Lista museum

Mensagem

[Museum] Qual a relação da Museologia com o Património?

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Qual a relação da Museologia com o Património?
From :   "Pedro Manuel Cardoso" <pcardoso@sejd.gov.pt>
Date :   Mon, 20 Aug 2007 13:51:38 +0100

Assunto: Qual a relação da Museologia com o Património?

 

Por detrás da definição dos conceitos de “objecto museológico”, “objecto patrimonial”, “processo de musealização” e “qualidade patrimonial” está uma questão que me parece fundamental no actual momento. A relação da Museologia com o Património. Em Portugal, a Museologia intervém em todos os domínios, sectores e departamentos relativos ao Património como deveria intervir à luz das orientações e recomendações nacionais e internacionais em vigor? Está neles representada suficientemente? Qual é efectivamente a relação entre a Museologia e o Património?

 

Por causa desta questão valerá a pena clarificar os conceitos:

1 – Consideremos numa sala duas mesas iguais, uma ao lado da outra.

Em cima da “Mesa 1” coloco um Objecto Patrimonial (por exemplo um cálice, uma enxada, uma pintura, o Mosteiro dos Jerónimos, ou um qualquer bem cultural classificado pelas leis de um país como sendo “património nacional”).

Em cima da “Mesa 2” coloco todo o trabalho museológico feito relativamente a esse “objecto patrimonial” (portanto tudo o que foi feito e produzido ao nível da investigação, do estudo, da preservação, da documentação, da comunicação, etc. relativamente a esse “objecto patrimonial”, tomando por referência aquilo que a Lei-Quadro dos Museus Portugueses e o ICOM definem como sendo as funções museológicas).

 

2 – A operação (simultaneamente conceptual e prática) que agora faço é pôr um invólucro nisso tudo que está na “Mesa 2”. Ou seja, perspectivar tudo isso que está na “Mesa 2” como uma unidade lógica e coerente de trabalho directamente associada ao que está na “Mesa 1”, não deixando que se dilua num conjunto genérico de outros trabalhos ou funções museológicas a respeito de outros objectos patrimoniais. A tudo o que está na “Mesa 2” eu chamo o “Objecto Museológico do Objecto Patrimonial da Mesa 1”. E assim sucessivamente para todos os bens culturais considerados Património.

 

3 – Deste modo, verificamos empiricamente que o que está nas duas mesas é diferente. E nesse sentido posso afirmar que são dois “objectos” diferentes. O da Mesa 1 representa o Património, o da Mesa 2 representa a Museologia.

 

4 – Agora, ao que está na “Mesa 2”, façamos cumprir um programa de trabalho com as seguintes oito exigências (ou resultados):

i) Conseguir gerir o processo pelo qual o objecto/documento que está na Mesa 1 se transformou num bem ou valor patrimonial. Conseguir gerir o processo de transformação patrimonial – dito de musealização ou de patrimonização – através do qual esse objecto/documento adquiriu a identidade e o estatuto de património.

ii) Conseguir que o objecto/documento que está na Mesa 1 seja preservável no presente e no futuro;

iii) Conseguir tornar o objecto/documento que está na Mesa 1 documentável, pela biblioteconomia e arquivologia presente e futura;

iv) Conseguir tornar esse objecto patrimonial que está na Mesa 1 transmissível, comunicável e divulgável aos presentes e vindouros;

v) Conseguir em cada uma de todas as épocas tornar consciente, em termos teóricos e metodológicos, o processo de musealização do objecto/documento que está na Mesa 1;

vi) Conseguir obter um “objecto museológico” equivalente a esse objecto patrimonial da Mesa 1. Conseguir reconstruir, restituir ou replicar esse objecto patrimonial da Mesa 1 a qualquer momento, no presente e no futuro, incluindo a oralidade e a gestualidade;

vii) Conseguir construir, em relação a esse objecto patrimonial, uma memória exterior, melhor do que a detida pelas capacidades individuais.

viii) Tornar estas sete exigências na tarefa profissional em que se especializariam os museólogos.

 

5 – Com estas oito exigências ousemos criar (construir) uma função matemática que as torne nas variáveis de uma equação que seja uma espécie de “Índice da avaliação do trabalho museológico para cada objecto patrimonial”. Qualquer coisa como o seguinte:

 

ITM =ƒ { IP . ID . IC }

               C.T + C.R

 

ITM - Índice da avaliação do trabalho museológico para cada objecto patrimonial.

IP - Índice de Preservação.

ID - Índice de Documentação.

IC - Índice de Comunicação.

C.T - Coeficiente de transmissão.

C.R - Coeficiente de restituição/reconstituição.

 

6 – Se amanhã soubéssemos que ocorria um sismo que destruiria alguns dos bens culturais que identificam e afirmam a Cultura Portuguesa, em que estado estavam neste momento os objectos museológicos correspondentes a cada um desses objectos patrimoniais ?

Tinham lá o modo (as instruções) que permitiam a outros reconstituir e restituir o objecto patrimonial? E o objecto museológico permitia restituir a gestualidade e a oralidade do objecto patrimonial? Apesar das inúmeras visitas, das inúmeras exposições, das inúmeras intervenções preventivas e curativas, das fotografias, das fichas de inventário, etc. o objecto museológico era suficiente para permitir alcançar o verdadeiro objectivo da Museologia?

O trabalho museológico será ficar apenas a contemplar a “Mesa 1” gerindo a inevitabilidade da entropia; ou a espera de um incêndio, de um roubo, ou de um sismo, etc.? Ou deverá ser focado, e ter muito mais a ver com a possibilidade de restituir o “objecto patrimonial” aos presentes e vindouros, exigindo para isso que o que está na “Mesa 2” seja no mínimo o algoritmo da possibilidade de restituição desse “objecto patrimonial”? Para cumprir esta nova exigência que aqui se propõe, o que está na “Mesa 2” (objecto museológico) não exigiria uma outra orientação (objectivos e metodologia de trabalho)?

 

7 – São perguntas deste tipo que nos poderão dar consciência sobre os limites das actuais definições de museologia e das orientações tradicionalmente referidas para o trabalho museológico. Julgo que os avanços da ciência e a mutação tecnológica que estamos a assistir colocarão novos desafios às tarefas de “preservar-documentar-comunicar” em Museologia. Em que a transmissibilidade e a transferência de informação entre suportes (codificação, armazenamento....) será crucial para a sobrevivência e afirmação das Culturas. Esta proposta — de orientar o trabalho do museólogo para a construção de um objecto museológico para cada objecto patrimonial — julgo que permitiria adquirirmos, caso a caso, uma avaliação e um controlo mais rigoroso sobre o estado actual e os resultados a atingir no trabalho museológico.

Permitiria definir com mais rigor e clareza quais as tarefas que cumprem à profissão de museólogo, e quais as suas responsabilidades especificas perante o Património que os desafios do presente e do futuro nos trarão. Sobretudo os desafios que a Cultura Portuguesa irá defrontar num mundo definitivamente globalizado, onde os blocos linguísticos e económicos se estão a concentrar para um novo patamar de competição.

 

20/08/2007

Pedro Manuel Cardoso

 

 


Mensagem anterior por data: [Museum] Museologia e Reconstituição da Realidade a Musealizar Próxima mensagem por data: [Museum] Museologia Léxico Museu da Gestualidade
Mensagem anterior por assunto: [Museum] Propostas de valorização das ruínas arqueológicas Próxima mensagem por assunto: [Museum] QUEM MATOU O GATO DE SCHRÖDINGER? | 13 DE DEZEMBRO (20H30)