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O texto de Pedro Pereira Leite fez-me mergulhar nos nossos longos debates, desde os bancos da universidade, quando éramos ainda alunos de doutoramento em museologia. E que se prolongaram até hoje sem cessarem.
Um privilégio de que nunca me aparto.
Ambos, debatemos, e continuamos a debater, todas as mudanças teóricas e conceptuais que o Património e os «Museus» sofreram e sofrem.
Lembro-me, numa das aulas que demos, já depois de concluídos os pós-doutoramentos, em que, para mostrar aos discentes essas mudanças, colei todas as datas e autores em folhas A4, e desenrolei-as na aula. O rolo
das folhas A4 começava na mesa onde eu falava, passava por todas as mesas e cadeiras onde os alunos estavam, e tivemos que abrir a porta da sala… e o rolo continuou pelo corredor fora, aí uns bons 10 metros.
A discussão entre Parménides e Heraclito, sobre «o que fica» (permanência) e «o que muda» (desaparece) foi renovada pela disputa entre Ph. Descola e Dan Sperber. Descola, acha que em 4 gerações toda a memória
de uma Cultura se perde, e o que fica é tudo reinventado e reinterpretado. Sperber, acha que não, que, apesar da mudança, há sempre alguma coisa que permanece igual.
O único dado empírico que temos, para confrontar (do ponto de vista científico) estas nossas dúvidas, é, talvez, o que a Natureza e a Vida nos mostram. Ao pesquisarmos nas nossas entranhas, e na dos outros «sistemas
vivos eucariotes», verificamos que, lá, no núcleo das nossas células, protegidas por uma membrana, estão as informações vitais que indicam às moléculas e às proteínas como construir o fenótipo que os Humanxs são. E que essas informações (ADN) são transmitidas
de geração em geração. Essa memória, parece, assim, que passa qualquer coisa. Qualquer coisa que não somos nós a decidir totalmente o que é. E que só agora, com a
Crispr-Cas9, começa a ser interferido. Seja como for, afinal, parece que não se perde tudo.
Estas longas tertúlias com o meu Amigo e ilustre Colega Pedro Pereira Leite, até me levaram a propor a existência de uma “Estrutura da Relevância”. Uma codificação na cognição (cérebro) que,
a priori, criaria uma pré-disposição para se definirem «os critérios pelos quais se classifica um qualquer objeto como sendo Património».
Uma coisa é certa, aquilo que ambos dizemos em relação à mudança no espaço e no tempo nos «museus» e no Património, tem que levar uma volta. Porque se não “lhes trocamos as voltas” (como diz Pedro Pereira
Leite, jamais conseguiremos renovar e modernizar os atuais «museus», e os outros projetos de Património congéneres ou equiparados.
Pedro Manuel-Cardoso
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