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3 – O terceiro pormenor tem a ver com o conceito de Identidade (o que se define por Nós e Outros).
Chamo a atenção para a necessidade de se olhar com muito cuidado e rigor científico para aquilo que é a constituição anatómica e genómica dos atuais seres-humanos designados por “Portugueses/as”.
Não vou desenvolver aqui o assunto. Mas deixo alguns dados para servirem de alerta:
A análise dos perfis genéticos e de ADN mitocondrial realizados até ao momento mostram que metade dos atuais «Portugueses/as» (55%) descendem de populações celtas e vinkings, que chegaram
à Europa vindos do atual Usbequistão, Cazaquistão e Sul da Sibéria antes de migrarem para as grutas no Sul da Europa. E que a segunda ascendência genética mais frequente (14%) a seguir aquela herança celta é constituída por genes de populações que migraram
da região do Magrebe apenas na segunda migração (há cerca de 80 mil anos, aprox. Paleolítico Médio).
A mesma análise dos perfis genéticos e de ADN mitocondrial mostram que essas populações celtas habitaram as grutas do Sul da Europa (Lascaux,
Altamira, Vila Nova de Foz Côa, e outras) até à última glaciação há cerca de 12 mil anos. Os atuais «Portugueses/as» descendem dessas populações.
Ora, existem no Mundo cerca de 30 «grupos de descendência» diferentes (aos quais, tecnicamente, na antropologia, chamamos «haplogrupos»). Ao fazermos a comparação, verifica-se que os ditos «Portugueses/as»
(tal como a maioria dos «Europeus») são constituídos predominantemente por 2 (os haplogrupos H e U). No caso «Português» há 41% de genes do
haplogurpo H e 17% do haplogrupo U.
Portanto, quando nesse Museu quando quiserem falar do
contributo «português» para a multiculturalidade terão que mostrar como essa especificidade mitocondrial passou para outros «grupos de descendência» e outros patrimónios genéticos de outras populações humanas. Porque uma coisa é falar de miscigenação
cultural, outra coisa é falar de miscigenação genética. Isto é, uma coisa é aquilo que as interpretações e a aparência são; outra coisa é aquilo que a Natureza efetivamente guarda para transmitir às gerações seguintes. Em termos abdutivos, muitas vezes a proximidade
dos corpos (etnias) e a ocorrência de alguns milhares de cruzamentos sexuais parecem dar a ideia de que construíram uma significativa miscigenação (uma efetiva
transmissão patrimonial). Porém, em termos indutivos e rigorosos, essa aparência muitas vezes é uma ilusão (um preconceito, uma utopia).
Assim sendo, quando nesse Museu se falar de um
contributo Português para a Diversidade Humana ter-se-á que ter o mesmo cuidado e rigor científico que se tem para a história da arqueologia ou para a história da marinha.
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