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Re: [Museum] [Archport] A questão do espólio subaquático em risco. Directora-Geral da DGPC instaura processo disciplinar

To :   "'Francisco Sande Lemos'" <sandelemos@gmail.com>, 'José d'Encarnação' <jde@fl.uc.pt>
Subject :   Re: [Museum] [Archport] A questão do espólio subaquático em risco. Directora-Geral da DGPC instaura processo disciplinar
From :   "PedroManuelCardoso" <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Wed, 17 Jan 2018 16:03:40 -0000

 

Ao ler a mensagem de Francisco Sande Lemos, instantaneamente, vieram-me ao espírito as palavras que Pedro Calafate escreveu a propósito do grande Português que foi José Marinho.

Talvez seja importante recordá-las aqui, agora.

 

 

“Do atentado político a Salazar decorreu a obrigação imposta aos funcionários públicos de assinarem um telegrama repudiando tal atentado. José Marinho não assinou, e subscreveu sozinho um outro texto, o que lhe valeu a expulsão do magistério oficial em termos tais que ele e um monárquico, foram os únicos funcionários do Estado que, nunca viram publicado um decreto a possibilitar a sua reintegração. Expulso do Magistério, José Marinho também esteve preso alguns meses no Limoeiro. O médico Manuel H. Leitão, contava que Marinho em momento algum deixara de manter a mesma alegre disposição. “Logo de manhã a manifestava, ao fazer a barba à janela de grades, cantando árias de óperas” (p.39) … “Viveu sempre na cidade e era um homem de cidade. Nunca foi ao estrangeiro, a não ser, numa excursão de domingo, a Sevilha, quando era professor no liceu de Faro, e dizia que o fizera enganado pelos colegas que o haviam convidado para um almoço numa localidade vizinha. José Régio, que também nunca foi ao estrangeiro, lembrava, a abrir «A Sarça Ardente», obra-prima da poesia contemporânea: “O mundo é vasto mas repete-se, e é fácil esgotá-lo” (p.42) … “Nos últimos 15 anos de vida, conseguiu enfim libertar-se das «explicações» e do calcorreio diário das ruas de Lisboa por ter obtido, muito esforçadamente, um emprego na Fundação Calouste Gulbenkian.” (in Revista «Cultura Portuguesa» n.1, Agosto-Setembro 1981, Secretaria de Estado da Cultura, direção de Afonso Botelho e Lima de Freitas, Biblioteca Nacional, Lisboa, p.42).

 

 

 

José Marinho (1904-1975)

José Marinho situa-se entre os discípulos de Leonardo Coimbra, empenhado no movimento de reabilitação da «filosofia portuguesa» numa linha profundamente crítica do racionalismo moderno bem como da nossa tradição escolástica e posteriormente positivista. Neste plano de consideração, a sua preocupação marcante foi a de encontrar um espaço para a singularidade da nossa cultura filosófica sem negar a aspiração universal e universalizante da filosofia.

 

Para Marinho, a humanidade pensa-se necessariamente em cada um dos humanos e daí a noção de uma universalidade singular e concreta, à luz da qual se tornaria possível equacionar o problema de uma filosofia nacional. Não havendo pensar radicado senão no homem situado, Marinho parte da constatação, na sua análise do pensamento português contemporâneo, de que, entre nós como na restante Europa, a razão se cinde quase sempre em formas contrapolares: uma razão «conceptual» ou ainda só «conceptiva», «que busca a compreensão e a possível harmonia dos diversos»; e uma «razão judiciosa», que encarnaria a grave responsabilidade de excluir como erróneo ou falso «o que ainda não é verdadeiro».

 

Pedro Calafate

 

 





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