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[Museum] INDIGNAÇÃO E RESPONSABILIDADE POLÍTICA

To :   "museum" <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] INDIGNAÇÃO E RESPONSABILIDADE POLÍTICA
From :   José d'Encarnação <jde@fl.uc.pt>
Date :   Fri, 10 Aug 2007 19:51:51 +0100

 
INDIGNAÇÃO E RESPONSABILIDADE POLÍTICA



Vasco Graça Moura
escritor       

O aparelho do Ministério da Cultura, incluindo o dos institutos que
dele dependem, tem vindo a cometer uma série de picardias que depois
são endossadas à ministra.

Obstina-se em pôr de lado algumas das figuras mais válidas que têm
passado por estruturas fundamentais da nossa vida cultural. Aconteceu
com Rui Pereira, no Instituto do Livro. Aconteceu com António Lagarto,
no D. Maria II. Aconteceu com Paolo Pinamonti, no S. Carlos. Agora,
chegou a vez de Dalila Rodrigues, no MNAA. Todos eles estavam a
transfigurar a apagada e vil tristeza das instituições que dirigiam...

A invocação de divergências quanto ao modelo de gestão passou a
constituir o leitmotiv burlesco das árias da ignomínia dessa opereta
institucional. Nenhum daqueles cargos é de confiança política. Nenhum
dos nomes referidos deixou de acatar as decisões da tutela ou violou o
dever de lealdade para com esta. Dois deles manifestaram discordâncias
de natureza organizativa, financeira e técnica, por estarem no terreno
e o conhecerem muito melhor do que outros. Era a sua obrigação. E a
própria transparência exigia que o fizessem às claras, para que se
perceba o que está em jogo e para não serem, depois, publicamente
responsabilizados pelo que viesse a correr mal. Uma das regras da
transparência é a discussão pública.

Bairrão Oleiro assume em declarações ao Expresso ter sido ele quem
tomou a decisão de afastar Dalila. Mantém-se em funções, não obstante
ter invadido competência própria da ministra. Esta é relegada para
segundo lugar no processo, a formalizar o que foi decidido por um seu
subordinado...

Aponta-se a um controlo ínvio das instituições da Cultura. Faz-se
tábua rasa de competência, da qualidade, da busca de soluções
inovadoras e bem sucedidas, da atracção crescente de novos públicos,
dos resultados obtidos graças à capacidade, ao prestígio e ao engenho
de quem soube fazer muito diferente e muito melhor, não obstante as
dificuldades enfrentadas, em especial as de natureza financeira e
burocrática.

Dalila é doutorada em História de Arte pela Universidade de Coimbra e
investigadora especializada em História da Pintura Portuguesa. Foi
professora coordenadora do Instituto Superior Politécnico de Viseu.
Tem uma longa carreira docente e participou em importantes projectos
de investigação.

É uma autoridade nacional e internacionamente reconhecida do ponto de
vista científico da sua disciplina, dos trabalhos especializados que
tem produzido sobre a pintura antiga, da sua competência na
Museologia.

Foi notabilíssima a sua acção à frente do Grão Vasco. E vinha a operar
uma autêntica revolução no MNAA, no que respeita à recuperação do
edifício e dos seus espaços degradados, à apresentação, rotação e
valorização do acervo, à realização de exposições, à inserção do museu
nos grandes circuitos e parcerias internacionais, bem como à atracção
de novos públicos para um património essencial à nossa identidade e à
nossa vida cultural.

Bairrão Oleiro considera o substituto de Dalila "amplamente
qualificado". Sem discutir os seus hipotéticos méritos, li algures
tratar-se de um licenciado em pintura, com um simples mestrado em
História da Arte Contemporânea e uma experiência à frente de museus
que não têm nada a ver com o estatuto, a importância, a dimensão, as
colecções e as necessidades do MNAA.

A ministra, que é professora catedrática da Universidade do Porto, não
achará suspeito o impalatável cozinhado que assim lhe é posto no
prato? Vai coonestar uma irresponsabilidade e um escândalo cultural
deste quilate?

A ministra actualmente assume a presidência da UE nos conselhos de
ministros do sector, e já proclamou lá fora estar plenamente de acordo
com a inclusão da Cultura como um dos pontos essenciais da Estratégia
de Lisboa. Vai deixar à mostra, cá dentro, que o seu ministério está a
dar cabo de tudo o que funciona com êxito e aplauso geral, no tocante
aos objectivos enunciados nessa agenda?

A enormidade é tal que o Presidente da República saiu da sua
parcimónia habitual para comentar negativamente este caso concreto!

Sou amigo de Isabel Pires de Lima, por quem tenho grande apreço
intelectual e a quem devo grandes atenções. Não lhe farei a injúria de
pensar que esses atropelos à boa gestão da Cultura, ao bom senso e à
decência tout court, foram congeminados por ela. Mas também não terei
a hipocrisia de admitir que a responsabilidade política por eles deixe
de ser sua...

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