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Re: [Museum] O MAAT E A PONTE DE BELÉM - Reflexões sobre as Palavras do Pedro Manuel Cardoso

Subject :   Re: [Museum] O MAAT E A PONTE DE BELÉM - Reflexões sobre as Palavras do Pedro Manuel Cardoso
From :   Vitor Oliveira Jorge <vitor.oliveirajorge@gmail.com>
Date :   Thu, 6 Oct 2016 22:48:56 +0100

Boa noite
Estive ontem, com esforço devido à multidão e ao que tive de caminhar, na abertura do novo museu.
É óbvio que se trata de um conceito novo, na escala e nos objectivos, é óbvio que o podemos considerar como tipicamente pós-moderno, é óbvio que há ali muita coisa a melhorar (desde logo os acessos por cima da linha férrea, etc.), mas é óbvio para mim que este núcleo da iniciativa da EDP é importante para Lisboa, e vem completar uma série de iniciativas que têm valorizado sobremaneira a zona carismática de Belém, a que estou ligado desde a minha infância (foi no actual Museu Nacional de Arqueologia, que frequentei desde pequenito, que escrevi integralmente a minha tese de licenciatura, defendida em 1972) : Centro Cultural de Belém, uma obra excelente de arquitectura (que quando foi inaugurado também suscitou muita polémica), novo Museu dos Coches (de que gosto bastante, mau grado muitas opiniões em contrário, que naturalmente respeito), Museu da Electricidade angora enriquecido com este fantástico "anexo", etc. Isso, a juntar à beleza da nossa Praça do Comércio, uma das mais belas praças neoclássicas da Europa, e à valorização inequívoca que representou a Expo 98, faz da vida à beira-Tejo, em Lisboa, neste momento, um privilégio. Só tenho pena, evidentemente, de não ter condições económicas para aí residir, perto dos Jerónimos, Torre de Belém, Museu de Etnologia (que devia ser mais dinamizado), Palácio da Ajuda, Museu do Oriente, Museu Nacjonal de Arte Antiga, enfim toda uma série de pólos que fazem de Lisboa, com o seu rio e a animação que ali se verifica, uma das mais belas cidades da Europa.
Cordiais saudações aos que concordarão comigo e aos que eventualmente discordarem. Não me anima a polémica, mas o amor a Lisboa, cidade onde nasci há 68 anos, e da qual, por razões profissionais, estive afastado décadas.
Vítor Oliveira Jorge
Instituto de História Contemporânea, FCSH-UNL. Professor aposentado da Faculdade de Letras do Porto (DCTP).

Em 6 de outubro de 2016 10:45, <pedropereiraleite@ces.uc.pt> escreveu:
Acordei estremunhado deste 5 de outubro, de novo dia feriado, para nos
fazer relembrar desse primeiro dia “res publicano”, desse outro ano de
1910, onde um punhado de republicanos, de fartos bigodes, barricados
numa rotunda enlameada, empunhado fuzis e canhões, proclamavam uma
novo regime, fundado na “ordem” e no “progresso”.

Olhei as notícias. Lá em Nova York, o nosso Gueterres feito “quase”
sucessor de Ban Ki-moon na ONU, de onde regressou o nosso bom amigo
Pedro Cardoso, onde apresentou o “Lexico de Patrimonologia” um
trabalho que tem vindo a fazer desde há alguns meses, e que tenho
seguido aqui com agradável leitura.

Dizia eu que Pedro, ao regressar da cidade que nunca dorme, escrevia
uma notas sobre o novo museu do Tejo. Melhor indignava-se, no sentido
do despertar da polémica, sobre as ausências de políticas publicas
para a cultura nesse “complexo museológico” que é a “Frente Ribeirinha
de Belém em Lisboa”.

Ao mesmo tempo, num canal da Televisão, era entrevistado o Presidente
da emblemática Junta de Freguesia de Belém, que justificava a
necessidade de encerramento, por razões de segurança, do passadiço que
atravessa a linha de caminho de ferro, devido ao forte fluxo de peões
de ontem. O motivo era o acesso ao novo MAAT. (Museu de Arte
Arquitetura e Tecnologia) que a EDP promoveu na área adjacente ao
Museu da Eletricidade.

O MUUT e o passadiço são o melhor exemplo das nossas políticas
culturais, ou melhor da sua ausência, contra o qual o Pedro Cardoso
polemiza.

Dou-lhe razão. O museu não passa duma casca de ovo. Duvido mesmo que
museu seja a melhor palavra para a luxuosa galeria. Feito para
deslumbrar o olho e satisfazer os patêgos do burgo, repares-se não tem
projeto museográfico.
É certo que foram buscar um curador competente, que fará o que puder.
O edifício não serve para expor. As sua paredes arredondadas não
permitem outra coisa se não as tecnologias. Mas na verdade isso é
pouco relevante. O importante mesmo é atrair pessoas. Clientes como
agora se chama aos consumidores de cultura. (Sim eu sei que ainda se
usa os públicos).
Todos sabemos que o que foi importante foi marcar a afirmação da
apropriação do espaço, como o Pedro Cardoso escreveu. E isso é que é o
sentido da narrativa arquitectónica. Um espaço global, para
consumidores globais. O Tejo, a nação o território, os portugueses não
são narrativas constitutivas. Somos apenas cenários.

O por isso não há políticas públicas para a cultura. Quem define o que
se faz, quem pode fazer são as corporações. O Estado deixou de se
procurar afirmar e de mobilizar recursos para o que quer. Apenas para
o que pode e para onde é "aconselhado".

Em suma as políticas públicas são hoje somatórios de interesses
“privados”, corporativos. Os poderes públicos, aqueles que os
republicanos procuraram dar “ordem e progresso” à uma centena de anos
atrás, olham agora deslumbrados para mais esta iniciativa dos
dinâmicos empresários. É certo que não previram os acessos. Um pequeno
detalhe na cidade e no instalado caos de  Belém. Nem sequer fizeram os
trabalhos de casa, o que é revelador da sua competência.

Ficamos à espera do separador do corredor central na avenida da índia.
De mais árvores, de relva entre os parqueamentos automóveis, de
algumas palavras de circunstância do dinâmico edil da cidade, e do tal
novo passadiço.

A propósito alguém sabe do tal projeto museográfico para os Coches?  o
que vai acontecer no CCB, que tanto estrondo deu no início da
legislatura?. Será que já retiraram as floreira dos brazões coloniais
? E quando começam as obras na Ajuda ?

Nos últimos anos as políticas públicas culturais  para o complexo
museológico de Belém parece terem-se ficado pelo “bilhete único”. O
resto são obras.

O único problema de toda esta questão é que tudo se continua a passar
sem que haja uma discussão para uma agenda da cultura para Belém que
se confronte com a agenda turística. Uma discussão de quem se
posiciona na cultura.  Talvez devêssemos olhar mais para aqueles nosso
avós de bigode. Bem é certo que estava mais gente em Belém do que na
Praça do Município.



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