a evolução ao longo do tempo, foi-me dito, por quem de direito, que não havia problema, porque uma empresa haveria de acompanhar os trabalhos e que eu não deveria ir porque isso era contra a lei da concorrência! ; Quando denunciei a destruição da Fonte dos Frades, também não havia problema porque as empresas que estavam a acompanhar haveriam de tomar conta do assunto e registar tudo; quando, muito antes, denunciei a destruição da fantástica villa de S. Pedro (uma das primeiras a ser destruída), também não havia problema, porque os arqueólogos acompanhavam os trabalhos e o registo garantiria tudo. A villa da Cegonha, que escavei nos anos 80 foi também destruída, com o acompanhamento de uma empresa de arqueologia.
> E eu pergunto onde está o registo e para que serve.
> Preservação pelo Registo. Essa interpretação portuguesa de definição de Preservação pelo Registo, ainda por cima sistematicamente aplicada contra o espírito da lei, serve muito bem os proprietários, o comércio da Arqueologia mas, em caso algum, a ciência Arqueológica.
>
> Mas, felizmente que acabou o Alqueva; porque as vozes são agora coro e, desse modo, talvez possamos, quando acabarem o Sabor e outras, discutir o que é aPreservação pelo Registo que tem servido para destruir o património arqueológico do país e transformar a arqueologia numa técnica de registo e retirado dignidade social aos arqueólogos.
>
> O que se está a passar nas nossas cidades históricas é por enquanto um silêncio. Haveremos de ver no futuro se, talvez quando vierem os espanhóis, ou os franceses que tanto restauram, esse silêncio também não estala em revolta.
>
> O ministro pode não ser bom, mas não é o ministro que diz que o dono de obra é que decide se se escava ou não, se se faz arqueologia da Arquitectura ou não!
> Há muito para resolver na Arqueologia nacional; desde logo, e em primeiro lugar o financiamento para a ciência Arqueologia e a práticaArqueológica de acordo com a ciência e não como uma técnica.
>
>
> Maria da Conceição Lopes
> PhD Archaeology
>
>> No dia 09/10/2017, às 09:21, Alexandre Monteiro <no.arame@gmail.com> escreveu:
>>
>> A sério, estou a ficar sem adjectivos para apodar a tutela central...
>>
>>
>>
>> "BEJA
>>
>> Ponte romana e sítios arqueológicos destruídos para plantar amendoal
>>
>> Direcção Regional da Cultura do Alentejo pediu ao Ministério Público e
>> à Direcção Geral do Património Cultural a suspensão dos trabalhos em
>> Beja, mas a movimentação de terras prossegue.
>>
>> Público, por CARLOS DIAS 9 de Outubro de 2017, 8:36
>>
>>
>> Sucedem-se quase diariamente os alertas que dão conta da destruição de
>> património arqueológico que está a ser sacrificado ao plantio de
>> diversas monoculturas de olival, amendoal, vinha, eucaliptos e até
>> pinheiros no Alentejo. Agora foi uma empresa espanhola que arrasou
>> vários sítios arqueológicos perto de Beja para ali colocar
>> amendoeiras. Já foram feitas queixas à justiça.
>>
>> Os arqueológos contestam este tipo de práticas e queixam-se junto da
>> tutela, mas o silêncio e a inacção tem sido a resposta que
>> sistematicamente recebem. “Por este andar, ficarão apenas os
>> testemunhos que se encontram nas vitrinas dos museus ou nas salas de
>> exposição. O resto vai desaparecendo da face da Terra”, protesta o
>> arqueólogo Miguel Serra, que ao longo dos últimos anos tem o seu
>> centro de pesquisa nos campos da região de Beja.
>>
>> As destruições de património associadas às novas culturas “não são de
>> agora” mas as que estão a ser instaladas ao longo da última década
>> “são muito mais agressivas”. E se fosse possível contabilizar o que já
>> foi arrasado todos ficariam perplexos, assinala o investigador.
>>
>> O caso mais recente que se conhece, entre vários que têm tido lugar,
>> foi denunciado pela Direcção Regional da Cultura do Alentejo (DRCA)
>> junto do Ministério Público (MP) em Beja e da Direcção-Geral do
>> Património Cultural (DGPC). A empresa de capitais espanhóis De Prado
>> Portugal S. A. arrasou, entre Abril e Agosto, quase duas dezenas de
>> sítios arqueológicos, que estavam devidamente assinalados no Plano
>> Director Municipal de Beja. Uma área com cerca de 3 mil hectares onde
>> será plantado amendoal, situada a seis quilómetros da capital do Baixo
>> Alentejo, mesmo junto ao IP8.
>>
>> A maior parte dos sítios estava identificada como sendo dos períodos
>> do calcolítico, Idade do Ferro, período romano, medieval e moderno,
>> com destaque para as referências arqueológicas da presença romana. As
>> informações facultadas ao PÚBLICO referem que os trabalhos de ripagem
>> do terreno foram executados com maquinaria pesada e envolveu a
>> extracção de pedra (despedrega) que existia em grande quantidade no
>> espaço intervencionado.
>>
>> As operações de movimentação de terra destruíram, entre outros
>> vestígios, uma ponte, um aqueduto e uma villa da época romana. Nos
>> esclarecimentos que prestou ao PÚBLICO, Ana Paula Amendoeira,
>> directora Regional da Cultura do Alentejo, disse que os serviços
>> intervieram logo que tomaram conhecimento da operação de ripagem numa
>> parte de território de grande sensibilidade arqueológica. Os
>> promotores do projecto agrícola foram notificados pela DGPC para
>> pararem os trabalhos mas o pedido não foi respeitado.
>>
>> Ao mesmo tempo, foi dado conhecimento à autarquia e ao Ministério
>> Público de Beja para que fossem “suspensos de imediato os trabalhos em
>> curso”, para que pudessem ser aplicadas “medidas cautelares de
>> avaliação dos impactos no património arqueológico existente no local e
>> o estabelecimento de consequentes medidas de minimização dos mesmos”.
>>
>> O PÚBLICO procurou obter informações junto do Ministério Público mas
>> este apenas avançou que dera entrada no dia 31 de Agosto uma
>> “queixa-crime” contra a empresa visada pela DRCA e que “continuavam a
>> decorrer as investigações” sobre este caso.
>>
>> No terreno intervencionado observam-se abundantes fragmentos cerâmicos
>> e pedras trabalhadas, presumivelmente do período romano. E as
>> intervenções no terreno prosseguem. O espaço, tal como noutros que
>> foram lavrados e abertas valas para a colocação da tubagem do sistema
>> de rega, são o El Dorado para indivíduos munidos de detectores de
>> metais para a apanha de moedas antigas ou outro tipo de vestígios
>> metálicos. Há muita gente a sonhar com novos tesouros, à semelhança do
>> que foi descoberto em Baleizão em 2004.
>>
>> Foi isso que se passou na villa romana de Represas, próximo de Beja,
>> depois desta ter sido destruída para plantar olival, conta Miguel
>> Serra. Centenas de moedas, sobretudo do período romano, foram
>> recolhidas no local por indivíduos que depois negoceiam os achados.
>>
>> Também o arqueólogo Monge Soares não esconde a sua indignação pelo que
>> se está a passar, sobretudo na área de influência do Alqueva. E dá
>> exemplos dos estragos que já presenciou por causa da plantação de
>> olival e amendoal intensivo e superintensivo: há dois anos, na
>> freguesia de Baleizão, tinha encontrado dois pequenos fragmentos de
>> uma lápide e vestígios de ocupação desde o calcolítico até à idade
>> moderna. “Caterpílares envolvidos na limpeza e tratamento do terreno
>> para a plantação de amendoal destruíram tudo. Queixei-me à tutela que
>> superintende o património, mas nada foi feito”.
>>
>> Ainda em Baleizão, para a construção de um lagar de azeite,
>> “destruíram um sítio do período calcolítico e uma villa romana. E
>> continuam alegremente a destruir tudo sem qualquer critério ou
>> preocupação de salvaguarda patrimonial”, protesta o investigador,
>> agastado com a apatia do Ministério da Cultura.
>>
>> Lembra os vultuosos encargos (cerca de 20 milhões de euros) que a
>> Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva (EDIA) assumiu
>> para financiar os trabalhos de levantamento arqueológico que foram
>> realizados no âmbito do projecto do Alqueva para a instalação da rede
>> primária. No entanto, as “explorações agrícolas que instalam olival,
>> amendoal, vinha etc, abrem barrancos de drenagem das águas que atingem
>> profundidades equivalentes às que foram abertas para a instalação da
>> rede primária de rega mas não necessitam de acompanhamento
>> arqueológico”, observa Monge Soares, frisando que há uns anos, quando
>> exercia funções de responsabilidades no Ministério da Cultura, “sempre
>> que havia revolvimento de terras era necessário acompanhamento
>> arqueológico”. Hoje, qualquer agricultor que pretenda plantar as novas
>> monoculturas de olival, amendoal, vinha, montado, eucaliptos e
>> pinheiros está dispensado desta exigência.
>>
>> “O problema está do lado da tutela que não previne a salvaguarda do
>> património arqueológico”, acusa o arqueólogo Rui Mataloto, admitindo
>> que é “quase impossível plantar vinha sem destruir os achados”. Na sua
>> opinião, “o olival é, das novas culturas, a que provoca menos impacto”
>> porque a técnica de plantio “não implica intervenções profundas no
>> solo” a não ser na abertura de valas para a colocação das redes de
>> rega. “Mas sei de villas romanas profundamente afectadas pela ripagem
>> [operação de limpar e sulcar o solo], do terreno”, acentua.
>>
>> A experiência diz-lhe que é possível “conciliar o desenvolvimento
>> económico com a defesa do património” pelo que considera
>> “inacreditável” que “nunca se tenha acordado um protocolo que articule
>> as acções do Ministério da Agricultura e as diversas instituições do
>> património” de modo a acautelar as intervenções nos territórios de
>> maior sensibilidade patrimonial.
>>
>> Outra das lacunas referidas por Rui Mataloto reside na informação que
>> não chega aos proprietários das terras, que muitas intervêm com pleno
>> “desconhecimento” dos sítios arqueológicos que se encontram nas suas
>> explorações. Nos últimos 15 anos as instituições que têm por função a
>> salvaguarda do património “navegam à vista” e os problemas subsistem.
>>
>> Contactada pelo PÚBLICO, a De Prado escusou-se a prestar declarações."
>>
>>
>> https://www.publico.pt/2017/10/09/local/noticia/beja- ponte-romana-e-sitios- arqueologicos-foram- destruidos-para-plantar- amendoal-1787981
>>
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