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[Museum] Museologia e Reconstituição da Realidade a Musealizar

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Museologia e Reconstituição da Realidade a Musealizar
From :   "Pedro Manuel Cardoso" <pcardoso@sejd.gov.pt>
Date :   Mon, 20 Aug 2007 13:45:37 +0100

Assunto: Museologia e Reconstituição da Realidade a Musealizar

 

Tínhamos referido na mensagem de 16/08/2007 (15:36) intitulada “Museologia: Poderá o Objecto Museológico ser definido numa acepção diferente de Património” que a distinção conceptual entre objecto museológico e Património (objecto patrimonial) poderia trazer uma implicação metodológica ao trabalho museológico expressa em três etapas, consistindo a primeira em “transformar a reconstituição da Realidade no fundamento do trabalho museológico”.

 

O Dr. Pedro Redol em 17/08/2007 (16:11), com razão e pertinência, criticou esse aspecto, chamando a atenção para a subjectividade de um tal procedimento. Tentarei justificar com dois argumentos.

 

O primeiro, socorrendo-me do antigo contributo de Ferdinand Saussure — causador de quase todos os “estruturalismos”. Refiro-me à a célebre distinção entre significado e significante (e não interessa agora se por influência da obra publicada em 1891 por G. Gabelentz) na teoria do signo linguístico... “Aquilo a que chamamos adquirir experiência nada mais é do que dar sentido à realidade, torná-la significativa. O conhecimento e a consciência não passam além da significação” (J-A. Collado, 1980:71). Nesta perspectiva quando aqui nos referimos a Realidade restringimo-la apenas ao universo dos signos ou sistemas linguísticos que as actuais línguas objectivaram, numa relação arbitrária entre significante e significado e emitidos ou escritos com intenção de comunicar (no sentido de E.O. Wilson, 1975). Deste modo, para a finalidade da reconstituição museológica que mencionámos, Realidade pode ser definida como o conjunto de todas as categorias e signos linguísticos que as actuais Culturas/Sociedades conseguem exprimir e objectivar relativamente à Existência. E apenas essas. Assim, para reconstituir uma Realidade o museólogo procurará as palavras (caracteres e signos) que se encontram nos thesauri, dicionários, enciclopédias, listas de indexadores existentes nos arquivos e bibliotecas, etc.. E será apenas com elas que fragmentará a Realidade e construirá a lista dos elementos que permitem reconstitui-la, hierarquizando-os por tipos lógicos e por âmbito (o particular dentro do geral).

 

O segundo argumento consiste na apresentação de um exemplo prático retirado da “Realidade Desporto” — mas que poderia ser de outra qualquer. Assim, em função da incidência disciplinar e temática da realidade desportiva a identificação do acervo e dos bens culturais a incorporar são os que adiante se indicam, tendo em consideração a seguinte segmentação da Realidade Desportiva:

ESPAÇO

n    Espaço da motricidade e da biomecânica próprios a cada modalidade desportiva.

n    Espaço consignado socialmente (i.e., pelos regulamentos e normas) para a actividade desportiva (espaços, recintos e infra-estruturas desportivas).

n    Ambiente e meio envolvente onde se implantaram as práticas e os equipamentos e infra-estruturas desportivas (ambiental e cultural).

TEMPO

n    De duração dos eventos e da actividade desportiva.

n    Da actividade desportiva no contexto do calendário e dos ciclos sociais e culturais.

PRATICANTES

n    Idade, género, estatuto socio-profissional, proveniência geográfica.

n    Procura/oferta de actividades desportivas.

n    Tipo de prática (lazer, recreativa, rendimento; federada, não-federada; individual, colectiva, etc.).

PÚBLICO

n    Utência, comportamento, quantidade, sazonalidade.

ACTIVIDADE DESPORTIVA

n    Os factos e eventos desportivos.

n    As regras e normas (incluindo a arbitragem).

n    As técnicas e a tecnologia.

n    Os materiais e equipamentos.

n    Os espaços e as infra-estruturas desportivas.

n    A aprendizagem, a formação e o ensino.

ORGANIZAÇÃO DESPORTIVA

n    Legislação e jurisprudência.

n    Instituições públicas e privadas.

n    Medicina desportiva.

n    Movimento associativo (uniões, confederações, comités, federações, associações, colectividades e clubes).

n    Actividade empresarial e comercial e as industrias ligadas ao desporto.

REPRESENTAÇÃO E IMPACTO SOCIAL/CULTURAL

n    Arte, design, engenharia e arquitectura (bens móveis e imóveis).

n    Ciência e tecnologia ligadas ao desporto.

n    Literatura, publicações e edições relacionadas com a realidade desportiva.

n    Ciências sociais (história, antropologia, sociologia do desporto, e outras interpretações, significados e representações associadas ao desporto).

n    Coleccionismo e memorabilia (colecções, objectos, documentos e peças).

n    Comunicação social (televisões, rádio, imprensa, Web/Internet).

 

Este procedimento permitiria construir uma nova geração de “projectos museológicos” constituídos pelo seguinte núcleo central de objectivos:

  • Transformar o Museu numa organização capaz de responder — nos três contextos (passado, presente, futuro) — às seguintes perguntas feitas pelo Visitante relativas a essa fragmentação/reconstituição da realidade a musealizar: “o quê?”, “quem?”, “onde?”, “quando?”, “como?” “para quê?”, “porquê?”.
  • Perspectivar a realidade a musealizar de forma multidisciplinar, considerando em simultâneo e de modo integrado os aspectos bio-socio-culturais que a constituem e lhe dão sentido antropológico.
  • Perspectivar a realidade a musealizar como um facto que varia e muda no espaço e no tempo durante o percurso histórico das sociedades humanas.

 

Este procedimento poderia ser causador de alguma mudança. Não apenas porque permitiria que tivéssemos uma visão global do estado da “museologia de cada uma dessas realidades” (a nível nacional e internacional). Mas também porque permitia avaliar, nas colecções existentes actualmente no acervo dos diversos museus, qual a parte dos bens culturais dessa realidade estavam presentes e em falta. O que de imediato se repercutiria no planeamento e nas decisões de gestão do património relativo a essa Realidade a Musealizar (por um museu, por vários museus, por um país, etc.)

 

20/8/2007

Pedro Manuel Cardoso

 

 


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