No Manifesto Cultural de Pedro Pereira Leite (“Memória dum Mundo Perdido IV – os cafés da Europa”,
in Museum Lista, mensagem n.º 21103, 12abril2020, 12h08) trata-se do
Património. Porque, como escreveram Afonso Botelho e Lima de Freitas, em agosto/setembro de 1981, no
Editorial do primeiro número da revista “Cultura Portuguesa”:
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“A existência de Portugal identifica-se com a existência da sua vida cultural, o que significa que Portugal existe, a partir de um saber originário; criou uma cultura e existirá enquanto
a renovar. (….) Esta energia espiritual está, para a cultura, como saber primordial, isto é, anterior e eminente ao saber culturalmente conhecido. (….) O espírito criador da cultura assume-se individualmente, sendo sempre possível e necessário determinar a
autoria, mesmo quando dela são responsáveis a tradição e os costumes” (ibidem, pág. 1).
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Ora sobre os “Cafés”, que Pedro Pereira Leite muito bem referiu no seu lúcido e corajoso
Manifesto, há uma Dimensão Cultural, composta por várias outras sub-dimensões (filosófica, social, política e outras). Que tentaremos discutir e partilhar.
Quando dizemos dimensão cultural, referimo-nos à relação demolidora e desassossegada do
Manifesto de Pedro Pereira Leite como a urgência e com a oportunidade. Com o
já. Com a pertinência de ser agora e não depois, apesar de parecer aos ingénuos e incautos que poderia ser «quando tudo isto tivesse passado». Como se o
Manifesto não fosse imprescindível à solução para o problema que a realidade pandémica e sanitária esconde, e tem hierarquizado mal.
Começamos pela sub-dimensão filosófica do
Manifesto.
Servindo-nos do insigne José Marinho. A propósito da sua obra, escreveu António Telmo, nesse primeiro número da revista “Cultura Portuguesa”:
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“Durante mais de cinquenta anos, diariamente, José Marinho e Álvaro Ribeiro encontraram-se todas as tardes, muitas vezes também de manhã e ao serão. (….) Os dias em que, ao longo de tantos
anos, se encontraram, não somarão, juntos, mais do que alguns meses. Os encontros eram sempre em «cafés»: numa primeira época, no «Café Central», a meio da Avenida da Liberdade. (.…) Outra época foi a do «Café Palladium», na Praça dos Restauradores.
Outra a da «Brasileira do Rossio». Nos últimos anos, num pequeno «café» de bairro, em Campo de Ourique, junto do Jardim da Parada. Muito raramente, porém, este convívio era composto apenas pelos dois pensadores. À sua volta juntavam-se sempre neófitos da filosofia,
discípulos fiéis e infiéis, artistas plásticos e literários e outros que ficam sem nome. Por ali passaram poetas como Adolfo Casais Ribeiro, José Régio, José Blanc de Portugal, Carlos Queiroz, António Navarro, Vasco da Gama Rodrigues ou Azinhal Abelho; literatos
como os surrealistas António Pedro, os ecléticos Alfredo Margarido e Jorge de Sena, os nacionalistas Osório de Oliveira e Castro Osório ou os neo-realistas Alves Redol e S. Pereira Gomes; artistas plásticos como Almada Negreiros, António Duarte, António Areal
ou Cândido da Costa Pinto; ensaístas como Amorim Carvalho, Moura e Sá ou António José Brandão. Para alguns deles, esta passagem, foi determinante. Carlos Queiroz arrancou dali a revista Litoral, Jorge de Sena faz-se ali camonista e pessoano, Almada deu ali
a viragem que o lançou, durante a metade da vida, na pesquisa do número de ouro ou da pintura essencial. De tudo isto ficaram documentos para corrigirem a injustiça e a ingratidão da vaidade e da inveja humanas” E é preciso acrescentar que durante o mais esperançoso
mas breve período aberto às naturais relações entre Portugal e o Brasil, foi ali o «porto original» que a cultura brasileira vinha demandar Portugal e que inspirou, com as teses da «filosofia portuguesa», o movimento para a descoberta das raízes do Brasil
mental. Os principais representantes desse movimento --- Miguel Reale, Luiz Washington, Vicente Ferreira da Silva, sobre um fundo de professores universitários bem-intencionados --- procuravam a referenciação e até o convívio com o círculo dos nossos dois
pensadores.” (António Telmo, 1981, pág. 39-40).
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José Marinho, em 1943, publicou “O Problema da Filosofia Portuguesa”.
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“Tais teses obtiveram, permanentemente, a hostilidade aguerrida e associada dos meios literários, sempre submissos aos modelos estrangeiros, e dos meios universitários, sempre apostados
na negação de qualquer singularidade portuguesa.” Para José Marinho, “a tese da
Filosofia Portuguesa não era, a seus olhos, mais do que o reconhecimento de que o pensamento, por mais universal na sua expressão, é necessariamente, como coisa humana, um pensamento situado. Aos que, como António Sérgio, negavam chocarreiramente a existência
de filosofia entre os portugueses, José Marinho respondia: «Negar em nome da universalidade da filosofia, a realidade da filosofia portuguesa, equivale a eliminar as pernas de um pássaro pelo facto de ele ter asas para voar»” (António Telmo, 1981, pág.40).
José Marinho explica o que quer dizer: “O Espírito é, porém, suspeito à filosofia portuguesa: afigura-se-lhe como
de menos quando referido ao conceito que nessa palavra, ou sua correspondente, exprimiam os Clássicos; afigura-se-lhe como
de mais na conceptualização que lhe deram os europeus modernos. Entre estes, o Espírito, começando por ser, na imagem radical da palavra, uma fantasmagoria, depressa se transpôs para aquilo que, com demasiada pressa, se designou por Absoluto. Ora o absoluto
é o separado, não como o santo ou o espírito santo se distingue da divindade transcendente e remota, mas como o que se abstrai, se absolutiza, de uma realidade em cuja origem esteve mas que abandonou.” (António Telmo, 1981, pág.31-32).
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Ou por outras palavras, José Marinho, muito antes da maioria,
em Cafés, situou-se na vanguarda do que na época Wittgenstein e Gödel discutiam. E que, em Portugal, passados setenta anos, continua a menosprezar-se, apesar da sua actualidade para o que esconde a realidade desta crise pandémica e sanitária.
E para o que o Manifesto de Pedro Pereira Leite teve a ousadia de desnudar.
Em suma, só não ficou no esquecimento (ou na contra-memória actual) porque: “De tudo isto ficaram documentos para corrigirem a injustiça e a ingratidão da vaidade e da inveja humanas” (ibidem, pág.40).
Pedro Manuel-Cardoso
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