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[Museum] O incómodo (ocorrido na Exposição "Cérebro" da F.C.Gulbenkian)

Subject :   [Museum] O incómodo (ocorrido na Exposição "Cérebro" da F.C.Gulbenkian)
From :   Pedro Pereira <pedropereiraoffic@outlook.com>
Date :   Mon, 1 Apr 2019 22:59:32 +0000

 

Tem sido muito curioso o debate proporcionado pela exposição “Cérebro” da Fundação Calouste Gulbenkian (15março  / 10junho 2019).

De facto, há coisas que correm ao contrário do que se intenta. Neste caso, ainda bem.

Refiro-me ao enorme incómodo que Descartes causa na referida exposição, e a atrapalhação em resolvê-lo na expografia.

Se se reparar com atenção verifica-se que os painéis “Máquina Moral (MIT Media Lab)” e “Inteligência Artificial e Robótica” foram esforçadamente postos longe do painel “René Descartes”.

De Descartes salta-se abruptamente para a “anatomia de Thomas Willis”, dizendo apenas que (passo a citar) “hoje, as neurociências explicam a atividade mental como processos físicos do cérebro”. Como se não fosse isso que todos tentaram fazer --- desde a trepanação há 10 mil anos, do Egipto Antigo, da Grécia Antiga, de Aristóteles, de Descartes, e de todos os que lhes sucederam. “Sangue”, “coração”, “glândula pineal”, “cérebro” não são tudo «coisas físicas» de onde se tentou discernir a atividade mental? A “teoria ventricular” ou a atual “fragmentação do cérebro em zonas com funções distintas pelas neurociências” não são, em termos lógicos e em complexidade, uma coisa muito diferente. Tal como dizer que as partes se ligam por uma coisa a que hoje chamam “impulsos eléctricos”, e antes era por outra “substância”. Também aí não é uma grande mudança de paradigma na compreensão da dita “atividade mental”. São tudo coisas físicas de onde se infere a atividade mental; e tudo partes separadas unidas por um fluxo de algo. Ou seja, sempre o mesmo Dualismo que se critica a Descartes.

Na referida Exposição “Cérebro” da FCG, o incómodo dos que criticaram Descartes é mais do que evidente. Cresce na proporção direta dos atuais avanços na compreensão da biologia molecular da cognição. Envergonhadamente os que proclamaram estridentemente o pretenso “erro de Descartes” tentam esconder-se discretamente. O discurso ideológico das neurociências (a famigerada redução do ser-humano ao “cérebro”, e à “complexidade de Chaitin-Kolmagorof”), paradoxalmente, sofre um revés. É posto em causa numa Exposição feita por elas, com o objetivo exatamente contrário.

No “Corpo em Mutação” (SPAE, 3dez2016), com o “Impronuncialismo” (2012), ou com o “conceito heptadimensional de Objeto em Património” (2010) tenho tentado mostrar esse erro, em terem apressadamente criticado Descartes. Os dados da ciência têm vindo a confirmar esta mudança.

As voltas que a Vida dá…

Pedro Manuel-Cardoso

 

 





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