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Manifesto Cultural de Pedro Pereira Leite (“Memória dum Mundo Perdido IV – os cafés da Europa”,
in Museum Lista, mensagem n.º 21103, 12abril2020, 12h08) trata-se não apenas da dimensão filosófica do Património. Trata-se de uma questão política e social.
1. Abrir os cafés, agora?
A resposta a essa pergunta, a repulsa até, em fazê-la, neste momento, em tempo de COVID-19, mostra com clareza os dois lados da barricada da Vida que a política e a sociedade
colocaram as Pessoas.
Separar a Saúde da Economia talvez tenha sido o pior erro cometido. O erro de dizerem: «primeiro esta», «depois aquela». Deviam ter elegido os "heróis"
destas duas partes da vida em paridade. É não ter consciência do que é a Vida e a Realidade. É desprezarem os que estão no lado desprotegido da Vida, e na barricada da precariedade e do desemprego. Esses, doravante, aceitarão que os que estão no outro lado
lhes voltem a dizer: a vossa vida será pagarem o resto das vossas vidas a Dívida que acumulámos durante os últimos 45 anos? Aceitarão, doravante, esse destino sem esperança, e esse futuro destruído?
2. O luxo das emoções e da moral em tempo de Covid-19.
É interessante constatar como o "sofrimento", a "angústia", a "moral", a "ética", a "responsabilidade", a "disciplina", o "cumprimento de normas", a "justiça" e outros luxos,
diferem consoante as Pessoas possuem rendimentos fixos e assegurados, recebidos todos os meses, sempre certo; e as Pessoas que, se alimentam a si às suas famílias, com rendimentos precários, que desapareceram há um mês, e cujas empresas faliram.
Esses dois grupos de Pessoas mostram bem a assimetria das actuais Sociedades. Que, afinal, a Justiça é um constructo abstracto, não-cego, que serve os interesses de quem tem
poder e está bem instalado na vida.
Ontem já foram assaltadas duas filas de pessoas, enquanto esperavam, a 1 metro de distância umas das outras, para entrar em duas farmácias na Amadora e em Setúbal. E notícias
de pessoas com sacos de compras assaltadas no centro de Lisboa.
Daqui a 1 mês o que acontecerá? A moral e a ética, até a "distância social", ou o acesso ao teletrabalho, não são luxos para quem passa fome ou não tem uma assoalhada?
Para os bem-instalados na vida, os que estão no lado confortável da barricada, esta "emergência sanitária" até é uma "nova experiência de vida". Sobre a qual filosofam, cantam
nas varandas, e fazem festins na Internet. Até têm casas com varandas para viver.
Para os que estão do outro lado da barricada, a coisa não tem tanta piada. Não têm tempo para os laudos e para os sentimentos emocionais.
Esses dois grupos de Pessoas, que são a Sociedade que fizemos, não continuarão a ser o mesmo depois disto passar? Não sabemos todos, desde já, que será assim?
Abrir os cafés, agora?
Já, porque se faz tarde.
Pedro Manuel-Cardoso
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