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Nota de Imprensa INSTITUTO TERRA E MEMÓRIA – INSTITUTO POLITÉCNICO DE TOMAR – CENTRO DE GEOCIENCIAS DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA A ARTE NÃO É SOMENTE OBRA DOS HOMO SAPIENS: OS NEANDERTAIS PINTAVAM GRUTAS Novas datações realizadas em pinturas rupestres paleolíticas em três grutas em Espanha (Maltravieso - Cáceres, Extremadura -, La Pasiega - Puente Viesgo, Santander
-, e Ardales – Ardales, Málaga) mostram que estas foram realizadas há mais de 66 mil anos num período de tempo em que apenas os Neandertais ocupavam a Europa.
Usando o método de datação por Urânio-Tório, uma técnica de datação de ponta, num estudo publicado na revista Science por uma equipa internacional coordenada
pelo Dr. Chris Standish, Dr. Andy Milton e pelo Professor Alistair Pike da Universidade de Southampton e com o qual o ITM/CENTRO DE GEOCIÊNCIAS participou através dos seu investigador Hipólito Collado, mostrou que as pinturas das cavernas datam de mais de
20.000 anos antes da nossa espécie ter surgido na Europa. Os resultados, publicados ontem na revista
Science, são significativos porque fornecem evidências muito fortes de como os Neandertais se comportavam simbolicamente e demonstram que, nesse domínio, eles estavam muito próximos dos nossos próprios comportamentos. Alistair Pike, da Universidade de Southampton, que co-dirigiu o estudo, diz o seguinte: “Logo após a descoberta do primeiro fóssil no século XIX, os Neandertais
foram retratados como brutais e incultos, incapazes de produzir arte e de ter um comportamento simbólico, e alguns aspetos desse ponto de vista persistem até hoje. A questão do comportamento “humano” dos Neandertais é um assunto muito debatido atualmente.”
A cultura material simbólica, uma coleção de conquistas culturais e intelectuais transmitidas de geração a geração, até agora foi atribuída de forma convincente
apenas à nossa própria espécie, o Homo sapiens. “O surgimento da cultura material simbólica representa um limiar fundamental na evolução da humanidade. É um dos pilares do que nos torna humanos” afirma um dos autores principais Dr. Dirk Hoffman do Instituto
Max Planck de Antropologia Evolutiva (MPI-EVA) na Alemanha. “Os artefactos cujo valor funcional não é medidos pela sua função, mas sim pelo seu simbolismo, são proxies para os aspectos fundamentais da cognição humana como a conhecemos ". Os primeiros artefactos simbólicos, como as conchas com restos de pigmentos usadas como ornamento corporal, estão documentados para o Paleolítico Médio da África
do Norte e Sul desde há 100.000 anos atrás, mas estão associadas aos primeiros membros da nossa própria espécie. Há evidências na Europa de arte das grutas, figuras esculpidas, ferramentas em osso decoradas e jóias feitas de osso, dentes, marfim, conchas ou
pedra que remontam à "Revolução do Paleolítico Superior" após 40.000 anos atrás.
Esses artefactos, segundo os investigadores, foram criados por populações pioneiras de humanos modernos enquanto se espalham pela Europa ao chegarem de África
e do Próximo Oriente. Mesmo quando há evidências do uso de ornamentos corporais por parte dos Neandertais na forma de dentes e ossos de animais perfurados, que datam da cultura
Chatelperronense do sudoeste da Europa há cerca de 40.000 a 45.000 anos atrás, muitos investigadores sugeriram que esta não era uma inovação Neandertal independente,
mas que terá sido inspirada pelo contacto com os humanos modernos recém-chegados.
A arte das cavernas é um exemplo muito mais claro e convincente do comportamento simbólico. Até agora, no entanto, foi atribuída inteiramente aos humanos modernos
e a reivindicação de uma possível origem Neandertal (uma linha de investigação que tem sido apoiada por um pequeno grupo de investigadores, incluindo Hipólito Collado) foi prejudicada por falta de métodos de datação precisos. As tentativas de datação das pinturas
rupestres pelo radiocarbono têm sido problemáticas, por vários motivos: as amostras de radiocarbono de pigmentos são propensas à contaminação e podem fornecer estimativas falsas sobre a sua antiguidade; a remoção de amostras de carvão necessárias para este
método também é visivelmente destrutiva para a arte rupestre. Além disso, muitas das pinturas são feitas com pigmentos minerais, como ocre, que não contêm material orgânico datável.
Em vez desse método, a equipa usou o método de datação por urânio-tório. O principal autor do estudo, Chris Standish, da Universidade de Southampton, diz: "Nós
estamos a datar depósitos de carbonato semelhantes a pequenas estalagmites que se formaram em cima das pinturas rupestres. Estes contêm vestígios de urânio radioativo e tório, que nos dizem quando estes depósitos se formaram. Uma vez que os depósitos estão
no topo, eles nos dão idades mínimas para as pinturas". Os investigadores do Reino Unido, Alemanha, Espanha, Portugal e França analisaram mais de 60 amostras de carbonato de três grutas diferentes de Espanha: a gruta
de La Pasiega, no Nordeste, a gruta de Matravieso no Oeste e a gruta de Ardales no sul de Espanha. Todos os três sítios contêm pinturas principalmente em vermelho (ocre), e ocasionalmente em preto, que mostram grupos de animais, pontos e sinais geométricos,
silhuetas de mãos, impressões de dígitos e gravuras. Standish afirma: “Estes resultados das datações mostram que estas são as pinturas em gruta mais antigas de qualquer lugar em pelo menos 20 mil anos, realizadas antes da chegada dos humanos modernos à
Europa. A arte das grutas deve, portanto, ter sido criada por Neandertais”. Esta primeira fase de pinturas rupestres agora conhecida, foi criada exclusivamente com pigmentos vermelhos, e compreende linhas, pontos, discos e silhuetas de mãos, todos aparentemente
realizadas diretamente com as mãos. De acordo com os investigadores, a criação destas pinturas rupestres envolveu o planeamento de uma fonte de luz, a mistura de pigmentos para colorir as paredes e a escolha de uma localização adequada. “Os Neandertais
estavam claramente a criar símbolos com significado em lugares com significado. Esta arte rupestre não é foi acidente nem um graffiti aleatório” afirma Paul Pettitt, da Universidade de Durham, também membro da esquipa e especialista em arte de grutas.
“Nós temos exemplos de três grutas que estão a 700km de distância umas das outras e evidenciamos que esta era uma tradição de longa duração na qual os Neandertais foram os primeiros humanos a deixar marcas significativas e permanentes nas profundidades
das grutas. É possível que em outras grutas da Europa Ocidental com arte rupestre semelhante e, por tanto tempo assumida como o trabalho da nossa espécie, também tenha sido criação dos Neandertais.”
Finalmente, Hipólito Collado, membro do ITM e do Centro de Geociências, e docente convidado do IPT, afirma: “De acordo com os resultados obtidos, o comportamento
simbólico não pode ser considerado apenas e exclusivamente do Homo Sapiens. Em Maltravieso, gruta que preserva um dos melhores grupos de silhuetas de mãos da Península Ibérica, algumas destas foram datadas de há mais de 70.000 anos. Isto implica admitir que
as silhuetas de mãos mais antigas do mundo foram encontradas nesta pequena gruta da província de Cáceres. Aqui, há mais de 66 mil e 700 anos atrás, os Neandertais aperceberam-se da sua própria identidade e deixaram nas paredes de Matravieso aquilo que mais
nos identifica como humanos: a impressão da nossa própria mão.” Mais informações: https://news.nationalgeographic.com/2018/02/neanderthals-cave-art-humans-evolution-science/#close http://science.sciencemag.org/content/359/6378/912
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