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Nada me
foi solicitado nem me foi dito em contrário; creio, porém, que este testemunho
de um Amigo que à causa do Património Cultural muito tem dado merece ser divulgado
e discutido. Divulgo,
pois, com a devida vénia J.
d’E. De:
Gonçalo de Carvalho Amaro [mailto:amarogoncalo@gmail.com] Dentro dos assuntos que, em meu
entender, menos têm sido debatidos no contexto nacional encontram-se o do
mercado de arte de objetos de carácter etnográfico e arqueológico e o da
chamada repatriação de objetos museológicos. Tratam-se de dois temas distintos
mas que inexoravelmente se tocam e tem estado na ordem do dia no panorama
internacional, em particular o relativo à repatriação. Aqueles que como eu seguem os sites do ICME
(Comité do ICOM para Museus Etnográficos) ou o ICMAH (Comité do ICOM para
Museus de Arqueologia e História), certamente já puderam constatar que
praticamente todos os dias surge uma nova notícia de devolução peças
etnográficas e arqueológicas de um museu europeu para o seu país de origem.
Geralmente peças adquiridas em situações menos ortodoxas, roubos, pertencentes
a templos, restos humanos, etc. Foi também há relativamente pouco tempo que o
presidente francês Emmanuel Macron reconheceu publicamente, num encontro com
jovens africanos, – creio que foi a primeira vez por parte de um chefe de
Estado europeu – a existência de uma “pilhagem” de cultura material nos países
colonizados pelos europeus. Abrindo as portas para a massiva restituição de
peças: https://www.theartnewspaper.com/comment/the-restitution-revolution-begins Uma vez mais sirvo-me da minha
"muleta" chilena para explicar a minha aproximação às temáticas em
questão, especificamente aquela que tende a ser menos considerada: a existência
de um mercado de obras etnográficas e/ou arqueológicas que, de certa forma,
mantêm ativa a perspetiva colonial ou pós-colonial que tanto se têm falado
atualmente nos museus, pois este mercado, nomeadamente aquele que se dedica a
peças etnográficas e arqueológicas, muitas vezes, dá cabida a um comércio de
peças roubadas ou adquiridas em condições questionáveis em países pobres e
em vias de desenvolvimento que acabam por vir parar à Europa. Volto então ao
Chile, para referir que só comecei a ter consciência desta situação nesse país
e através das breves colaborações que realizei no Museo Chileno de Arte
Precolombino e no Consejo de Monumentos Nacionales onde este tema vinha muito à
baila; no primeiro caso por ter sido um museu (privado) constituído em parte à
base de peças compradas aos huaqueros
entre os anos 30 e 60 e, no segundo caso, por ser a organização fiscalizadora
do património no país. Apesar de existirem medidas duras e educativas em
relação ao fenómeno do huaqueo
(expressão de origem quéchua usada nos países andinos para definir o roubo e
saque de sítios arqueológicos) no norte do país, este teima em persistir no
país. Destaco ainda que este saque não se materializa apenas em
sepulturas incaicas e pré-incaicas mas também se verifica nas igrejas
coloniais. Como disse, este fenómeno não tem vindo a diminuir e, ultimamente,
até se tem expandido para os próprios museus, que passaram a ser vítimas
diretas destes roubos: http://www.dibam.cl/614/w3-article-51577.html?_noredirect=1 Em Portugal estes assuntos continuam a ter
pouco destaque e, na realidade, até me surpreendeu que no âmbito do longo
debate sobre o Museu da Descoberta não tivessem sido devidamente aflorados.
Sobretudo, a questão da repatriação, pois existem, no nosso país, vários museus
suscetíveis de virem a ser confrontados com esta situação. Normalmente,
enquanto portugueses, deixamos sempre tudo para a última instância e
oportunidade, desculpando-nos pela nossa situação periférica no contexto
europeu. A recente exposição O Tempo
das Huacas que incide sobre a exposição de corpos mumificados
(creio que devidamente identificadas como provenientes do Perú) em exposição –
sem aparentes condições de conservação e digamos até éticas – no museu
Arqueológico do Carmo, demostra que, na era da internet, e com a circulação de
estudo e trabalho que vai tendo a minha geração, Portugal deixou de ser um país
periférico, inclusivamente em termos museológicos: http://www.apantropologia.org/apa/o-tempo-das-huacas-c-intervencao-de-rui-mourao/ É certo que, até há bem pouco tempo atrás, o
tema da repatriação de objetos era sobretudo um tópico de debate entre
investigadores, arqueólogos e antropólogos físicos, e estava ligado
principalmente a restos humanos: todos certamente já ouviram falar dos casos do
“homem de Kennewick”, nos Estados Unidos, ou o caso do “negro de Banyoles” aqui
ao lado, na nossa vizinha Espanha. Contudo, como creio que pode ser
exemplificado pela notícia do discurso de Macron, no primeiro parágrafo e em
outras tantas mais (basta fazer uma pesquisa no Google), hoje em dia, este tema
expandiu-se definitivamente para a generalidade dos objetos de museu, enfim,
para toda a cultura material. Conhecendo o espólio dos nossos museus, dos
que existem e dos que estão para existir brevemente, espanta-me a ausência de
uma reflexão séria sobre o tema, não só do ponto de vista profissional e
deontológico mas também do ponto de vista da salvaguarda das suas
próprias coleções. Insisto que não se deve olhar para este
assunto como algo que não nos diz respeito... porque os nossos museus têm
outras características e, etc e tal... aproveitando para recordar o artigo de
Lynda Knowles (advogada que tem trabalhado especificamente sobre museus)
sintetizado no site do ETHCOM (Comité de Ética do ICOM) e que versa precisamente
sobre a ética e as repatriações de objetos culturais: https://icom.museum/en/news/international-repatriation-of-human-remains-of-indigenous-peoples/ Neste contexto, pergunto ingenuamente: Faz
ainda sentido conceber novos museus etnográficos/exposições com um sentido
estético, onde as peças não são compreendidas na sua dinâmica original? A
função do museu não é (também) a de ensinar através dos objetos? Não estão já
ultrapassados os conceitos de representação tergiversada de um objeto num
sentido eurocêntrico? Sem querer ser excessivamente moralista e
sem citar mais textos ou artigos meus (como tenho feito nestas minhas crónicas
semanais) , deixo aqui uma visão interessante vinda da Austrália: http://nma.gov.au/research/understanding-museums/JStanton_2011.html Para terminar, e para não me alongar em
demasia e, sobretudo, para os manter com uma certa inquietação, gostaria aqui
de homenagear Alfred Gell que, na sua obra Art
and Agency (1998), tem a seguinte frase: «The problem with
the ‘indigenous aesthetics’ programme, in my view, is that it tends to reify
the ‘aesthetic response’ independently of the social context of its
manifestations (and that Boasian anthropology in general reifies culture). In
so far as there can be an anthropological theory of ‘aesthetics’, such a theory
would try to explain why social agents, in particular settings, produce the
responses that they do to particular works of art. »
Saudações cordiais -- Gonçalo
de Carvalho Amaro |
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