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Tem sido muito curioso o debate proporcionado pela exposição “Cérebro” da Fundação Calouste Gulbenkian (15março / 10junho 2019).
De facto, há coisas que correm ao contrário do que se intenta. Neste caso, ainda bem.
Refiro-me ao enorme incómodo que Descartes causa na referida exposição, e a atrapalhação em resolvê-lo na expografia.
Se se reparar com atenção verifica-se que os painéis “Máquina Moral (MIT Media Lab)” e “Inteligência Artificial e Robótica” foram esforçadamente postos longe do painel “René Descartes”.
De Descartes salta-se abruptamente para a “anatomia de Thomas Willis”, dizendo apenas que (passo a citar) “hoje, as neurociências explicam a atividade mental como processos físicos do cérebro”. Como
se não fosse isso que todos tentaram fazer --- desde a trepanação há 10 mil anos, do Egipto Antigo, da Grécia Antiga, de Aristóteles, de Descartes, e de todos os que lhes sucederam. “Sangue”, “coração”, “glândula pineal”, “cérebro” não são tudo «coisas
físicas» de onde se tentou discernir a atividade mental? A “teoria ventricular” ou a atual “fragmentação do cérebro em zonas com funções distintas pelas neurociências” não são, em termos lógicos e em complexidade, uma coisa muito diferente. Tal como dizer
que as partes se ligam por uma coisa a que hoje chamam “impulsos eléctricos”, e antes era por outra “substância”. Também aí não é uma grande mudança de paradigma na compreensão da dita “atividade mental”. São tudo coisas físicas de onde se infere a atividade
mental; e tudo partes separadas unidas por um fluxo de algo. Ou seja, sempre o mesmo
Dualismo que se critica a Descartes.
Na referida Exposição “Cérebro” da FCG, o incómodo dos que criticaram Descartes é mais do que evidente. Cresce na proporção direta dos atuais avanços na compreensão da biologia molecular da cognição. Envergonhadamente
os que proclamaram estridentemente o pretenso “erro de Descartes” tentam esconder-se discretamente. O discurso ideológico das neurociências (a famigerada redução do ser-humano ao “cérebro”, e à “complexidade de Chaitin-Kolmagorof”), paradoxalmente,
sofre um revés. É posto em causa numa Exposição feita por elas, com o objetivo exatamente contrário.
No “Corpo em Mutação” (SPAE, 3dez2016), com o “Impronuncialismo” (2012), ou com o “conceito heptadimensional de Objeto em Património” (2010) tenho tentado mostrar esse erro, em terem apressadamente
criticado Descartes. Os dados da ciência têm vindo a confirmar esta mudança.
As voltas que a Vida dá…
Pedro Manuel-Cardoso
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