Ao meu Amigo Pedro Pereira Leite também vai daqui um abraço. Os assentos na Universidade que partilhámos foram longos, e deixaram saudade. Mas, regressemos à questão. O Debate que o ICOM-Portugal realizou foi insuficiente (pelas razões que aduzi). E é pena que assim seja. Temo que o ICOM-Portugal se tenha deixado ficar refém das relações pessoais e administrativas com a Tutela do Estado. Porque não é essa a missão nem a deontologia que esteve na origem do ICOM no seio da UNESCO. O ICOM-Portugal devia liderar a Mudança que atualmente está a ocorrer (antecipar, informar, e tomar iniciativas), e propor Soluções para os problemas da Gestão do Património. E não é isso que está a fazer. Por exemplo, a dita “Descentralização/Desconcentração” proposta pelo Governo Português é uma nítida estratégia de desresponsabilização e de diminuição de Recursos para o Património. Que não tem em consideração uma análise profissional e rigorosa às premissas do Contexto e do Enquadramento desejadas pela União Europeia para o Desenvolvimento. A atual Política Pública de Património em Portugal é uma verdadeira geringonça. Perante a qual o ICOM-PT cala e consente. Perante esta inércia não será legítimo perguntar: «Será que o ICOM-Portugal estará prisioneiro dos interesses e melindres pessoais que poderiam pôr em causa os lugares conquistados na hierarquia da Administração Pública?». É insuficiente e não-produtivo debater (as «Leis-quadro», as «descentralizações/concentrações», os «desenhos burocrático-administrativos», a «situação nos museus», os «recursos e as competências», e os «outros assuntos que têm sido debatidos») sem olhar para o que se passa à nossa volta. Sem olhar para o que está a ocorrer, não apenas a nível regional, nacional, ou na União Europeia, mas também a nível mais global (OCDE, ONU, UNESCO). É tão importante a árvore como a floresta. Tão importante a gestão no nível local como a gestão a um nível mais global. São duas coisas diferentes; porém, estabelecem entre si uma relação de interdependência que não pode ser esquecida ou menosprezada. Foi por isso que insisti na necessidade de se olhar para o nível do «Enquadramento e de Contextualização». Porque é esse que está mais frágil, e sobre o qual quase ninguém ousa tocar. Por ser difícil perante a atual situação política, social, e económica, administrativa. A «regra e o esquadro» que traçam hoje as «Fronteiras desejáveis para o Mundo que se pretende construir por quem tem Poder» (Fundos Internacionais, Clubes de Sábios, e Agências de Notação, etc.) é visível no modo como o Eurostat divide (fragmenta) aquilo a que chama «Europa». São essas 98 partes («regiões») correspondentes ao NUT que estabelecem a fragmentação desejada. Desejada, para ser possível uma regulação política acima do atual poder dos Estados (Países). Se se analisar com minucia essa lógica de fragmentação verifica-se que a escala e a dimensão consideradas governáveis em termos económicos correspondem a territórios capazes de forjar uma riqueza próxima dos 200 mil milhões de euros (ou mais), com uma população entre os 5 e 20 milhões de habitantes, no máximo com duas Metrópoles (Grandes Cidades). São essas as Regiões que se pretendem construir, para ser possível governar politicamente a «União Europeia» (destituindo o poder dos Estados). Portugal (ou a Catalunha) preenchem esses requisitos, logo, não é cá que ocorrerão grandes mudanças. Ora, é neste «Contexto e Enquadramento» que se deveria discutir a Reforma da Política Pública de Património em Portugal (as descentralizações, as redes de museus, a delegação de competências, os níveis hierárquicos, a distribuição de recursos, o perfil dos dirigentes e técnicos, os procedimentos de contratação e de contratualização, os graus de autonomia, etc.). Uma discussão para a qual tenho vindo a contribuir. Por exemplo, a nível local, para a vida concreta dos museus e da gestão do património, na perspetiva de convergência entre museologia, arquivologia, biblioteconomia, documentação, propus um corpus teórico e metodológico (que designei por “Léxico de Patrimologia”). E, para ser possível fazer uma avaliação quantificada do sucesso dessa gestão, propus uma ferramenta:
É necessário ter muito cuidado com a FRAGMENTAÇÃO que está a ocorrer nos «Estados que decidiram abdicar da sua soberania em favor dessa entidade abstracta e fantasiosa chamada União Europeia». Como referi em mensagens anteriores (por exemplo, n.º 17724) há uma relação matemática (correlação) entre a UNIDADE e a DIVERSIDADE que obriga a uma Política correta de PROPORÇÃO e INTERDEPENDÊNCIA. Sem essa gestão entre as porções e as proporções arriscamo-nos a perder a Identidade e o sentido-de-Projeto para a vida colectiva. Logo, arriscamo-nos a perder o rumo e a definição correta dos objetivos na Gestão do Património em Portugal. É esse problema que está a provocar os conflitos, e desafia o nosso Presente e Futuro. Mas também é ele que está a afectar as «faltas de orçamentos e recursos para determinados Patrimónios e museus, em favor de Outros». Logo, quando se Debatem as «Leis-quadro», as «descentralizações/concentrações», os «desenhos burocrático-administrativos», a «situação nos museus», os «recursos e as competências», etc… sem os relacionar com esse «Contexto e Enquadramento» não se está a contribuir para muito. E poder-se-á estar a ficar refém de interesses que manipulam o Património e os seus representantes em favor de uma Política desadequada (geringônssica), cuja finalidade é apenas aliviar Responsabilidades e o Orçamento. Não seria desejável que o ICOM-Portugal, num momento como este, adoptasse uma postura mais distanciada, objetiva, e assertiva? Pedro Manuel-Cardoso |
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