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[Museum] ENC: Os museus, o património etnográfico e arqueológico: (mais um) debate que falta

To :   "museum" <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] ENC: Os museus, o património etnográfico e arqueológico: (mais um) debate que falta
From :   José d'Encarnação <jde@fl.uc.pt>
Date :   Mon, 20 Aug 2018 17:01:48 +0100

         Nada me foi solicitado nem me foi dito em contrário; creio, porém, que este testemunho de um Amigo que à causa do Património Cultural muito tem dado merece ser divulgado e discutido.

         Divulgo, pois, com a devida vénia

                           

                            J. d’E.


De: Gonçalo de Carvalho Amaro [mailto:amarogoncalo@gmail.com]
Enviada em: segunda-feira, 20 de Agosto de 2018 14:37
Assunto: Os museus, o património etnográfico e arqueológico: (mais um) debate que falta

 

Dentro dos assuntos que, em meu entender, menos têm sido debatidos no contexto nacional encontram-se o do mercado de arte de objetos de carácter etnográfico e arqueológico e o da chamada repatriação de objetos museológicos. Tratam-se de dois temas distintos mas que inexoravelmente se tocam e tem estado na ordem do dia no panorama internacional, em particular o relativo à repatriação.

 

Aqueles que como eu seguem os sites do ICME (Comité do ICOM para Museus Etnográficos) ou o ICMAH (Comité do ICOM para Museus de Arqueologia e História), certamente já puderam constatar que praticamente todos os dias surge uma nova notícia de devolução peças etnográficas e arqueológicas de um museu europeu para o seu país de origem. Geralmente peças adquiridas em situações menos ortodoxas, roubos, pertencentes a templos, restos humanos, etc. Foi também há relativamente pouco tempo que o presidente francês Emmanuel Macron reconheceu publicamente, num encontro com jovens africanos, – creio que foi a primeira vez por parte de um chefe de Estado europeu – a existência de uma “pilhagem” de cultura material nos países colonizados pelos europeus. Abrindo as portas para a massiva restituição de peças:

https://www.theartnewspaper.com/comment/the-restitution-revolution-begins

 

Uma vez mais sirvo-me da minha "muleta" chilena para explicar a minha aproximação às temáticas em questão, especificamente aquela que tende a ser menos considerada: a existência de um mercado de obras etnográficas e/ou arqueológicas que, de certa forma, mantêm ativa a perspetiva colonial ou pós-colonial que tanto se têm falado atualmente nos museus, pois este mercado, nomeadamente aquele que se dedica a peças etnográficas e arqueológicas, muitas vezes, dá cabida a um comércio de peças roubadas ou adquiridas em condições questionáveis em países pobres e em vias de desenvolvimento que acabam por vir parar à Europa. Volto então ao Chile, para referir que só comecei a ter consciência desta situação nesse país e através das breves colaborações que realizei no Museo Chileno de Arte Precolombino e no Consejo de Monumentos Nacionales onde este tema vinha muito à baila; no primeiro caso por ter sido um museu (privado) constituído em parte à base de peças compradas aos huaqueros entre os anos 30 e 60 e, no segundo caso, por ser a organização fiscalizadora do património no país. Apesar de existirem medidas duras e educativas em relação ao fenómeno do huaqueo  (expressão de origem quéchua usada nos países andinos para definir o roubo e saque de sítios arqueológicos) no norte do país, este teima em persistir no país. Destaco ainda que este  saque não se materializa apenas em sepulturas incaicas e pré-incaicas mas também se verifica nas igrejas coloniais. Como disse, este fenómeno não tem vindo a diminuir e, ultimamente, até se tem expandido para os próprios museus, que passaram a ser vítimas diretas destes roubos:

http://www.dibam.cl/614/w3-article-51577.html?_noredirect=1

 

Em Portugal estes assuntos continuam a ter pouco destaque e, na realidade, até me surpreendeu que no âmbito do longo debate sobre o Museu da Descoberta não tivessem sido devidamente aflorados. Sobretudo, a questão da repatriação, pois existem, no nosso país, vários museus suscetíveis de virem a ser confrontados com esta situação. Normalmente, enquanto portugueses, deixamos sempre tudo para a última instância e oportunidade, desculpando-nos pela nossa situação periférica no contexto europeu. A recente exposição O Tempo das Huacas que incide sobre a exposição de corpos mumificados (creio que devidamente identificadas como provenientes do Perú) em exposição – sem aparentes condições de conservação e digamos até éticas – no museu Arqueológico do Carmo, demostra que, na era da internet, e com a circulação de estudo e trabalho que vai tendo a minha geração, Portugal deixou de ser um país periférico, inclusivamente em termos museológicos:

http://www.apantropologia.org/apa/o-tempo-das-huacas-c-intervencao-de-rui-mourao/

 

É certo que, até há bem pouco tempo atrás, o tema da repatriação de objetos era sobretudo um tópico de debate entre investigadores, arqueólogos e antropólogos físicos, e estava ligado principalmente a restos humanos: todos certamente já ouviram falar dos casos do “homem de Kennewick”, nos Estados Unidos, ou o caso do “negro de Banyoles” aqui ao lado, na nossa vizinha Espanha. Contudo, como creio que pode ser exemplificado pela notícia do discurso de Macron, no primeiro parágrafo e em outras tantas mais (basta fazer uma pesquisa no Google), hoje em dia, este tema expandiu-se definitivamente para a generalidade dos objetos de museu, enfim, para toda a cultura material.  Conhecendo o espólio dos nossos museus, dos que existem e dos que estão para existir brevemente, espanta-me a ausência de uma reflexão séria sobre o tema, não só do ponto de vista profissional e deontológico mas também do ponto de vista da salvaguarda das suas próprias coleções.

 

Insisto que não se deve olhar para este assunto como algo que não nos diz respeito... porque os nossos museus têm outras características e, etc e tal... aproveitando para recordar o artigo de Lynda Knowles (advogada que tem trabalhado especificamente sobre museus) sintetizado no site do ETHCOM (Comité de Ética do ICOM) e que versa precisamente sobre a ética e as repatriações de objetos culturais:

https://icom.museum/en/news/international-repatriation-of-human-remains-of-indigenous-peoples/

 

Neste contexto, pergunto ingenuamente: Faz ainda sentido conceber novos museus etnográficos/exposições com um sentido estético, onde as peças não são compreendidas na sua dinâmica original? A função do museu não é (também) a de ensinar através dos objetos? Não estão já ultrapassados os conceitos de representação tergiversada de um objeto num sentido eurocêntrico?

Sem querer ser excessivamente moralista e sem citar mais textos ou artigos meus (como tenho feito nestas minhas crónicas semanais) , deixo aqui uma visão interessante vinda da Austrália:

http://nma.gov.au/research/understanding-museums/JStanton_2011.html

 

Para terminar, e para não me alongar em demasia e, sobretudo, para os manter com uma certa inquietação, gostaria aqui de homenagear Alfred Gell que, na sua obra Art and Agency (1998), tem a seguinte frase:

 

«The problem with the ‘indigenous aesthetics’ programme, in my view, is that it tends to reify the ‘aesthetic response’ independently of the social context of its manifestations (and that Boasian anthropology in general reifies culture). In so far as there can be an anthropological theory of ‘aesthetics’, such a theory would try to explain why social agents, in particular settings, produce the responses that they do to particular works of art. »


Saudações cordiais

 

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Sem vírus. www.avast.com




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