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O COVID-19 oferece uma oportunidade para o Património questionar a “Vida”.
1. A “Ciência” tomou uma decisão curiosa em relação à concepção de "Vida". Traçou uma fronteira entre a «escala da Física» e a «escala da química/biologia»,
e colocou-a nesta 2.ª escala. Ou seja, prescindiu deliberadamente de a localizar no mundo dos átomos e das sub-partículas. Assim, quando os cientistas HOJE procuram “Vida” (dentro e fora do planeta Terra), procuram: “…um sistema químico autónomo capaz de
seguir uma evolução darwiniana, originado a partir de matéria inerte através de processos de auto-catálise (moléculas com a capacidade de criarem cópias de si mesmas) e de processos de auto-organização (moléculas com a capacidade de criarem espontaneamente
estruturas mais complexas a partir de estruturas mais simples).”(Gerald Joyce, NASA, 1994/2013; Otto Sijbren, 4jan2016,
Nature Chimestry). Em 25abril2014, a equipa de Markus Ralser (Markus A. Keller e Alexandra V. Turcyn), em “Non-enzymatic glycolysis and pentose phosphate pathway-like reactions in a plausible Archean ocean” (Nature /https://doi.org/10.1002/msb.20145228),
afirmou ter descoberto o processo dessa “espontaneidade” (serendipidade) das reações metabólicas, aparentemente catalisadas por iões de ferro, logo, sem intervenção “exterior” ou “divina”. Apesar das dúvidas de Matthew Powner e Jack Szostak (ambos da Universidade
de Harvard).
2. Um dos erros do darwinismo foi ter contribuído para uma concepção da "Vida" fragmentada, em "espécies", que evoluíam de umas para as outras,
através de um processo de "variação-adaptação-seleção". Isso impediu de a ver corretamente. Paradoxalmente, todas as religiões (sem excepção) têm da Vida um entendimento mais científico, em rigor e verificação empírica, do que essa ideia (teoria) fragmentada
e evolutiva herdada do Darwinismo.
3. Até 2002 assistimos a inúmeras tentativas de definição de “Vida”. As principais talvez sejam as de: Jean Baptiste LAMARCK(1802), Ludwig BÜCHNER(1855),
Rudolf VIRCHOW(1855), Ernst HAECKEL(1866), Thomas Henry HUXLEY(1868), Justus von LIEBIG(1868), J. BROWNING(1869), L. S. BEALE(1871), H. C. BASTIAN(1872), Claude BERNARD(1878), Friedrich ENGELS(c. 1880), Herbert SPENCER(1884), August WEISMANN(c.1890), Wilhelm
PFEFFER(1897), A.B. MACALLUM(1908), A. PETTER(1923), Alexander OPARIN(1924), J. H. WOODGER(1929), Ludwig von BERTALANFFY(1933), Niels BOHR(1933), Erwin SCHRÖDINGER(1944), J. ALEXANDER(1948), J. PERRETT(1952), R. D. HOTCHKISS(1956), Norman HOROWITZ(1959), Herman
MULLER(1966), John BERNAL(1967), Jacques MONOD(1970), Lila GATLIN(1972), P. FONG(1973), Leslie ORGEL(1973), John MAYNARD SMITH(1975), E. ARGYLE(1977), Clair Edwin FOLSOME(1979), Manfred EIGEN(1981), E. H. MERCER(1981), E. HAUKIOJA(1982), Peter SCHUSTER(1984),
V. CSÁNYI e G. KAMPIS(1985), R. SATTLER(1986), S. LIFSON(1987), Gerald EDELMAN(1988), Christopher LANGTON(1989), A. BELIN e J. D. FARMER(1992), Stuart KAUFFMAN(1993), A. de LOOF(1993), Claus EMMECHE(1994), Gerald JOYCE (1994), André BRACK(1996), Sidney FOX(1996),
Tibor GÁNTI(1996), Jesper HOFFMEYER(1996), A.IGAMBERDIEV(1996), Francisco VARELA(1996), F. HUCHO e K. BUCHNER(1997), R. S. ROOT-BERNSTEIN e P. F. DILLON(1997), Kalevi KULL(1998), Huber YOCKEY(2000), Thomas SEBEOK(2001), David ABEL(2002), David KOSHLAND(2002),
Edward TRIFONOV (2002). E muitas outras que não acrescentam elementos novos ao que estas formulam.
4. Em 2017 (Nature Communications, 9maio2017 / Universidade de Gales do Sul) ficámos a saber que a “Vida” na Terra (na formação rochosa de Dresser,
na região de Pilbara, na Austrália) ocorreu há 2,7-2,9 mil milhões de anos. Mas ao contrário de tudo o que tinha sido descoberto até esse momento, a “Vida” foi encontrada em fontes termais de água doce ricas em silício (geiseritos) em terra, e não em oceanos
salgados no mar. Mas essa descoberta baseia-se na procura dos blocos químicos (capazes de gerarem “Vida”), porém, se adoptássemos a procura da “Vida” não através dessa premissa, e a procurássemos a partir do «modo como os sistemas armazenam a informação»
(como propuseram Paul Davies e Sara Walker em 2012) teríamos de recuar até 3,7 mil milhões de anos. E se aprofundássemos essa perspetiva informacional ainda mais, como fez Christoph Adami (Insituto Keck, Claremont, Califórnia), ao responder ao actual repto
da NASA, se no “sistema Avida” que construiu havia “biomarcadores”, poderíamos inclusive admitir a probabilidade de uma origem exterior ao planeta Terra. Já que a Vida poderia ser definida em termos de “processos de informações”, cuja
existência já não depende ou se refere a um substrato particular. Em que a “bioassinatura” a descobrir seria, não um
susbstrato/substância/suporte/corpo diferente, mas outrossim, uma «distribuição de informações particular» (um padrão particular de organização e de fluxo das informações), o qual seria distinto naquilo que era “Vida”. Cuja característica principal
seria a existência de um duplo fluxo (um nível de informações em alta frequência, úteis à sobrevivência do sistema; e um outro nível de informações em baixa frequência, prejudiciais a essa sobrevivência. Nos sistemas vivos (“Vida”) o nível de alta frequência
dominaria e controlaria o de baixa frequência; nos sistemas não-vivos (e no “acaso”) esse controlo não existiria.
5. Em 2019 (Tom Garlinghouse, 18dec2019, “Origin story: Rewriting human history through our DNA”, Princeton) essa visão darwinista fragmentada
da Vida humana sofreu mais um revés. Afinal todos os Humanos possuem 0,5 a 6% de
Neandertais. “People want to learn about their past. But even more than that, we want to know what it means to be human. Anatomically, the modern humans evolved in Africa some 200,000 years ago” (Joshua Akey, Lewis-Sigler Institute for Integrative
Genomics). “During his graduate work at the University of Texas Health Science Center at Houston in the late 1990s, Akey, looked at how contemporary humans in different parts of the world were genetically related to one another, and used early gene sequencing
methods to try to understand these relationships.” (Tom Garlinghouse, 18dec2019).
6. É preciso não esquecer que aquilo a que chamamos “corpo humano” é
muitas espécies, não apenas uma. “Mais de metade do corpo humano não é de facto humano. As células consideradas humanas perfazem apenas 43% da contagem total, o resto são bactérias do microbioma” (Ruth Ley, Max Planck Institute, 2018). “Geneticamente
somos mais micróbios do que humanos” (Rob Knight, Universidade da Califórnia/San Diego/EUA, 2018).
7. Foi a critica a essa teoria fragmentada da Vida herdada do darwinismo que nos levou a revalorizar o que tinham dito Plessner e Iser: "Rather
than being himself, then, Human is his own Other, his double (doppelgänger).
Drawing upon Helmuth Plessner's "On the Anthropology of the Actor", Iser thus maintains - perhaps paradoxically - that authentic living is akin to "the actor's protean art of metamorphosis".
8. Foi também pela mesma razão que considerei central, na compreensão da Vida humana, a reflexão sobre a asserção de L.Wittgenstein (Tratado Lógico-Filosófico)
e o teorema da indecidibilidade de K.Gödel (1931, "Über formal unentscheidbare Sätze der Principia Mathematica und verwandter Systeme I”, in Monatshefte für Mathematik und Physik, vol 38, pp. 173-198). Porque a desproporção entre o exponencial número
de “espécies” (incluindo o seu processo de complexidade) e a escassez dos recursos e nutrientes existentes nos Ambientes onde aparecem, desdiz e refuta a tese darwinista (nas suas actuais formulações “neo-darwinistas”, “gene-cultura” e “socio/etnobiológicas”)
de ter sido a “adaptação” a gerá-las. Logo, há necessariamente a tal «premissa exterior ao que se é» que Wittgenstein e Gödel discerniram a nível lógico. De facto, ao analisarmos empiricamente os factos com rigor científico verificamos que o Ser-humano (e
a tal “Vida” que germina nele e o impulsiona) mais do que “adaptar-se” a um Ambiente, transforma aquilo que o rodeia para
Continuar/Sobre-viver. Nem se dirige ao Ser que é, mas ao Ser que Há-de Vir.
9. Assim sendo, formulo a questão da "Vida" do seguinte modo:
i) A
casa (suporte, substracto, substância, corpo) não é quem está lá dentro. Qual é a motricidade do
Ser (bit) que perpetra o Corpo (it)? Será igual à dos «objetos» de que ele se serve para fazer (iniciar, acender) a Vida, incluindo o corpo anatómico? Logo, é um processo contínuo da matéria, mas em dois estados e níveis de acção
diferentes.
ii) Assim, a passagem do que é designado por «não-Vida» para o que é designado por «Vida» ocorre quando, estabelecidos esses dois estados
e níveis de acção diferentes, um (o bit/Ser) passa a guiar o outro (o it/corpo/casa/suporte/substracto/substância). Sendo essa a condição e a assinatura/marcador da "Vida".
Pedro Manuel-Cardoso |
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