[Museum] Publicações em português vs publicações em inglês
Nos últimos dias tem sido abordado nesta e noutras listas o problema
com que se defrontam as Humidades relacionado com, por um lado, a
importância da publicação nas línguas nacionais, neste caso o
português, e, por outro lado, a desvalorização das publicações nessas
línguas e a valorização apenas das publicações em inglês por parte de
diversas instituições e entidades.
Ainda que o problema se possa colocar exactamente dessa forma, ou
seja, publicações em português versus publicações em inglês, parece-me
que o problema principal, ou primeiro, e, tanto quanto sei, aquele que
resulta aplicação dos critérios dessas instituições e entidades, não é
esse, mas sim se se trata ou não de publicações internacionais, sendo
estas definidas pela inclusão ou não em determinadas bases de dados,
nomeadamente as da Web of Science/Web of Knowledge (actualmente da
Thompson Reuters) e da Scopus (Elsevier).
É certo que as publicações que constam dessas bases de dados (e de
outras com algum reconhecimento mais limitado, como a ERIH PLUS) são
predominantemente em inglês, mas a publicação em inglês não é um
factor determinante da admissão nas mesmas.
Posso dar o exemplo concreto da revista de que sou director – a
“Conservar Património”, publicada pela Associação Profissional de
Conservadores-Restauradores de Portugal. Tal como foi declarado logo
no editorial do primeiro número, de 2005, a revista, ainda que
publique noutros idiomas (entre os quais o inglês e o castelhano),
privilegia a utilização da língua portuguesa, sendo em português a
maior parte dos artigos já publicados durante estes mais de 12 anos
(há poucos dias saiu o volume 25, com data de capa de Junho de 2017).
No entanto, a revista está indexada na Scopus (que ontem publicou uma
métrica, relativa às revistas que constam da mesma, que a coloca na
21.ª posição das 53 revistas da área da Conservação e na 13.ª posição
das 37 revistas de Museologia), há poucos dias foi admitida na
plataforma SciELO (que dá origem de uma das bases de dados que integra
a Web of Science/Web of Knowledge, e está incluída noutras bases de
dados internacionais, sejam mais gerais (como a mencionada ERIH PLUS –
European Reference Index for the Humanities and the Social Sciences),
sejam específicas da Conservação e Restauro (como a AATA – Abstracts
of International Conservation Literature, do Getty Conservation
Institute, onde foi admitida logo no primeiro ano de publicação). A
lista completa (até agora, pois está-se a aguardar os resultados de
outras candidaturas) está disponível em
http://revista.arp.org.pt/pt/bd.html.
Como a “Conservar Património”, há outras revistas portuguesas que
publicam predominantemente em português que estão indexadas nessas
bases de dados internacionais. Só na SciELO Citation Index da Web of
Science/Web of Knowledge estão neste momento indexadas 44 revistas
portuguesas em actividade, algumas das quais, especialmente da área
das Humanidades, publicam em português.
Portanto, é esse o meu ponto, publicação em português não implica
exclusão das bases de dados internacionais e, consequentemente, não
implica desvalorização por aplicação dos critérios das instituições e
entidades que avaliam a produção científica das diferentes áreas.
No entanto, há um problema relacionado com essas bases de dados que
não me pareceu ter sido referido: as bases de dados internacionais são
dedicadas quase exclusivamente a publicações em revistas, deixando de
fora as publicações não periódicas, ou seja, os livros – que nas
Humanidades têm uma importância fundamental. Mas esse é outro problema
– e não tem nada que ver com a questão do inglês, pois afecta qualquer
área que nos livros tenha uma das principais formas de publicação,
independente do idioma de publicação.
(Aproveito para recordar que a “Conservar Património”, ainda que
dedicada à Conservação e Restauro, tendo em conta que actualmente esta
disciplina tenta desenvolver-se através da colaboração com outras
áreas, está aberta a contribuições com qualquer outra proveniência
desde que incidam sobre a as múltiplas dimensões das obras que
constituem o Património Cultural, designadamente, contribuições das
áreas da História da Arte, Arqueologia, Museologia, Química, Física,
Biologia ou outras.)
António João Cruz
Director da revista "Conservar Património"