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Partilho a preocupação em se encontrar um espaço democrático, e honesto em termos científicos, para discutir a
questão humana, verdadeiramente singular, que o “Museu dos Descobrimentos Portugueses” coloca à Patrimologia (vulgarmente designada por “museologia”).
É por ser um contributo para a questão humana, mais do que por outras razões, que se justifica fazer o tal “Museu dos Descobrimentos Portugueses”.
Ou seja: a justificação para esse museu, tem
muito menos a ver com o eventual nacionalismo português, e muito mais com a
necessidade de compreender e preservar um facto (história) relevante para a “Humanidade” (ou seja, para se aprender a lidar com o futuro da espécie humana, atualmente, em muitas universidades, designado por “pós-humanidade”).
Em 2011, no trabalho realizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, escrevi:
A deriva e a inconsistência que ocorreram, em Quioto e cá, no processo de “definição de Museu” influencia a incapacidade de compreender a necessidade desse tal
Museu.
Porquê? Porque um “museu” serve apenas para ajudar a
gerir o Património, não é um fim em mesmo (como a maioria das atuais definições pretende). Um “museu” é apenas uma infraestrutura (suporte) e um meio para se alcançar uma
finalidade que está para além dele. Exatamente essa, que entronca com a “Condição Humana”, e com aquilo que é
relevante e tem valor para ela.
Gerir o Património tem por conteúdo a capacidade de realizar, em cada época, e para cada nível do avanço científico e tecnológico, duas tarefas
principais: A «escolha da Relevância» a somar à «imputação do Valor» para as coisas e fenómenos com que o ser-humano tem de lidar.
O Património, em termos científicos, constitui a continuação da “estratégia eucariote da
Vida” (ver definição de Vida adinte, na nota final). Essa estratégia eucariote consiste, desde há mais de 3 mil milhões e anos, em: “guardar no núcleo da célula, protegida por uma membrana, as informações vitais a transmitir às gerações
seguintes para se conseguir o sucesso adaptativo”). A “filogénese do Património” possui
três momentos principais, que estabelecem um continuum entre a escala física, a escala biológica e a escala socio-cultural:
Histerese > Memória (ADN/ARN) > Património (museus, arquivos, bibliotecas, bases-de-dados, ADN-sintético,
et alli).
NOTA: “Vida”, é aqui definida por: “um sistema químico autónomo capaz de seguir uma evolução darwiniana, gerado a partir de matéria inerte através de processos de auto-catálise (moléculas com a capacidade de criarem cópias de si mesmas)
e de processos de auto-organização (moléculas com a propriedade de criarem espontaneamente estruturas mais complexas a partir de estruturas mais simples)”] – Esta definição é usada pela NASA desde 2013; à qual acrescentei a definição de Otto Sijbren, da
universidade de Groningen, publicada na Nature Chimestry. Em 4jan2016. De notar, ainda, que em 2018, na
Nature, no artigo de Martin Julian Van Kramendonk, foi demonstrado que até ao momento, na Terra, concretamente no maciço de Isua no sudoeste da Gronelândia, há um registo empírico de Vida com 3,7 mil milhões de anos.
Pedro Manuel-Cardoso |
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