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INDIGNAÇÃO E RESPONSABILIDADE POLÍTICA
Vasco Graça
Moura escritor
O aparelho do
Ministério da Cultura, incluindo o dos institutos que dele dependem, tem
vindo a cometer uma série de picardias que depois são endossadas à
ministra.
Obstina-se em pôr de lado algumas das figuras mais válidas
que têm passado por estruturas fundamentais da nossa vida cultural.
Aconteceu com Rui Pereira, no Instituto do Livro. Aconteceu com António
Lagarto, no D. Maria II. Aconteceu com Paolo Pinamonti, no S. Carlos.
Agora, chegou a vez de Dalila Rodrigues, no MNAA. Todos eles estavam
a transfigurar a apagada e vil tristeza das instituições que
dirigiam...
A invocação de divergências quanto ao modelo de gestão
passou a constituir o leitmotiv burlesco das árias da ignomínia dessa
opereta institucional. Nenhum daqueles cargos é de confiança política.
Nenhum dos nomes referidos deixou de acatar as decisões da tutela ou
violou o dever de lealdade para com esta. Dois deles manifestaram
discordâncias de natureza organizativa, financeira e técnica, por estarem
no terreno e o conhecerem muito melhor do que outros. Era a sua
obrigação. E a própria transparência exigia que o fizessem às claras,
para que se perceba o que está em jogo e para não serem, depois,
publicamente responsabilizados pelo que viesse a correr mal. Uma das
regras da transparência é a discussão pública.
Bairrão Oleiro
assume em declarações ao Expresso ter sido ele quem tomou a decisão de
afastar Dalila. Mantém-se em funções, não obstante ter invadido
competência própria da ministra. Esta é relegada para segundo lugar no
processo, a formalizar o que foi decidido por um
seu subordinado...
Aponta-se a um controlo ínvio das instituições
da Cultura. Faz-se tábua rasa de competência, da qualidade, da busca de
soluções inovadoras e bem sucedidas, da atracção crescente de novos
públicos, dos resultados obtidos graças à capacidade, ao prestígio e ao
engenho de quem soube fazer muito diferente e muito melhor, não obstante
as dificuldades enfrentadas, em especial as de natureza financeira
e burocrática.
Dalila é doutorada em História de Arte pela
Universidade de Coimbra e investigadora especializada em História da
Pintura Portuguesa. Foi professora coordenadora do Instituto Superior
Politécnico de Viseu. Tem uma longa carreira docente e participou em
importantes projectos de investigação.
É uma autoridade nacional e
internacionamente reconhecida do ponto de vista científico da sua
disciplina, dos trabalhos especializados que tem produzido sobre a
pintura antiga, da sua competência na Museologia.
Foi
notabilíssima a sua acção à frente do Grão Vasco. E vinha a operar uma
autêntica revolução no MNAA, no que respeita à recuperação do edifício e
dos seus espaços degradados, à apresentação, rotação e valorização do
acervo, à realização de exposições, à inserção do museu nos grandes
circuitos e parcerias internacionais, bem como à atracção de novos
públicos para um património essencial à nossa identidade e à nossa vida
cultural.
Bairrão Oleiro considera o substituto de Dalila
"amplamente qualificado". Sem discutir os seus hipotéticos méritos, li
algures tratar-se de um licenciado em pintura, com um simples mestrado
em História da Arte Contemporânea e uma experiência à frente de
museus que não têm nada a ver com o estatuto, a importância, a dimensão,
as colecções e as necessidades do MNAA.
A ministra, que é
professora catedrática da Universidade do Porto, não achará suspeito o
impalatável cozinhado que assim lhe é posto no prato? Vai coonestar uma
irresponsabilidade e um escândalo cultural deste quilate?
A
ministra actualmente assume a presidência da UE nos conselhos
de ministros do sector, e já proclamou lá fora estar plenamente de
acordo com a inclusão da Cultura como um dos pontos essenciais da
Estratégia de Lisboa. Vai deixar à mostra, cá dentro, que o seu
ministério está a dar cabo de tudo o que funciona com êxito e aplauso
geral, no tocante aos objectivos enunciados nessa agenda?
A
enormidade é tal que o Presidente da República saiu da sua parcimónia
habitual para comentar negativamente este caso concreto!
Sou amigo de
Isabel Pires de Lima, por quem tenho grande apreço intelectual e a quem
devo grandes atenções. Não lhe farei a injúria de pensar que esses
atropelos à boa gestão da Cultura, ao bom senso e à decência tout court,
foram congeminados por ela. Mas também não terei a hipocrisia de admitir
que a responsabilidade política por eles deixe de ser
sua...
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