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Re: [Museum] Imersividade e Pós-Imersividade: Passados quase vinte anos, o que aconteceu ao Património dos «Objetos Sensíveis» nos Museus?

Subject :   Re: [Museum] Imersividade e Pós-Imersividade: Passados quase vinte anos, o que aconteceu ao Património dos «Objetos Sensíveis» nos Museus?
From :   Pedro Pereira <pedropereiraoffic@outlook.com>
Date :   Wed, 31 Oct 2018 12:53:58 +0000

 

Agradeço as generosas palavras de Isabel Luna.

Sendo assim, talvez pudéssemos partilhar um pouco mais.

Também desde o início, mesmo antes de iniciar os estudos académicos em antropologia, nos idos anos de 1980 na UNL, a preocupação com o factor «Corpo» foi um fio condutor das minhas preocupações. Em 1990 estabelecemos uma relação estreita com o CNRS através de Bernard Koechelin (o Anexo 1 que junto é uma relíquia desses idos tempos, em que não havia computadores nem Internet, e os textos tinham que fazer viagens longas). Em 1994 fundámos o Museu da Gestualidade (Escritura Notarial em 24/09/1993; publicado no Diário da República, III.ª série, n.º 68, de 22/03/1994). E depois esse caminho prosseguiu pela ajuda que o Museu Nacional do Desporto e o Comité Olímpico de Portugal me têm pedido para os seus projetos museológicos. Pelo projeto «Arte e Gesto» que apresentámos à CML em 10dez2003. Pelo «Protocolo de Investigação da Gestualidade Humana» registado em 11março2013 no IGAP. Até aos convites que deram origem à minha intervenção em 19abril2016 na Assembleia da República e na Faculdade de Motricidade Humana, integradas nas comemorações do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios 2016 subordinado ao tema “Desporto, Um Património Comum”. E mais recentemente, neste mês de Outubro, no debate que a Oficina Žylěch promoveu a propósito da minha proposta para a implementação do «Museu Omnipresente» (enquanto modelo de reformulação dos processos de comunicar o Património).

A questão tinha sido discernida há muito tempo. Até há muito mais do que as referências que mencionei na mensagem anterior. Por exemplo, em 1950, por C. Lévi-Strauss:

“O conhecimento das modalidades de utilização do corpo humano seria, portanto, particularmente necessário numa época em que o desenvolvimento dos meios mecânicos à disposição do Homem tende a desviá-lo do exercício e da aplicação dos meios corporais, salvo no domínio do desporto, que é uma parte importante, mas apenas uma parte, das condutas consideradas por Marcel Mauss, e aliás variável conforme os grupos. Almejaríamos que uma organização internacional como a UNESCO se propusesse à realização do programa traçado por Mauss. Uns Arquivos Internacionais das Técnicas Corporais... (esse inventário representaria)... uma obra verdadeiramente internacional, pois não existe no Mundo um único grupo humano que não pudesse dar a esta iniciativa um contributo original. Ademais, trata-se aqui de um património comum e imediatamente acessível a toda a humanidade; de um património cuja origem repousa no fundo dos milénios, cujo valor prático permanece e permanecerá sempre actual, por ter a forma de experiências vividas, permitindo que cada ser humano se torne sensível à solidariedade ao mesmo tempo intelectual e física, que o une a toda a humanidade. A empresa seria altamente capaz de enfrentar os preconceitos de raça, pois, diante das concepções que querem ver no Homem um produto do seu corpo, mostraria, ao contrário, que é o Homem, sempre e em toda a parte, que soube fazer do seu corpo um produto das suas técnicas e das suas representações.” (Claude Lévi-Strauss in “Introdução à obra de Marcel Mauss, 1950).

 

O «Corpo», este nosso corpo, é o mediador a que estamos condenados pela Natureza. Logo, a «condição» a que estamos sujeitos no processo de percepcionar, interpretar e compreender o Património. Nesse volume da Wenner-Gren, esse esquecimento do «corpo» como mediador, não faz mais do que remeter para essa velha questão que as actuais tecnologias imersivas continuam a não conseguir resolver.

Mais recentemente, neste mês de Outubro 2018, no debate que a Oficina Žylěch promoveu a propósito da minha proposta para a implementação do «Museu Omnipresente» (enquanto modelo de reformulação dos processos de comunicar o Património) falámos outra vez dessa questão.

A «Condição Humana» (esse factor que subjaz e interfere em tudo o que o ser-humano intervém) para ser algo objetivo e concreto, e sujeito ao escrutínio científico e lógico, tem que ser explicitada. É esse contributo que tentei dar, através da formulação daquilo que designei por “Modelo Antropológico do Comportamento Humano” (2012, UNL e UL). Porque não basta “pensarmos”, como se de uma sensação ou de um acto automático se tratasse, sem nos obrigarmos a explicitar o modelo pelo qual o fazemos. Foi esse erro e essa lacuna que demorou a ultrapassar até o início do séc. XXI nas ciências sociais e humanas.

No Anexo 2 junto esse tal Modelo, em que são consideradas «quatro Variáveis e três Descontinuidades» desse «Processo Humano», isto é,  dessa «Condição Humana» a que não podemos fugir. E que intervém na percepção e compreensão de qualquer tipo de Património em qualquer tipo de Museu. Concretamente as etapas biofisiológicas, sociais e culturais desse processo de mediação, pelo qual, do Corpo se passa à Atribuição do Significado (finalidade, valor, sentido, relevância/património).

O Modelo está aplicado ao caso dos recentes projetos museológicos e patrimoniais do Museu Nacional do Desporto e do Comité Olímpico de Portugal, por me terem sido recentemente pedidos. Mas pode ser facilmente ser generalizado.

Nesse Modelo poder-se-á ver como isso intervém na definição do Projeto Museológico, e obriga a arquitectura/design a seguirem a definição do programa preliminar de instalação nos cadernos de encargos e no concurso público, e a configuração dos espaços da Exposição Permanente.

A «condição humana» de percepção e compreensão mediada pelo corpo-humano é o factor que está sempre ausente nos atuais projetos de Museus e de interpretação do Património. Substituída por essa «imersividade à la carte», decidida por arquitectos, designers e outros interventores, sem respeitar esse factor antropológico que é decisivo para os Visitantes compreenderem o valor patrimonial dos Objetos, e a sua singularidade histórica e cultural (humana). Basta consultar os documentos dos Concursos Públicos para a implementação de Museus nos últimos anos em Portugal.

O Museu Omnipresente que propus, chama a atenção para a mudança nos processos de comunicar o Património que estão a ocorrer no presente. E para os quais se torna imprescindível esta questão. Porque obrigariam a reformular uma parte significativa da atual política pública de património e museus

É para esse debate e essa reflexão que talvez seja útil partilhar esta mensagem.

 

Pedro Manuel-Cardoso

 

 

 

Attachment: Biblio PMC Modelo do Agir Humano Modelo das 4 Variáveis e 3 Descontinuidades.pdf
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Attachment: Museu da Gestualidade 1993 Geste et Image CNRS.pdf
Description: Museu da Gestualidade 1993 Geste et Image CNRS.pdf


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