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[Museum] Arte e Pensamento Simbólico. O contributo da Memória e da Linguagem.

Subject :   [Museum] Arte e Pensamento Simbólico. O contributo da Memória e da Linguagem.
From :   Pedro Pereira <pedropereiraoffic@outlook.com>
Date :   Thu, 1 Mar 2018 23:24:29 +0000

 

Pediram-me mais referências sobre o contributo de Daniel Everett que mencionei na Mensagem n.º 18318 (“Arte e Pensamento Simbólico antes de sapiens. Obviamente”).

Gostava que a Lista Museum servisse para colocarem essas questões de modo aberto e ao escrutínio de todxs. Pois esse é um dos objetivos consignado no seu Regulamento.

Por isso, se me permitirem, fá-lo-ei desse modo.

Daniel Everett (“How Language Began”, 2017; e “Did Homo erectus speak?”, 28feb2018) usa o contributo de Charles Sanders Peirce formulado no início do séc. XX na Universidade de Harvard.

Mas não foi o primeiro a fazê-lo no contexto da Antropologia.

Oito anos antes, em 2010, Matt Rossano (na altura professor na Universidade de Louisiana/EUA) fez o mesmo no artigo que escreveu na revista Current Anthropology (vol 51, Sup. 1, June 2010). Transcrevo adiante uma pequena parte:

 

 

“Using Peircian semiotics as an interpretive framework, I evaluate the archaelogical evidence for the emergence of symbolism in hominin evolution. While this framework would predict a progression from icons to indexes to symbols, the archaeological record is unclear as to whether icons or indexes are primary. [.…]” (Rossano, 2010, p.S89).

 

 

Em 2010 houve um acontecimento na Antropologia quase revolucionário que passou despercebido para a maioria.

Paradoxalmente, um acontecimento quase ignorado pela antropologia praticada em Portugal, apesar de ter ocorrido em Portugal. Talvez por estar demasiado ligada à história, à etnografia rural, e à sociologia. Refiro-me ao Simpósio que a Fundação Wenner-Gren realizou em junho de 2010 em Cascais.

O nome escolhido para o Simpósio é elucidativo dos propósitos: “Working Memory: Beyond Language and Symbolism”. O Debate escolheu por referência a hipótese de Wynn & Coolidge (2010) de que “it was an enhancement of working-memory capacity that powered the final evolution of modern mind.” (2010, p.S5). As Conclusões foram publicadas na referida revista Current Anthropology.

Portanto esse Simpósio foi importante porque consignou uma mudança de rumo relativamente à preponderância das explicações naturalistas (anatómicas, paleontológicas, etológicas, ecológicas) baseadas na Adaptação e no difusionismo da Cultura Material. Do mundo das coisas (it) passou-se para o mundo informacional (bit) do processamento cognitivo. A Evolução e o Ser-humano começaram a ser explicados por outros caminhos.

E o Património e a Memória têm uma palavra a dizer nesta mudança conceptual e metodológica.

Na altura estava a fazer o trabalho-de-campo e a investigação na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa para o pós-doutoramento com o Professor Manuel Frias Martins. E lembro-me como se fosse hoje do que falámos acerca desse uso que Matt Rossano fez de C.S. Peirce.

Porque não me parecia legítimo esse uso de Peirce para propor automaticamente um quadro conceptual neo-evolucionista, que, segundo Rossano (2010), iria do ‘ícone’, ao ‘índice’, e depois ao ‘símbolo’. De notar que Daniel Everett (2018) altera a sequência proposta por Matt Rossano, passando para: «de “índex” a “ícone” a “símbolo”». Ou seja, de «não-intencional e não-arbitrária (a relação entre forma e sentido)» [índex] para «intencional e não-arbitrária» [ícone], para «intencional e arbitrária» [símbolo].

A resposta de Manuel Frias Martins é elucidativa daquilo que é importante para este Debate. Razão pela qual transcrevo adiante uma pequena parte:

 

 

“Meu caro Pedro Manuel-Cardoso respondo-lhe com muito gosto, mas só depois de o saudar com a mais viva saudade das nossas conversas.

 

Em primeiro lugar, a “teoria de Peirce”, como diz Rossano, não é, de modo nenhum, uma teoria linguística. Sempre que Peirce se referiu à linguagem (e não são muitos esses momentos) fê-lo de um ponto-de-vista não-linguístico isto é, não focado no sistema de linguagem, ou na linguagem como sistema fechado em si mesmo. É certo que foram feitas várias tentativas de aproximação do sistema de Peirce ao da semiologia francesa, designadamente ao nível da relação signo-objecto como equivalente à relação entre ‘palavra e referente’ estabelecida pela linguística europeia ou francesa. Mas é só aí que se encontra um possível ponto de cruzamento, pois a semiose peirciana, e sobretudo a sua base ternária, é diferente da lógica linguística da semiologia francesa (e da sua base binária), e tem consequências teóricas e metodológicas muito diferentes.

 

Quanto à utilização que Matt Rossano faz das três importantes categorias peircianas, julgo que ela faz todo o sentido, e é até mesmo bastante criativa enquanto actualização do pensamento de Peirce no quadro da antropologia e/ou de uma tentativa de compreensão da evolução da mente humana. O pensamento peirciano é suficientemente elástico para permitir estas transferências. É isso, aliás, que o distingue de quadros conceptuais mais rígidos como o da semiologia de base linguística.”

(Manuel Frias Martins)

 

 

A acrescentar a estas referências falta mencionar os contributos dados por dezenas de autores no se refere à designada “comunicação não-verbal”, e aos debates que emanaram de Palo Alto. E também o contributo pioneiro (embora na altura contracorrente) da «Geste et Image» no CNRS. Aliás, foi aí que decidimos fundar o Museu da Gestualidade (ver Anexo).

Logo, a questão não é nova, mas as repercussões só agora estão a tornar-se incontornáveis para uma Antropologia e uma Arqueologia que viveram demasiado tempo à sombra de conceitos hoje inadequados.

Assim sendo, talvez fosse mais profícuo não colocar a priori um quadro classificatório baseado na anatomia das «espécies e géneros» antes de investigar nos objetos e artefactos os «níveis de complexidade do processamento cognitivo», tal como propus em 3dez2016 na Conferência da SPAE. Porque é desse erro metodológico que derivam os erros subsequentes.

 

Pedro Manuel-Cardoso

 

 




Attachment: Museu da Gestualidade 1993 Geste et Image CNRS.pdf
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