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Caro Pedro,
Muito agradeço a tua reflexão, que me faz reflectir também. Creio que temos pela frente novos e estimulantes momentos de diálogo.
Como sabes, tenho-me dedicado muitíssimo nos últimos anos a estudar e viver experiências de museologia comunitária, no nosso país, na Europa e em partes da América Latina. Propus na recente Assembleia Geral em Quioto uma Recomendação, que vi ser aprovada por amplíssima maioria e adoptada como Resolução (“Museums, Communities and Sustainability”), para que o ICOM acompanhe com atenção, estimule e apoie as experiências novas de desenvolvimento comunitário em que a componente museológica pode não revestir a forma de museu, tal como o definimos hoje (podes lê-la aqui: https://icom.museum/wp-content/uploads/2019/09/Resolutions_2019_EN.pdf). Não me são por isso estranhos esses novos actores e essas novas gramáticas. Ainda há pouco co-editei um livro nesse âmbito, onde a minha modesta participação se limita a apreetar o modelo conceptual que elaborei e acentua r a dimensão de empoderamento social que os museus são chamados a promover (cf. On Sustainable and Community Museums, edited by Karen Brown, Peter Davis, and Luis Raposo , ISBN 978-972-9257-29-2; disponível para descarregar gratuitamente aqui: https://www.google.com/search?source=hp&ei=4jYSXsnsI4uIlwS2gJuYBQ&q=karrn+raposo+davis+sustainable+musrums&oq=karrn+raposo+davis+sustainable+musrums&gs_l=mobile-gws-wiz-hp.3..33i160.2554.15706..16359...0.0..0.347.5251.7j29j1j1......0....1.......0..0j46j46i131j46i275j0i131j46i10i275j0i10j46i10j46i13i275j0i13j46i13j0i19j0i22i30i19j0i22i30j30i10j33i21.Coga0oDU54U). Propus, aliás, que a nova definição do ICOM acrescentasse "social empowrement" como uma das finalidades dos museus.
Tenho discutido muito, e com grande proveito meu, estes temas com gente como Hugues de Varine, Teresa Morales ou Peter Davis (só para citar três referências de três concepcões diferentes da museologia comunitária). Ainda hoje tive o gosto de ler a reacção positiva do Huges de Varine a este meu artigo sobre desafios para 2020.
Faço, todavia, tudo isto preservando a defesa da originalidade e irredutibilidade do "ser museu" e dos seus profissionais. Dizes que o faço com moderação e bom senso - o que agradeço. Dizes também que o faço desde uma posição de aristocrata esclarecido, modelado pela minha inserção institucional. Mesmo rejeitando eu o aristocrata, reconheço que tens também aqui alguma razão. Sobretudo porque o contrário de aristocrata poderia ser, dizem os dicionários, ruão, plebeu ou vilão.
E depois, sabes, eu falo da realidade que existe. Não me consumo a criar castelos de cartas. E esta realidade, queiras ou não, é a de muitas dezenas de milhares de museus e de profissionais de museus que constituem a comunidade em que me insiro. Nem sequer falo de tudo o resto, que se teria de medir em milhões (coleccões, visitantes, actividade económica, incluindo empregos, etc.), porque sei que sempre me dirias que isso a ti pouco te importa (a mim não, devo esclarecer).
Enfim, renovo os agradecimentos e estou certo que vamos poder conversar muito mais sobre tudo isto. Porque não promovermos proximamente algum debate sobre estas matérias? Contas comigo, como eu sei que conto contigo.
Abraço amigo.
Luís Raposo
Quoting Pedro Leite <>:
Neste início do ano tem vindo a ser apresentadas nesta lista várias opiniões sobre o futuro dos museus. Numa delas Luís Raposo publicada no Público e aqui difundida, e uma outra ao na forma de polémica doPedro Manuel Cardoso. No essencial tem sido a ser coerentes com as posições que aqui tem vindo a ser apresentadas.
Apesar da estima e consideração que tenho pelo Luís Raposo, pelo trabalho que tem vindo a desenvolver nos últimos 40 anos, tendo a achar que a opinião do meu colega Pedro Cardoso Pereira merece alguma atenção mais profunda.
Não é que o Luís Raposo não tenha razão em algumas das questões que levanta: a profunda e grave degradação dos recursos humanos dos museus portugueses e a desorientação estratégica dos modelos de gestão. Noutra mais polémica sobre a “especificidade” do equipamento social “museu”, já não terá unanimidade, na minha opinião, mas compreende-se que a assuma, como ator comprometido com a política nacional de museus.
Luís Raposo é um aristocrata esclarecido, posicionado no campo da arqueologia, que nunca embarcou em devaneios “aventureiros” sobre ações rebeldes dentro da gramática museográfica. Embora comprometido com a sociedade, a ação é moderada pela experiencia institucional. É uma posição que é de respeitar! Neste texto posiciona-se habilmente nesse mundo dos museus, com moderação e bom senso, reivindicando a sua condição de profissional de museus.
Não deixa de ser curiosas, pela diversidade de categorias que introduz no debate, os posicionamentos sobre a recente e ainda não terminada polémica sobre a definição de Museu que corre no ICOM. A sua proposta é sensata e encontra-se bem ancorada os exemplos que avança, usando o caso português como ilustração.
Usando como metáfora o texto dramático de Samuel Beckett “À Espera de Godot”, (disponível entre nós nas edições Cotovia), a solução dos desafios para os museus está, na opinião de Raposo, nos profissionais dos museus. Só com uma aposta nos profissionais se pode enfrentar os desafios do ano, o que não estando previsto no atual modelo de gestão, não deixa de poder ser possível “remediar” (como agora se diz).
Ora aqui tendo a divergir da opinião esclarecida e moderada e a juntar-me a posição de Pedro Cardoso Pereira “O maior desafio dos Museus, talvez seja, vencerem a sua vaidade e o seu egocentrismo.”. Ou seja: na minha modesta opinião o que Raposo considera como “desafio” são “problemas”: Já o foram em 2019, no anto anterior; já o eram há dez anos. Quando ao longo duma década os desafios são os mesmos, ano após ano, a questão é mais um problema.
Como resolver o problema? É sabido que um problema só se resolve quando a sua solução se encontra formulada. Ou seja. Aquilo que hoje pressentimos como falta, como caminho desejável para atingir um fim talvez esteja mal enunciado. Assim, se por hipótese considerarmos que esse não é o caminho e esses não são os fins (o objeto), então procuramos outros pontos de vista. (ultrapassamos os limites). E esse é o que nos propõe Pedro Cardoso Pereira: Tal como na metáfora de Godot, deixar de esperar que Deus se apresente à chamada, para ir para o mundo à procura da maçã que está na “árvore da vida”.
Afinal o que faz falta é reinventar-nos. Para isso necessitamos de outros museus, de outros profissionais, de outras academias e de pensar de formas diferente. Na minha opinião os novos atores com novas gramáticas afinal já estão por aí! Já se reinventaram e já operam com novas categorias. Não serão o fim dos museus tal como os conhecemos, mas terão outras formas. E esse é a discussão que vale a apena ter, como enuncia Cardoso Pereira: reunir a tribo, delimitar problemas e … saber quem tem unhas para tocar novas baladas.
Por mim estarei a experimentar as novas sonoridades urbanas em trânsitos entre o Balfon e as Tchimbilas, a promover oralidades a oriente, seguindo aqui as polémicas da tugolândia. Tenham um bom Ano.
Pedro Pereira Leite
( Ph. D )
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