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Eis um belo
Debate, a propósito da pretensa Arte em Neandertais e Sapiens sapiens.
As mensagens que recebemos mostram a pertinência e a atualidade deste
Debate. Logo, demonstram o importante contributo da Museum Lista enquanto plataforma de partilha e diálogo, aberta ao escrutínio público, à liberdade, e à permissão das diferenças-de-opinião.
Permitam que recue um pouco na «topologia dos
Fenomena» para que se entenda melhor a questão do dito “Pensamento Simbólico”.
Porque
a montante deste Debate está esse problema. É ele que afecta os pré-juízos, os mal-entendidos e as incorreções que ocorrem
a jusante. Refiro-me à concepção/definição daquilo que se denomina por “Simbólico”. Ou seja, aquilo que
cada-parte-no-Debate escolhe para responder à pergunta: «o que é o simbólico?».
Em maio de 2006 tínhamos tentado que o Museu Nacional de História Natural fizesse uma Exposição intitulada por “Pôr em Código”.
Uma proposta que foi muito bem acolhida, mas que se gorou (ver ANEXO). Nela era exatamente este problema que nos propúnhamos debater com
xs Visitantes e com as diferentes comunidades de Pessoas.
Concretamente, a consciência de que a
infraestrutura metabólica, perceptiva, e cognitiva do Ser-humano obriga-o a «Pôr Tudo em Código» (ARN, ADN, etc.). Logo,
obriga-o a percepcionar e a pensar simbolicamente queira ou não.
Porém, essa
infraestrutura codificadora e simbólica existe noutros seres-vivos muito anteriores a
Sapiens. Provavelmente começou a desenvolver-se a partir dos Eucariontes, há mais de dois mil milhões de anos. Assim sendo, afirmar que o “pensamento simbólico” é uma criação humana, ou é isso que estabelece uma fronteira entre aquilo que
é Humano e não é, torna-se um facto não provado em termos científicos.
Porque
uma coisa é usar e fazer funcionar (comportamento consciente); outra coisa é aquilo a partir do qual esse uso e esse funcionamento deriva (infraestrutura metabólica, perceptiva e cognitiva). São duas coisas (variáveis) diferentes.
Se a infraestrutura não funcionasse por codificação e por processamento simbólico alguma vez seria possível o dito “pensamento simbólico”? Logo, quem sabe com exactidão em que momento essa infraestrutura começou a expressar-se em comportamentos
(outputs)? Ninguém, inclusive a atual Ciência.
Acresce, que não existem apenas sistemas efectores e anatómicos (comportamentais) baseados no sistema visual e auditivo, há outros seres-vivos
que codificam e simbolizam com sistemas diferentes (por exemplo, háptico, táctil, feromonal, gustativo, eléctrico-iónico).
Portanto, o que podemos dizer e verificar objetivamente é
apenas que começaram por afirmar que esse momento (pensamento simbólico) ocorreu com o
Sapiens; mas depois introduziram a diferença, ao passarem a afirmar que foi com os “Humanos”. Ora isso cria uma
diferença de milhões de anos. E até poderá ser antes. A Ciência (nem ninguém) o pode afirmar com total certeza.
Para quem não esteja familiarizado/a com esta questão, antes de ler as obras dos
prémios Nobel E. Kandel, John O’Keef, May-Britt Moser e Edvard Moser, talvez possa começar por analisar o processo de percepção humana. Tanto no modo clássico, com James Jerome Gibson [“The Perception of the Visual World” (1950), “The Sense
Considered as Perceptual Systems” (1966), “The Ecological Approach to Visual Perception” (1979)], como no modo quântico com Raphael Bousso [“The holographic principle”, 2002,
Reviews of Modern Physics, vol. 74, n.º3, pp. 825-874], e outros.
Ou seja, o dito “Pensamento Simbólico” não é o que distingue o Ser-humano das outras espécies de “Vida” no que se refere à
infraestrutura metabólica, perceptiva e cognitiva.
A diferença não está nisso, na existência dessa
infraestrutura (Objeto/Coisa).
Estará no
Uso, e no Valor atribuído a essa capacidade por quem o usa?
Talvez.
Mas é necessária uma precaução adicional. Refiro-me
à sobranceria e ao preconceito antropocêntrico --- nascido na Cultura dita
Ocidental, sobretudo a partir do Renascimento, ampliado com o Iluminismo, e transformado em vaidade tecnológica-científica a partir do séc. XIX. A presunção que o
Ser-humano é uma especificidade à parte, um centro onde tudo começou ou de onde tudo irradia, um semi-deus não intrincado na Natureza (na Física).
Porque, tal como temos vindo a referir, o que podemos verificar com objetividade e rigor científico é,
apenas, que essa infraestrutura simbólica e codificadora começou muito antes de
Sapiens. E ninguém sabe (inclusive a Ciência, ou quem descobre e data artefactos) se acabará também numa outra Coisa muito diferente de
Sapiens.
A
Natureza já não tem por contraponto a Humanidade. Como referi no
Léxico de Patrimologia a propósito do artigo de A. Weinberg (“Ma chienne, mon portable et moi : quand les frontières vacillent”,
Sciences Humaines, numéro spécial “Nature/Culture: la fin des frontières?”, n.º 281, mai 2016, pp. 34-41). Porque hoje o “pensamento simbólico”
(inclusive a Inteligência) são transferidos para máquinas autónomas que aprendem a aprender desse modo independentemente dos Humanos.
O
Objeto não é o Uso, e o uso não é o Valor (significado, interpretação). O Património (a Patrimologia) ensinou com muita clareza essa descontinuidade entre essas três
Variáveis na formulação de todos os Juízos sobre as Evidências. Essa é, aliás, uma das suas principais lições.
Nem sequer sabemos se quem antecedeu os ditos
Sapiens (Neandertais, e outros), se fossem vivos e conhecessem o atual conceito/definição de Arte, estariam de acordo em dar esse nome àquele
Fazer deles, que hoje é encontrado nas grutas.
Pedro Manuel-Cardoso |
Expo Por Em Codigo carta do MNHN de 31 Maio 2006.pdf
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