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Pediram-me mais referências sobre o contributo de Daniel Everett que mencionei na
Mensagem n.º 18318 (“Arte e Pensamento Simbólico antes de sapiens. Obviamente”).
Gostava que a
Lista Museum servisse para colocarem essas questões de modo aberto e ao escrutínio de todxs. Pois esse é um dos objetivos consignado no seu Regulamento.
Por isso, se me permitirem, fá-lo-ei desse modo.
Daniel Everett (“How Language Began”, 2017; e “Did Homo erectus speak?”, 28feb2018) usa o contributo de Charles Sanders Peirce formulado no início do séc. XX
na Universidade de Harvard.
Mas não foi o primeiro a fazê-lo no contexto da Antropologia.
Oito anos antes, em 2010, Matt Rossano (na altura professor na Universidade
de Louisiana/EUA) fez o mesmo no artigo que escreveu na revista Current Anthropology (vol 51, Sup. 1, June 2010). Transcrevo adiante uma pequena parte:
Em
2010 houve um acontecimento na Antropologia quase revolucionário que passou despercebido para a maioria.
Paradoxalmente, um acontecimento quase ignorado pela antropologia praticada em Portugal, apesar de ter ocorrido em Portugal. Talvez por estar demasiado ligada à história,
à etnografia rural, e à sociologia. Refiro-me ao Simpósio que a Fundação Wenner-Gren realizou em
junho de 2010 em Cascais.
O nome escolhido para o
Simpósio é elucidativo dos propósitos: “Working Memory: Beyond Language and Symbolism”. O Debate escolheu por referência a hipótese de Wynn & Coolidge (2010) de que “it was an enhancement of working-memory capacity that powered the final
evolution of modern mind.” (2010, p.S5).
As
Conclusões foram publicadas na referida revista Current Anthropology.
Portanto esse
Simpósio foi importante porque consignou uma mudança de rumo relativamente à preponderância das explicações naturalistas (anatómicas, paleontológicas, etológicas, ecológicas) baseadas na
Adaptação e no difusionismo da Cultura Material. Do mundo das coisas (it) passou-se para o mundo
informacional (bit) do processamento cognitivo. A Evolução e o Ser-humano começaram a ser explicados por outros caminhos.
E o Património e a Memória têm uma palavra a dizer nesta mudança conceptual e metodológica.
Na altura estava a fazer o trabalho-de-campo e a investigação na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa para o pós-doutoramento com o Professor Manuel Frias Martins.
E lembro-me como se fosse hoje do que falámos acerca desse uso que Matt Rossano fez de C.S. Peirce.
Porque não me parecia legítimo esse uso de Peirce para propor automaticamente um quadro conceptual neo-evolucionista, que, segundo Rossano (2010), iria do ‘ícone’,
ao ‘índice’, e depois ao ‘símbolo’. De notar que Daniel Everett (2018) altera a sequência proposta por Matt Rossano, passando para: «de “índex” a “ícone” a “símbolo”». Ou seja, de «não-intencional e não-arbitrária (a relação entre forma
e sentido)» [índex] para «intencional e não-arbitrária» [ícone], para «intencional e arbitrária» [símbolo].
A resposta de Manuel Frias Martins é elucidativa daquilo que é importante para este Debate. Razão pela qual transcrevo adiante uma pequena parte:
A acrescentar a estas referências falta mencionar os contributos dados por dezenas de autores no se refere à designada “comunicação não-verbal”, e aos debates que emanaram
de Palo Alto. E também o contributo pioneiro (embora na altura contracorrente) da «Geste et Image» no CNRS. Aliás, foi aí que decidimos fundar o Museu da Gestualidade (ver Anexo).
Logo, a questão não é nova, mas as repercussões só agora estão a tornar-se incontornáveis para uma Antropologia e uma Arqueologia que viveram demasiado tempo à sombra de conceitos
hoje inadequados.
Assim sendo, talvez fosse mais profícuo não colocar
a priori um quadro classificatório baseado na anatomia das «espécies e géneros»
antes de investigar nos objetos e artefactos os «níveis de complexidade do processamento cognitivo», tal como propus em 3dez2016 na Conferência da SPAE. Porque é desse erro metodológico que derivam os erros subsequentes.
Pedro Manuel-Cardoso |
Museu da Gestualidade 1993 Geste et Image CNRS.pdf
Description: Museu da Gestualidade 1993 Geste et Image CNRS.pdf
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