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[Museum] Re Museu da Interculturalidade (e não o Museu das Descobertas)

Subject :   [Museum] Re Museu da Interculturalidade (e não o Museu das Descobertas)
From :   Pedro Pereira <pedropereiraoffic@outlook.com>
Date :   Sat, 5 May 2018 21:53:45 +0000

 

Permitam que chame a atenção para três pormenores:

 

1 – Este Projeto, de iniciativa da Professora Matilde Sousa Franco, permite resolver uma lacuna que persiste há muitos anos na Política Pública de Património em Portugal.

 

Permite resolver dois problemas em simultâneo: Por um lado, o de um museu que conte a história da formação de Portugal (no contexto de um povoamento e cruzamento étnico e cultural desde o Paleolítico à atualidade). E por outro lado, o de um museu que se foca num processo cultural específico que está dentro dessa cronologia mais extensa.

 

Ou seja, são necessários dois museus. O primeiro, realizado pela reconfiguração do que atualmente está em vários museus (MNE, MNA, e outros); o segundo, por uma configuração que ainda não está determinada. Um não deve ser concebido sem o outro.

 

Que este pormenor não seja menosprezado ou esquecido. Se assim for, então, constituirá um marco na Política Patrimonial.

 

Não é necessário que tudo seja feito ao mesmo tempo, mas é necessário que sejam feitos os dois museus. Logo, devem ser projetados/concebidos em conjunto e não separadamente. Porque isso terá consequências na escolha do local de ambos.

 

 

2 – O segundo pormenor deriva do primeiro. Tem a ver com a inovação no método de fazer museus em Portugal.

 

Repare-se com atenção no que escrevi: “um grupo de trabalho, constituído formalmente em termos legais, com o objectivo de apresentar um Documento orientador do Programa Preliminar de Concepção desse museu”.

 

Ou seja, uma coisa é o «programa preliminar», outra coisa é o «documento orientador do programa preliminar». São duas coisas diferentes.  

 

Porque, pela razão que referi no primeiro pormenor, é necessário uma orientação Patrimológica (museológica) antes de se fazer abruptamente o Programa Preliminar. Sem uma definição especificamente patrimológica (museológica) anterior e a montante das outras Intervenções necessárias para fazer na prática o Programa Preliminar (concretamente: da museografia, da história, arqueologia, antropologia, ciências navais e de marinha e outras disciplinas; dos procedimentos jurídicos e concursais práticos; e das intervenções políticas e dos departamentos públicos) o Projeto arrisca-se a falhar.

 

3 – O terceiro pormenor tem a ver com o conceito de Identidade (o que se define por Nós e Outros).

 

Chamo a atenção para a necessidade de se olhar com muito cuidado e rigor científico para aquilo que é a constituição anatómica e genómica dos atuais seres-humanos designados por “Portugueses/as”. Não vou desenvolver aqui o assunto. Mas deixo alguns dados para servirem de alerta:

 

A análise dos perfis genéticos e de ADN mitocondrial realizados até ao momento mostram que metade dos atuais «Portugueses/as» (55%) descendem de populações celtas e vinkings, que chegaram à Europa vindos do atual Usbequistão, Cazaquistão e Sul da Sibéria antes de migrarem para as grutas no Sul da Europa. E que a segunda ascendência genética mais frequente (14%) a seguir aquela herança celta é constituída por genes de populações que migraram da região do Magrebe apenas na segunda migração (há cerca de 80 mil anos, aprox. Paleolítico Médio).

 

A mesma análise dos perfis genéticos e de ADN mitocondrial mostram que essas populações celtas habitaram as grutas do Sul da Europa (Lascaux, Altamira, Vila Nova de Foz Côa, e outras) até à última glaciação há cerca de 12 mil anos. Os atuais «Portugueses/as» descendem dessas populações.

 

Ora, existem no Mundo cerca de 30 «grupos de descendência» diferentes (aos quais, tecnicamente, na antropologia, chamamos «haplogrupos»). Ao fazermos a comparação, verifica-se que os ditos «Portugueses/as» (tal como a maioria dos «Europeus») são constituídos predominantemente por 2 (os haplogrupos H e U). No caso «Português» há 41% de genes do haplogurpo H e 17% do haplogrupo U.

 

Portanto, quando nesse Museu quando quiserem falar do contributo «português» para a multiculturalidade terão que mostrar como essa especificidade mitocondrial passou para outros «grupos de descendência» e outros patrimónios genéticos de outras populações humanas. Porque uma coisa é falar de miscigenação cultural, outra coisa é falar de miscigenação genética. Isto é, uma coisa é aquilo que as interpretações e a aparência são; outra coisa é aquilo que a Natureza efetivamente guarda para transmitir às gerações seguintes. Em termos abdutivos, muitas vezes a proximidade dos corpos (etnias) e a ocorrência de alguns milhares de cruzamentos sexuais parecem dar a ideia de que construíram uma significativa miscigenação (uma efetiva transmissão patrimonial). Porém, em termos indutivos e rigorosos, essa aparência muitas vezes é uma ilusão (um preconceito, uma utopia).

 

Assim sendo, quando nesse Museu se falar de um contributo Português para a Diversidade Humana ter-se-á que ter o mesmo cuidado e rigor científico que se tem para a história da arqueologia ou para a história da marinha.

 

Estes três pormenores servem para chamar a atenção de que, talvez, se devesse separar aqueles dois momentos no método de fazer este Projeto. O do «contributo orientador da Patrimologia (museologia)»; e o seguinte, relativo à feitura do Programa Preliminar. Para o primeiro momento, renovo a proposta de que a escolha recaia na Professora Matilde Sousa Franco e no Doutor Luís Raposo.

 

Pedro Manuel-Cardoso

 

 





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