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Assunto: Museologia e Reconstituição da Realidade a Musealizar
Tínhamos referido na mensagem de 16/08/2007 (15:36) intitulada “Museologia: Poderá o Objecto Museológico ser definido numa acepção diferente de Património” que a distinção conceptual entre objecto museológico e Património (objecto patrimonial) poderia trazer uma implicação metodológica ao trabalho museológico expressa em três etapas, consistindo a primeira em “transformar a reconstituição da Realidade no fundamento do trabalho museológico”.
O Dr. Pedro Redol em 17/08/2007 (16:11), com razão e pertinência, criticou esse aspecto, chamando a atenção para a subjectividade de um tal procedimento. Tentarei justificar com dois argumentos.
O primeiro, socorrendo-me do antigo contributo de Ferdinand Saussure — causador de quase todos os “estruturalismos”. Refiro-me à a célebre distinção entre significado e significante (e não interessa agora se por influência da obra publicada em 1891 por G. Gabelentz) na teoria do signo linguístico... “Aquilo a que chamamos adquirir experiência nada mais é do que dar sentido à realidade, torná-la significativa. O conhecimento e a consciência não passam além da significação” (J-A. Collado, 1980:71). Nesta perspectiva quando aqui nos referimos a Realidade restringimo-la apenas ao universo dos signos ou sistemas linguísticos que as actuais línguas objectivaram, numa relação arbitrária entre significante e significado e emitidos ou escritos com intenção de comunicar (no sentido de E.O. Wilson, 1975). Deste modo, para a finalidade da reconstituição museológica que mencionámos, Realidade pode ser definida como o conjunto de todas as categorias e signos linguísticos que as actuais Culturas/Sociedades conseguem exprimir e objectivar relativamente à Existência. E apenas essas. Assim, para reconstituir uma Realidade o museólogo procurará as palavras (caracteres e signos) que se encontram nos thesauri, dicionários, enciclopédias, listas de indexadores existentes nos arquivos e bibliotecas, etc.. E será apenas com elas que fragmentará a Realidade e construirá a lista dos elementos que permitem reconstitui-la, hierarquizando-os por tipos lógicos e por âmbito (o particular dentro do geral).
O segundo argumento consiste na apresentação de um exemplo prático retirado da “Realidade Desporto” — mas que poderia ser de outra qualquer. Assim, em função da incidência disciplinar e temática da realidade desportiva a identificação do acervo e dos bens culturais a incorporar são os que adiante se indicam, tendo em consideração a seguinte segmentação da Realidade Desportiva: ESPAÇO n Espaço da motricidade e da biomecânica próprios a cada modalidade desportiva. n Espaço consignado socialmente (i.e., pelos regulamentos e normas) para a actividade desportiva (espaços, recintos e infra-estruturas desportivas). n Ambiente e meio envolvente onde se implantaram as práticas e os equipamentos e infra-estruturas desportivas (ambiental e cultural). TEMPO n De duração dos eventos e da actividade desportiva. n Da actividade desportiva no contexto do calendário e dos ciclos sociais e culturais. PRATICANTES n Idade, género, estatuto socio-profissional, proveniência geográfica. n Procura/oferta de actividades desportivas. n Tipo de prática (lazer, recreativa, rendimento; federada, não-federada; individual, colectiva, etc.). PÚBLICO n Utência, comportamento, quantidade, sazonalidade. ACTIVIDADE DESPORTIVA n Os factos e eventos desportivos. n As regras e normas (incluindo a arbitragem). n As técnicas e a tecnologia. n Os materiais e equipamentos. n Os espaços e as infra-estruturas desportivas. n A aprendizagem, a formação e o ensino. ORGANIZAÇÃO DESPORTIVA n Legislação e jurisprudência. n Instituições públicas e privadas. n Medicina desportiva. n Movimento associativo (uniões, confederações, comités, federações, associações, colectividades e clubes). n Actividade empresarial e comercial e as industrias ligadas ao desporto. REPRESENTAÇÃO E IMPACTO SOCIAL/CULTURAL n Arte, design, engenharia e arquitectura (bens móveis e imóveis). n Ciência e tecnologia ligadas ao desporto. n Literatura, publicações e edições relacionadas com a realidade desportiva. n Ciências sociais (história, antropologia, sociologia do desporto, e outras interpretações, significados e representações associadas ao desporto). n Coleccionismo e memorabilia (colecções, objectos, documentos e peças). n Comunicação social (televisões, rádio, imprensa, Web/Internet).
Este procedimento permitiria construir uma nova geração de “projectos museológicos” constituídos pelo seguinte núcleo central de objectivos:
Este procedimento poderia ser causador de alguma mudança. Não apenas porque permitiria que tivéssemos uma visão global do estado da “museologia de cada uma dessas realidades” (a nível nacional e internacional). Mas também porque permitia avaliar, nas colecções existentes actualmente no acervo dos diversos museus, qual a parte dos bens culturais dessa realidade estavam presentes e em falta. O que de imediato se repercutiria no planeamento e nas decisões de gestão do património relativo a essa Realidade a Musealizar (por um museu, por vários museus, por um país, etc.)
20/8/2007 Pedro Manuel Cardoso
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